A 28 metros de profundidade, sob o nível d’água de aquíferos urbanos saturados, o concreto projetado e as estacas prancha convencionais encontram seu limite físico contra a liquefação instantânea da areia fina. Centenas de tubos concêntricos de aço cravados milimetricamente no perímetro do túnel começam a circular fluido refrigerante a temperaturas subclínicas, extraindo calor latente dos poros geológicos.
Como a transição de fase da água confere rigidez estrutural e impermeabilidade absoluta ao solo?
O solo não consolidado é um sistema trifásico formado por grãos minerais, ar e água nos poros. Quando os vazios estão 100% saturados, a aplicação de cargas de escavação induz um aumento repentino na poro-pressão, anulando as tensões efetivas e desencadeando o colapso por deslizamento ou liquefação granular.
O congelamento artificial do solo (AGF) promove a extração térmica da massa geológica até que a água livre e a água capilar atinjam o ponto de congelamento. Para transformar 1 litro de água a 0 °C em gelo puro, o sistema frigorífico remove 334 kJ/kg de energia na forma de calor latente de fusão, mantendo a temperatura constante até a completa solidificação.

Quais variáveis geotécnicas e parâmetros térmicos determinam o dimensionamento da parede congelada?
O projeto estrutural de um anel congelado obedece a modelos acoplados termo-hidro-mecânicos (THM). Segundo diretrizes técnicas da British Tunnelling Society (BTS) e do manual técnico de túneis da Federal Highway Administration (FHWA), a espessura da casca de gelo depende diretamente da carga litostática superior e da pressão da coluna d’água atuante na cota do túnel.
Os projetos geotécnicos de ponta utilizam as seguintes métricas fundamentais de dimensionamento:
- Temperatura de projeto no núcleo resistente: Média de -10 °C a -15 °C no interior do maciço para assegurar módulo de elasticidade acima de 1,2 GPa e coesão de longo prazo sob efeito de fluência (creep).
- Espaçamento e alcance dos tubos de congelação: Hastes instaladas a intervalos de 0,80 a 1,50 metro, com extensões de perfuração atingindo até 18 a 30 metros a partir das aduelas dos túneis principais.
- Gradiente de fluxo subterrâneo limite: Velocidades de percolação de água no solo superiores a 1,5 a 2,0 metros por dia transportam calor convectivo suficiente para impedir o fechamento térmico do gelo, exigindo pré-injeções de cimento para reduzir a velocidade do aquífero.
- Pressão de expansão volumétrica (frost heave): A água expande aproximadamente 9% em volume ao congelar, gerando tensões de expansão confinada que podem deslocar aduelas de concreto armado em até 15 a 20 mm, exigindo alívio por furos de drenagem e monitoramento contínuo de ovalização.
- Espessura estrutural de projeto: Anéis e paredes de retenção calculados tipicamente entre 1,50 e 2,50 metros de espessura de rocha congelada para suportar sobrecargas litostáticas e tráfego ferroviário ativo acima da abóbada.
Qual é o passo a passo da operação desde a perfuração direcional até o descongelamento?
A implantação do congelamento artificial segue uma sequência rigorosa dividida em quatro etapas críticas, onde qualquer falha de vedação mecânica ou desvio angular nas perfurações pode inviabilizar o fechamento do anel térmico:
1. Perfuração direcional e instalação de tubos: Através de aberturas previamente moldadas nas aduelas do túnel existente, perfuratrizes instalam tubos externos de aço de 89 a 114 mm de diâmetro, equipados com válvulas preventoras de influxo (blowout preventers) para impedir a invasão de areia e água sob pressão durante o avanço da broca. No interior de cada tubo externo, é inserida uma tubulação coaxial de menor diâmetro para circulação do fluido.
2. Fase ativa de congelamento (Freeze-up): A usina de refrigeração instalada na superfície ou em nichos subterrâneos bombeia a salmoura a -35 °C. O fluido entra pelo tubo interno central, atinge o fundo da furação e retorna pelo espaço anular externo em contato térmico com a tubulação de aço, absorvendo calor do maciço. Cilindros individuais de solo congelado crescem radialmente em torno de cada tubo a uma taxa de 20 a 35 mm por dia até se tocarem, formando uma barreira contínua e monolítica.
3. Verificação do fechamento térmico e escavação: Cadeias de sensores com termistores instaladas em furos intermediários confirmam se as isotermas atingiram a temperatura de projeto de -10 °C. Ao mesmo tempo, um tubo de alívio instalado no centro da galeria registra um aumento brusco de pressão hidrostática (expulsão de água confinada pelo avanço do gelo) seguido de estagnação, provando que o perímetro está 100% selado. A escavação do maciço congelado é iniciada em avanços curtos de 1,0 a 1,5 metro com escavadeiras de braço telescópico ou rompedores hidráulicos, aplicando-se de imediato concreto projetado reforçado com fibras.
4. Revestimento secundário e desativação térmica: Após a colocação de uma membrana impermeabilizante contínua e a concretagem da abóbada definitiva de concreto armado (revestimento secundário de 250 a 350 mm), o sistema de refrigeração é desligado. O solo absorve calor geotérmico natural e retorna à sua temperatura ambiente de forma lenta e controlada, minimizando assentamentos residuais superficiais.
Como os engenheiros do projeto High Speed 2 aplicaram o congelamento para abrir conexões transversais?
No megaprojeto ferroviário High Speed 2 (HS2), no trecho Northolt Tunnels West sob Londres, a concessionária SCS JV (formada por Skanska, Costain e Strabag) enfrentou a necessidade de escavar 20 passagens transversais de emergência conectando túneis gêmeos abertos por tuneladoras tipo TBM em camadas geológicas altamente heterogêneas do Grupo Lambeth e greda de Seaford.
Diante de lentes de areia fina saturadas com pressão hidrostática significativa e da impossibilidade de acessar a superfície devido a linhas férreas operacionais, o consórcio optou pelo congelamento artificial com salmoura em circuito fechado em 14 conexões críticas. As equipes técnicas perfuraram leques radiais de até 18 metros com tubos a -32 °C, estabelecendo um anel de solo congelado de 2,0 metros de espessura que garantiu escavação sem descompressão e salvaguardou o cronograma da obra.
Abaixo, uma conferência técnica oficial da British Tunnelling Society (YouTube) detalha os dados de campo, a instrumentação e a execução do congelamento nas passagens transversais do HS2:
Quais normas técnicas internacionais e critérios da ABNT NBR 15645 governam essa tecnologia?
A execução de túneis apoiados em congelamento de solo é regulada internacionalmente pelo Eurocode 7 (EN 1997) e pela publicação técnica de referência CIRIA Report C683 (Artificial ground freezing for underground construction). No Brasil, a ABNT NBR 15645 (Execução de túneis em solo) fixa os critérios de segurança contra rupturas de frente e controle de deformações superficiais em obras metroviárias.
Em projetos pioneiros no país, como na expansão da Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro sob o canal de Ipanema/Jardim de Alah, a engenharia brasileira empregou sistemas criogênicos combinados para vencer a areia saturada sob a lâmina d’água oceânica. A norma exige que os recalques em superfície e a convergência das abóbadas de concreto sejam rastreados continuamente por redes de prismas topográficos robotizados e piezômetros elétricos com transmissão de dados em tempo real.

Por que o monitoramento geotécnico especializado é compulsório durante a formação do anel de gelo?
O congelamento artificial impõe solicitações cíclicas severas ao terreno. Enquanto a fase de expansão criogênica empurra o maciço e pode erguer fundações vizinhas por frost heave, a fase posterior de descongelamento (thaw settlement) reduz o volume dos poros e induz recalques se não houver um controle apurado das injeções de compensação e da rigidez do revestimento secundário.
Por essa razão, o acompanhamento integral por um engenheiro geotécnico e por um engenheiro civil especialista em túneis e obras subterrâneas é indispensável. Cabe a esses especialistas interpretar as leituras dos inclinômetros, calcular os coeficientes de fluência do gelo e aprovar formalmente as ordens de escavação (Excavation and Support Sheets) antes de cada detonação ou corte na frente de avanço.
Contexto importante: Este artigo é estritamente informativo. Para projetos estruturais e escavações subterrâneas complexas, recomenda-se a elaboração de projetos executivos com sondagens geológicas completas e ART emitida por engenheiro civil especializado em geotecnia e túneis, em estrita conformidade com a ABNT NBR 15645 e normas internacionais aplicáveis.

