Uma data fácil de lembrar, esse foi o critério que Sanne Christensen usou para começar sua jornada de transformação. Em 1º de janeiro de 2024, a dinamarquesa de 41 anos aplicou sua primeira injeção de Wegovy, medicamento para perda de peso. Quinze meses depois, ela havia perdido 96 quilos, mais da metade do seu peso corporal inicial de 168 quilos. O mais surpreendente: 80 quilos foram perdidos antes mesmo de começar a se exercitar. Sua história desafia conceitos tradicionais sobre emagrecimento e levanta questões importantes sobre os novos tratamentos farmacológicos para obesidade.
Antes de descobrir o Wegovy, Sanne vivia uma realidade devastadora. Uma doença renal, hábitos alimentares ruins e problemas nas costas que ela descrevia como “uma espinha dorsal como uma minhoca” a mantinham pesando 168 quilos. As internações hospitalares eram frequentes – seis vezes em um ano – e sua mobilidade estava severamente comprometida. A obesidade não era apenas um problema estético, mas uma ameaça real à sua sobrevivência.
“Em dezembro de 2023, o mês antes de receber minha primeira caneta Wegovy, disse ao meu psicoterapeuta que esperava não acordar quando fosse dormir”, revelou Sanne sobre seu estado mental antes do tratamento.
A doença renal, pressão alta, artrite e gota faziam parte de seu cotidiano. Ela não conseguia imaginar um futuro além de ficar sentada em casa, afastada do mercado de trabalho há vários anos. Era uma situação que ela descreveu como “uma mudança de estilo de vida impensável” até conhecer a possibilidade do tratamento medicamentoso.
O efeito imediato que mudou tudo

A transformação começou no primeiro dia. Assim que aplicou a primeira injeção em 1º de janeiro de 2024, Sanne notou uma mudança radical em sua relação com a comida. Os pensamentos obsessivos sobre alimentação, que antes dominavam sua mente, simplesmente desapareceram. Ela ficava saciada muito mais rapidamente do que antes e sentia que finalmente havia desenvolvido “paz com a comida”.
No início do tratamento, Sanne consumia apenas 500 calorias por dia e se sentia completamente satisfeita. Ela registrava meticulosamente cada caloria em um aplicativo, não por obsessão, mas por necessidade de sobrevivência – para garantir que estava ingerindo o suficiente para manter-se nutrida. A mudança foi tão drástica que ela precisou reaprender completamente seus hábitos alimentares.
“Consegui paz mental com a comida ao tomar Wegovy. É realmente incrível”, disse sobre a transformação em sua relação com a alimentação.
A revolução alimentar sem academia

Antes do tratamento, Sanne comprava frequentemente sacolas “Too Good To Go” cheias de pão branco e, quando comia salada, ela precisava “cobrir” com molho integral. Suas escolhas alimentares eram guiadas principalmente pelo preço baixo, sem consideração nutricional. A transformação foi radical: hoje ela usa suco de limão como molho e a maior parte de sua geladeira contém produtos light.
As porções também mudaram dramaticamente. Uma única fatia de pão integral a deixa saciada, e ela serve suas pequenas porções em pratos de café da manhã para que pareçam mais substanciais visualmente. Durante os primeiros 80 quilos de perda de peso, ela não conseguia se exercitar devido às limitações físicas causadas pela obesidade e pela doença renal.
“Havia perdido cerca de 80 quilos antes de começar a treinar”
explicou sobre como a maior parte da perda de peso aconteceu sem atividade física.
O retorno à vida ativa e social
Somente em outubro de 2024, após perder a maior parte do peso, Sanne começou a se exercitar. Primeiro participou de aulas em grupo oferecidas pelo município, depois passou a treinar também em casa. Usa kettlebells, faz agachamentos e abdominais, com meta de atingir 10.000 passos diários. O exercício, que antes era impossível, agora se tornou prazeroso.
A transformação física trouxe mudanças sociais profundas. Antes, Sanne sentia que as pessoas olhavam julgadoramente para seu carrinho de compras no supermercado. Se pegasse um ônibus para distâncias curtas, temia que o motorista a considerasse preguiçosa. Essas preocupações a mantinham isolada em casa, e ela podia passar mais de uma semana sem ver ninguém além de rostos anônimos na rua.
“Talvez seja exagero dizer que sou autoconfiante, mas hoje eu simplesmente vou em frente. É incrivelmente libertador. E isso libera espaço no cérebro”, refletiu sobre sua nova mentalidade.
Hoje, Sanne tem compromissos sociais regulares, participa de estágios profissionais e frequenta treinos. Ela se sente novamente como uma pessoa social e está considerando retornar ao mercado de trabalho após anos de afastamento. O medicamento eliminou quatro remédios para pressão alta que ela tomava diariamente, e sua função renal melhorou significativamente.
A jornada de Sanne Christensen ilustra como os novos tratamentos farmacológicos para obesidade podem oferecer esperança para casos severos onde métodos tradicionais falharam. Ela mantém-se na dose mais baixa do medicamento e planeja eventualmente interromper o tratamento, confiando que os novos hábitos alimentares e de exercício que desenvolveu a ajudarão a manter o peso. Diferente de uma tentativa anterior com a dieta Dukan em 2011, quando perdeu 50 quilos apenas para recuperar ainda mais peso, desta vez ela acredita estar “mais forte e bem equipada” para o desafio de manter a transformação. Sua história representa esperança para milhões que lutam contra a obesidade severa, mostrando que soluções médicas modernas podem criar oportunidades reais de mudança quando combinadas com determinação pessoal.






