Inverno das Artes começa com espetáculo que mostra a amizade entre Mário de Andrade e tio

Leitura dramática 'Cartas a/de Pio' será feita pelos atores Gero Camilo e Victor Mendes

por Márcia Maria Cruz 18/07/2018 08:00
A leitura dramática Cartas a/de Pio, feita pelos atores Gero Camilo e Victor Mendes, abre o Inverno das Artes, da Fundação Clóvis Salgado, que tem início nesta quarta (18) e segue até o dia 30, no Palácio das Artes. A edição deste ano tem como tema o Manifesto antropófago, de Oswald de Andrade, que faz 90 anos em 2018. A programação engloba espetáculos de teatro, shows e cinema.

Lucas Tannuri/Divulgação
Gero Camilo e Victor Mendes selecionaram parte da correspondência que trata da criação literária, mas também de questões do dia a dia (foto: Lucas Tannuri/Divulgação)

As cartas trocadas entre o poeta Mário de Andrade (1893-1945) e o tio postiço, o linguista Pio Lourenço de Corrêa, revelam o universo particular do autor, inclusive os bastidores de criação de uma das mais importantes obras literárias brasileiras, Macunaíma (1928). Os atores escrevem, dirigem e atuam conjuntamente no espetáculo. Em cena, alternam-se na leitura, criando um diálogo dramatúrgico sobre a amizade entre tio e sobrinho. As correspondências foram retiradas do livro Pio & Mário – Diálogo da vida inteira (Ouro sobre o Azul, 2009).


Para iniciar o processo de criação de Cartas a/de Pio, Victor e Gero foram até a chácara, em Araraquara, onde Pio Lourenço vivia, e Mário, em uma de suas visitas, escreveu Macunaíma. Victor pontua a diferença entre o sobrinho e o tio e as correspondências que o modernista manteve com o poeta Manuel Bandeira (1886-1968). “Nas cartas trocadas com Manuel, são dois intelectuais conversando. As cartas com o tio mostram a intimidade de Mário”, diz Victor, que começou a parceria com Gero há cinco anos, quando foi fundada a Cia. Tertúlia de Acontecimentos.


Como era linguista, Lourenço fazia críticas à linguagem adotada por Mário. “O tio dizia que ele era enrolando demais para falar. Que precisava tirar a nuvem de fumaça da frente das palavras”, diz Victor. No início, Lourenço não estava muito atento a Mário, mas, à medida que o escritor ganha projeção no cenário cultural nacional, o tio passa a responder e guardar as cartas – como que antevendo que seriam documentos de valor histórico no futuro. Os dois conversam sobre livros, como Pauliceia desvairada (1922) e Amar, verbo intransitivo (1927), sobre a rotina e também as angústias do modernista.


As cartas falam, por exemplo, do tempo em que Mário passou por depressão, quando se mudou de São Paulo para o Rio de Janeiro. “Quando ele estava no Departamento de Cultura no Rio, sentia-se impotente por não conseguir ajudar os artistas. Ele abre esse tipo de intimidade com o tio”, lembra. Tentando retirá-lo da depressão, Lourenço convidava Mário para ir até a chácara para descansar. Elementos da chácara, como a banheira e a rede, compõem o cenário. “Mário foi ao Amazonas e trouxe uma rede de presente para o tio. A gente não sublinha. São mais elementos visuais do que explicativos”, afirma.

 

 

CARTAS A/DE PIO
Leitura dramática com Gero Camilo e Vitor Mendes. Hoje, às 20h. Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Informações: www.fcs.mg.gov.br.

 

 

duas perguntas para...

 

gero camilo
ator

 

1 O que despertou o interesse de vocês para essa troca de correspondência entre Mário e o tio Pio?
Mário é das minhas maiores referências de poesia. Viver em São Paulo, a cidade dele, onde escrevia essas coisas, é algo muito forte. É o acolhimento de alguém que vem de fora e tem nele grande referência. Também tem o contexto de me sentir artista com interesse vanguardista, em busca de algo novo. O Modernismo alimenta esse pensamento vanguardista. Lourenço foi uma pessoa do campo do afeto de Mário, bem próximo e, ao mesmo tempo, foi uma força intelectual que dialogava com o jovem artista. Porém, o tio era muito mais tradicional que o Mário, que o respeitava muito. Lourenço faz parte da tradição, da aristocracia paulistana, e tinha nível intelectual altíssimo. Isso gera uma conversa crítica interessante sobre a obra do Mário.

2 São inúmeras cartas. O que guiou a escolha de vocês?
Essas cartas são trocadas desde quando Mário começa a se tornar uma pessoa conhecida de fato. Termina com a morte do Mário – a última carta foi escrita 15 dias antes do falecimento. As correspondências dão bom panorama da ascensão de Mário. Pegamos cartas desse início, quando pede para ir para chácara escrever Macunaíma, de quando escreve Amar, verbo intransitivo, quando os dois discutem a tradução do livro para o inglês. O tio tinha lido em português e não tinha gostado. Quando leu em inglês, gostou: dizia que as coisas estavam bem-postas e bem escritas. O tio até diz que havia esquecido que tinha um exemplar de Amar na estante. Era quase como que dissesse que a tradutora tinha sido melhor que ele. Tem momento em que Mário revela intimidades do tio. Lourenço, na juventude, escreveu. Numa visita de Mário à chácara, ele entrega material contendo dados biográficos. O tio teve um romance com uma prostituta. Depois, arrepende-se e pede o material de volta, mas Mário tira onda com o tio. As cartas nos permitem aproximar do Mário menos intelectual (desse temos muita referência) para mostrar o Mário intimista. Tem momentos das dores de Mário, que adoece muito rápido. O tio dizia: “Venha para cá escrever outra obra”. Não dá tempo. Mário morre antes do tio.

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