O sol incendeia as areias alaranjadas e o vento sopra entre as veredas de buriti. No leste do Tocantins, o Jalapão guarda mais de 20 fervedouros que desafiam a gravidade, dunas de até 40 metros e um cerrado preservado em 34 mil km² de natureza bruta.
Por que o Jalapão é chamado de deserto dourado?
O apelido nasceu das dunas alaranjadas formadas pela erosão milenar das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo. O vento moldou a areia fina ao longo de milhares de anos e criou um cenário que muda de cor conforme a luz do sol. No fim da tarde, o dourado vira cobre e o silêncio só é interrompido pelo vento que desce a serra.
O Parque Estadual do Jalapão foi criado em 12 de janeiro de 2001 pela Lei Estadual 1.203, com cerca de 159 mil hectares concentrados no município de Mateiros. A unidade integra um mosaico de proteção que inclui a APA do Jalapão e a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, formando o maior trecho contínuo de Cerrado preservado do país.

O que torna os fervedouros únicos no mundo?
Os fervedouros são nascentes de rios subterrâneos alimentadas pelo Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água do Brasil. A água jorra do lençol freático com pressão tão intensa que atravessa uma camada de areia fina e empurra qualquer pessoa para a superfície. O fenômeno se chama ressurgência e não se repete com essas características em nenhum outro lugar do planeta.
Apesar do nome sugerir calor, a água é fria e cristalina, com tons de azul que variam de fervedouro para fervedouro. A National Geographic Brasil descreveu a sensação de boiar em um fervedouro como flutuar em uma piscina sem esforço, em meio a um oásis verde no coração do Cerrado.
São cerca de 20 fervedouros descobertos, com regras rígidas de visitação. Cada grupo costuma ser limitado a dez pessoas por vez, com tempo máximo de 20 minutos no banho, para preservar a estrutura do solo e a pressão da água.

Reconhecimento nacional e internacional do Jalapão
O Jalapão ficou décadas escondido pelo difícil acesso, até ganhar projeção fora do Brasil. Em 2008, a rede americana CBS gravou na região a 18ª temporada do reality show Survivor: Tocantins. Em 2017, a novela O Outro Lado do Paraíso, da Rede Globo, usou fervedouros, dunas e comunidades quilombolas como cenário, e triplicou o turismo na região quase da noite para o dia, conforme reportagem da National Geographic.
O reconhecimento se consolidou em números. O Parque Estadual do Jalapão recebeu 240 mil visitantes em 2024, contra 54 mil em 2023, segundo dados do Governo do Tocantins. Em 2026, Palmas e o Jalapão entraram na lista dos 50 destinos para viajar no Brasil do estudo Índice de Viagem e Turismo (IVT), conforme divulgado pela Secretaria de Estado do Turismo do Tocantins, ao lado de destinos consolidados como Lençóis Maranhenses e Fernando de Noronha.
O que fazer no paraíso brasileiro do Cerrado?
A região reúne fervedouros, cachoeiras, dunas e formações rochosas em distâncias que exigem 4×4. Confira as atrações imperdíveis:
- Fervedouro do Ceiça: o primeiro aberto à visitação, em Mateiros, cercado de bananeiras e com águas azul-claras.
- Fervedouro Bela Vista: o maior e mais famoso, com infraestrutura completa e tons de azul intenso.
- Dunas do Jalapão: areia de quartzo alaranjada na base da Serra do Espírito Santo, ponto obrigatório para o pôr do sol.
- Cachoeira da Velha: maior queda do parque, em formato de ferradura, alimentada pelo Rio Novo, com 100 metros de largura e prática de rafting.
- Cachoeira do Formiga: poço de águas verde-esmeralda em Mateiros, ideal para mergulho.
- Pedra Furada: formação de arenito esculpida pelo vento, em Ponte Alta do Tocantins, perfeita para fotos no fim do dia.
- Serra do Espírito Santo: trilha de oito km até o mirante panorâmico das dunas e do cerrado.
Mais do que paisagem, o Jalapão guarda uma cultura ancestral nas comunidades quilombolas. A maior referência é o povoado Mumbuca, a 22 km de Mateiros, berço do artesanato em capim dourado.
O capim-dourado não é capim nem é ouro. A Syngonanthus nitens é uma sempre-viva costurada com seda de buriti pelas artesãs da comunidade, em técnica transmitida pelos indígenas Xerente no início do século XX. A colheita é regulamentada pela Portaria 362 do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins) e só pode acontecer entre 20 de setembro e 20 de novembro de cada ano.
O reconhecimento cultural veio em camadas. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconhece a relevância da produção, e o memorial Vozes da Cultura Jalapoeira recebeu menção honrosa no Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade em 2020. Em 2024, a Lei Federal 15.005 reconheceu oficialmente o artesanato em capim dourado como manifestação da cultura nacional. A WWF Brasil mantém projeto de fortalecimento da cadeia produtiva do capim dourado em parceria com as artesãs locais.
Quem deseja explorar as maravilhas do Tocantins, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 737 mil visualizações, onde os apresentadores mostram um guia completo com roteiro de 5 dias pelo Jalapão:
Qual a melhor época para conhecer o Jalapão?
A melhor janela vai de maio a setembro, quando a estação seca firma as estradas e o céu permanece aberto. Veja o que esperar de cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Mateiros, cidade-base do Jalapão. Condições podem variar.
Como chegar ao coração do Tocantins?
O ponto de partida é Palmas, capital do Tocantins, que recebe voos diários de Brasília, São Paulo e Goiânia. De lá, são cerca de 300 km até Mateiros: o trecho asfaltado segue pelas rodovias TO-050 e TO-255 até Ponte Alta do Tocantins. A partir desse ponto, começam aproximadamente 165 km de estrada de terra com areia fofa e pontes estreitas, percurso que exige veículo 4×4 e leva entre cinco e seis horas.
A maioria dos visitantes contrata expedições com agências credenciadas pelo Naturatins, em roteiros de quatro a seis dias saindo de Palmas, com transporte, guia e hospedagem incluídos. Andar por conta própria é arriscado, principalmente fora da estação seca.
Conheça o paraíso bruto do cerrado tocantinense
O Jalapão entrega o que parece impossível: dunas no meio do cerrado, nascentes onde ninguém afunda e comunidades que transformam capim em ouro com as mãos. Cada estrada de terra cobra o preço da aventura e devolve em paisagem.
Você precisa sacolejar nessas estradas de areia, flutuar em um fervedouro e assistir ao sol incendiar as dunas pelo menos uma vez na vida.






