Macunaíma: atores falam de desafios de ficar três horas em cena

Os atores que interpretam Macunaíma na montagem da Barca dos Corações Partidos, que se despede hoje de BH, ainda dão opinião sobre a direção de Bia Lessa e a nudez do personagem

por Mariana Peixoto 14/07/2019 08:32
Leandro Couri/EM/D.A Press
O baiano Ângelo Flávio Zuhalê, o paraibano radicado no Rio de Janeiro Adrén Alves e o carioca Hugo Germano vivem as três fases distintas do herói criado por Mário de Andrade no espetáculo em cartaz no CCBB (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
“A gente leva o espetáculo Macunaíma com a gente, enquanto ele existir.” O ator Adrén Alves pega emprestada a frase ouvida havia pouco do colega de elenco Ângelo Flávio Zuhalê para falar da experiência de participar da adaptação para os palcos do texto de Mário de Andrade sob a direção de Bia Lessa.

E o levar “com a gente”, como dizem, é literal. Adrén logo levanta a calça e mostra as canelas pintadas de vermelho – a tinta rubra acompanha o elenco há três semanas. “Almoçamos, dormimos, fazemos tudo com tinta no corpo, com dores. Fora as limitações de cada um, trabalhamos com um elenco eclético. Tem a galera da dança, do teatro, da música. Esses corpos têm que se afinar em três horas de peça.”

Na noite deste domingo, Belo Horizonte assiste à última das sessões da temporada de Macunaíma, que fez sua estreia nacional na capital mineira, após um exaustivo processo de ensaios e experimentações diárias (oito horas, em média, chegando a 15 às vésperas da estreia) iniciado em novembro passado. Macunaíma, Uma rapsódia musical entrou em cartaz no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil no último dia 28 de junho. A temporada termina com casa cheia – os ingressos para as últimas apresentações se esgotaram com mais de uma semana de antecedência.

Já na próxima quinta-feira (18) a montagem da Barca dos Corações Partidos dá a partida na temporada paulistana, que terá como casa o Teatro do Sesc Vila Mariana, recém-batizado de Teatro Antunes Filho – não por acaso, diretor da clássica versão do texto levada ao palco quatro décadas atrás. Em setembro, o espetáculo chega ao CCBB do Rio de Janeiro.

Belo Horizonte, além de ter recebido a estreia nacional da peça, faz parte de sua origem. Em outubro de 2018, a Barca estava na cidade, em cartaz no mesmo CCBB, com o espetáculo Suassuna – O auto do Reino do Sol, quando a companhia teatral começou a receber as inscrições para os testes de elenco para Macunaíma. “Foram 900. Quando chegávamos ao hotel após as apresentações, passávamos a madrugada escolhendo atores”, conta Adrén. Os 900 viraram 80, que viraram 40, 30, 10, até chegar aos seis escolhidos. Hugo Germano estava entre eles.

Hugo, carioca de 27 anos, nascido e criado no Morro do Cantagalo, não conhecia Adrén, paraibano de Campina Grande, de 39, radicado há 15 no Rio de Janeiro e um dos fundadores da Barca. Os dois tampouco conheciam o baiano Ângelo, de 40, fundador da Cia. Teatral Abdias Nascimento, formada exclusivamente por artistas negros. Os três interpretam Macunaíma. No primeiro ato, Hugo vive o personagem na infância, e Ângelo, na idade adulta. Já no segundo ato, após um metamorfoseado Macunaíma chegar a São Paulo, é Adrén quem o interpreta.

EMBARCADOS Mas Ângelo, vale dizer, só entrou na história um pouco mais para a frente – foi chamado por Bia Lessa em março, quando a barca, para não fugir ao trocadilho, já estava navegando. “Eu não os chamaria de atores convidados, mas 'embarcados'. Neste momento, todo mundo é Barca”, brinca Adrén.

E foi preciso muito trabalho conjunto, coragem e confiança para que os 15 atores e músicos que passam três horas em cena atuassem em um espetáculo denso e potente, que vem impactando o público e exaurindo, física e emocionalmente, seus intérpretes. Ângelo é um dos soldados que está carregando suas marcas de guerra. “Fiquei com o olho roxo durante uma semana, após um acidente durante a montagem do terceiro ato. E estou me recuperando de uma lesão no joelho esquerdo.”

Mais relevante que isso são as marcas emocionais que a montagem vem deixando em cada um dos atores. “Tem momentos que dá vontade de chorar em cena. A Bia fala: 'Segura. O público pode chorar, você não'”, conta Hugo. Um desses momentos, para ele, é a cena da caçada de uma anta, que mata a fome dos personagens. “Lembro dos meninos do Cantagalo que passam necessidade. Aí dou uma respirada e penso: 'Vamos para a arte'.”

Para Ângelo, que passa 25 minutos como Macunaíma, a cena mais forte é quando o personagem-título tem um confronto com o irmão e mata a mãe. “Há a questão psicológica, simbólica, pois eu corto literalmente o cordão umbilical e digo para sair para o mundo. É uma virada atrás da outra, uma coisa bem dramática”, diz ele, que não consegue fazer mais do que jantar e voltar para o hotel após cada sessão.

O elenco passa a maior parte do espetáculo completamente nu. Hoje é tudo muito tranquilo, mas não foi assim no início, como lembra Adrén. “Num belo dia de ensaio, a Bia disse, sem cerimônia: 'Quero todo mundo nu.' Foi aquele constrangimento, uns até correram para o banheiro. Então ficou todo mundo pelado, todo o dia, por oito horas.” Não havia mais problema algum, mas o grupo teve que mudar de local de ensaio. “Foi uma tristeza, pois tínhamos que botar roupa para ir ao banheiro.”

“(O que se vê em cena) Não é um corpo sexualizado, pois a obra propõe mais do que corpos nus. São corpos brincantes, livres”, comenta Ângelo. Livres para agir com força, violência, para se entrelaçarem e carregarem uns aos outros. “A Amália (Lima, diretora-assistente e preparadora corporal) fazia nos ensaios uma hora e meia de exercícios para conhecermos os corpos uns dos outros. Como subo nos corpos de outros atores, tenho que ter cuidado onde pisar. A gente vai se protegendo”, diz Hugo. “A marca da Bia e da Amália é tirar o ator de sua zona de conforto. A gente sente a dor física, mas a consciência corporal que adquirimos no processo da montagem nos dá matizes para suportar”, afirma Adrén.

CHORO Bia Lessa, os três são unânimes em dizer, comentou o tempo inteiro que o espetáculo “não ia ser biscoito, não” (gíria para dizer que não seria mole, leve, tranquilo). Para a plateia também. Em BH, os atores contam, houve sessões em que pessoas deixaram o teatro durante a apresentação. Houve também casos de pessoas do público que, terminada a apresentação, caíram no choro no hall do CCBB.

“Quando a gente chamou a Bia para dirigir, não sabia no que ia dar. Não sabia que seria tão diferente, nem que teríamos a competência para fazer”, diz Adrén. Pois, até então, a Barca tinha uma experiência bastante diferente com musicais. “Começamos em 2012, com Gonzagão, a lenda, que era uma alegria, uma festa. Depois, veio A ópera do malandro, que termina em festa. Auê, um espetáculo autoral, traz esperança, amor e alegria. E Suassuna, mesmo tendo uma história dramática, termina com esperança. Agora, vem Macunaíma e mostra que a gente está neste lugar, que não é o da alegria. O que a Bia faz é dizer para o Brasil que, do jeito que está, não pode ficar.”

Hoje, na reta final da temporada mineira, os três Macunaímas estão mais tranquilos. Chegam ao teatro três horas antes de cada apresentação. Sempre há uma conversa sobre a sessão mais recente, passam detalhes que podem ser aprimorados e fazem uma preparação corporal de meia hora.

“Dá até para dar uma dormidinha de 15 minutos debaixo do plástico”, revela Hugo. É um plástico negro (na verdade, 350 metros do material, doados para reciclagem após cada apresentação) que serve como cenário do espetáculo. “Com o tapetinho de borracha no palco, o ar condicionado ligado, o plástico vira um edredom”, acrescenta Adrén, afirmando que Macunaíma é um espetáculo que todos devem ver. “Agora, só têm que assistir entendendo que a peça não é biscoito, não.”


MACUNAÍNA – UMA RAPSÓDIA MUSICAL
De Mário de Andrade, com encenação de Bia Lessa para montagem da Barca dos Corações Partidos. Última apresentação neste domingo (14), às 20h, no Teatro 1 do Centro 
Cultural Banco do Brasil, Praça da  Liberdade, 450, Funcionários, (31) 3431-9400. Ingressos esgotados.

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