A 50 km da capital portuguesa, Setúbal guarda um feito que poucos associam às suas ruas: foi aqui que D. João II ratificou o Tratado de Tordesilhas, em 1494, dividindo o planeta entre Portugal e Espanha. Cinco séculos depois, a cidade combina esse peso histórico com praias de água cristalina, golfinhos residentes e uma das baías mais bonitas do mundo.
O tratado que dividiu o mundo nasceu à beira do Sado
Assinado na vila castelhana de Tordesilhas em 7 de junho de 1494, o tratado só ganhou força legal quando o rei português o ratificou em Setúbal, a 5 de setembro do mesmo ano. D. João II estava doente e permaneceu na cidade durante toda a negociação, trocando mensagens com os seus embaixadores em Espanha. O documento traçou o meridiano que deu a Portugal o caminho marítimo para a Índia e, seis anos depois, o Brasil.
O local dessa ratificação foi o Convento de Jesus, considerado o primeiro ensaio do estilo manuelino em Portugal. Projetado por Diogo Boitaca, o mesmo arquiteto do Mosteiro dos Jerónimos, o convento tem colunas torsas esculpidas em pedra da Arrábida e abóbadas que anunciam a era dos Descobrimentos. Reaberto em 2024 após requalificação, o espaço abriga hoje o Museu de Setúbal, com mais de 6 mil peças no acervo.
Como é viver numa cidade entre a serra e o estuário?
O cotidiano setubalense alterna entre o ritmo urbano e a proximidade da natureza. A Avenida Luísa Todi, principal artéria da cidade, concentra comércio, cafés e restaurantes a poucos minutos a pé do rio. O centro histórico preserva vestígios fenícios e romanos, praças com esplanadas sombreadas e ruas onde o peixe grelhado tempera o ar ao meio-dia.
O comboio da Fertagus liga Setúbal a Lisboa em cerca de uma hora, o que permite trabalhar na capital e viver com vista para a serra. A cidade conta ainda com hospital, universidade e uma rede de ciclovias que acompanha a orla do Estuário do Sado.
Golfinhos residentes que só existem em três locais da Europa
O Estuário do Sado abriga uma comunidade de cerca de 26 golfinhos roazes-corvineiros, a única população sedentária deste cetáceo em Portugal e uma das três em toda a Europa. Os animais têm nomes próprios, como Estrela, Luz e Bisnau, e são identificados pelo recorte da barbatana dorsal. O nome “roaz” vem do hábito de roer as redes dos pescadores, e “corvineiro” remete à corvina, peixe que voltou a ser abundante no estuário.
Passeios de barco partem do cais de Setúbal com taxa de avistamento superior a 95%. Em agosto, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) restringe a observação na entrada do estuário para proteger as crias. O Centro Interpretativo do Roaz, na Casa da Baía, tem entrada gratuita e painéis interativos sobre a comunidade sadina.

O que visitar entre a Arrábida e a Península de Troia?
A serra e o mar oferecem atrações para o dia inteiro. Algumas ficam a menos de 20 minutos do centro da cidade.
- Parque Natural da Serra da Arrábida: criado em 1976, protege cerca de 10.500 hectares de mata mediterrânica. A subida até a Serra do Risco revela o ponto mais alto da costa portuguesa continental.
- Praia de Galapinhos: já eleita uma das mais belas da Europa, tem areia branca e água transparente encaixada entre falésias verdes.
- Portinho da Arrábida: ideal para mergulho e snorkeling, com corais e diversidade de peixes pouco comum no Atlântico.
- Mercado do Livramento: inaugurado em 1930, foi eleito pelo USA Today um dos melhores mercados de peixe do mundo. As paredes exibem mais de 5.700 peças de azulejo que retratam a vida agrícola e pesqueira da cidade.
- Península de Troia: acessível por ferry em 20 minutos, combina praias extensas com ruínas romanas de uma antiga fábrica de salga de peixe.

Choco frito, Moscatel e queijo de ovelha à mesa
A gastronomia setubalense gira em torno do mar e dos produtos da serra. O choco frito nasceu nas tascas de pescadores nos anos 1970 e hoje é servido em centenas de restaurantes. Todo mês de março, a cidade celebra o Festival do Choco Frito.
- Choco frito: tiras de molusco panado, servidas com batata frita e limão. A Casa Santiago, aberta desde 1974, é uma das referências.
- Queijo de Azeitão: queijo curado de leite de ovelha, produzido na vila vizinha de Azeitão, com interior cremoso e casca lavada.
- Moscatel de Setúbal: vinho generoso com séculos de tradição. A José Maria da Fonseca, fundada em 1834, oferece visitas guiadas com degustação.
- Tortas de Azeitão: rolos finos de massa de ovo polvilhados com açúcar, comprados nas pastelarias da região.
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
Setúbal tem clima mediterrânico, com verões quentes e secos e invernos amenos. A proximidade do mar suaviza as temperaturas ao longo do ano.
Melhor época do ano por estação
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Jun–Ago | 18–30 °C | Baixa | Praias da Arrábida e golfinhos |
| Outono | Set–Nov | 14–24 °C | Média | Trilhas na serra e vindimas |
| Inverno | Dez–Fev | 8–15 °C | Alta | Museus, mercado e gastronomia |
| Primavera | Mar–Mai | 12–22 °C | Média | Festival do Choco e ciclismo |
Temperaturas aproximadas. Condições atualizadas no IPMA.
Como chegar à cidade sadina?
Setúbal fica a 50 km de Lisboa pela A2, cerca de 40 minutos de carro após cruzar a Ponte 25 de Abril. O comboio da Fertagus parte da estação Roma-Areeiro e chega em aproximadamente uma hora, com bilhete a partir de 4,55 euros. A linha de autocarro 755 da Sul do Tejo faz o trajeto a partir da Praça da Espanha, em Lisboa.
Confira o vídeo do canal no YouTube “Passos Pelo Mundo”, onde ela mostra um pouco sobre essa cidade incrível:
A baía que merece ser conhecida de perto
Setúbal é uma das poucas cidades europeias onde se pode observar golfinhos selvagens pela manhã, almoçar choco frito num mercado centenário e percorrer trilhas de mata mediterrânica antes do pôr do sol. A Baía de Setúbal, membro do Clube das Mais Belas Baías do Mundo desde 2002, resume bem essa riqueza compacta.
Você precisa cruzar a ponte, descer até o Sado e sentir Setúbal no ritmo que ela merece, entre a serra, o rio e a mesa farta de uma cidade que dividiu o mundo e continua generosa com quem a visita.




