Diego Bagagal vive Cleópatra num solo dirigido por Susan WoRsfold

Ator e diretora se conheceram quando ela trouxe ao FIT-BH o espetáculo O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, em 2016

por Mariana Peixoto 17/11/2017 08:00

FOTOS: LUIZA PALHARES/DIVULGAÇÃO
FOTOS: LUIZA PALHARES/DIVULGAÇÃO (foto: FOTOS: LUIZA PALHARES/DIVULGAÇÃO)
Sincronicidade. Não dá para usar outra palavra para descrever o encontro do ator mineiro Diego Bagagal com a encenadora inglesa Susan Worsfold. “Você é a Cleópatra de Shakespeare”, foi a primeira coisa que ela falou para ele. Era o ano de 2016, e Susan estava em Belo Horizonte com o espetáculo escocês O evangelho segundo Jesus, rainha do céu, no qual dirige a atriz e dramaturga transgênero Jo Clifford. A montagem integrou a programação do FIT-BH, no qual Bagagal trabalhou como curador.

Um dia antes desse encontro, ele havia feito uma leitura sobre erotismo e Shakespeare. Para tal, escolheu o último monólogo de Antônio e Cleópatra (1607), sem saber que Susan escolhera o mesmo texto para ilustrar um workshop sobre técnica vocal ministrado no festival mineiro.

“O universo conspirou”, diz hoje o ator, que estreia, sob a direção de Susan, o espetáculo solo Cleópatra. A montagem faz curta temporada a partir de hoje no Teatro de Bolso Sesc Palladium. E também curto foi o período de produção da peça, a segunda em que Bagagal interpreta uma personagem feminina – no primeiro semestre ele estrelou Salomé. Foram quatro semanas de trabalho, duas em Glasgow, Escócia, onde Susan está radicada há muitos anos, e outras duas em Belo Horizonte. Os encontros presenciais foram precedidos por muitas leituras e várias conversas pelo Skype.

Sozinho em cena, Bagagal interpreta os momentos finais de Cleópatra. No mausoléu, Antônio já está morto nos braços dela. Recusando-se a figurar no desfile triunfal de Roma, Cleópatra encena sua própria morte.

“Cleópatra foi escrita para um homem, como todos os personagens de Shakespeare. Estou, de certa maneira, voltando a esse lugar, mas sem parodiar a mulher. Ou seja, estou numa linha muito tênue”, afirma Bagagal. Bagagal e Susan adaptaram o texto para se transformar num monólogo, mas as falas de Cleópatra são literais – foram tiradas, sem mudar uma vírgula, do original de Shakespeare.

“Dos personagens de Shakespeare, Cleópatra é o que tem 50% feminino e 50% masculino. Corporalmente, ela é pequena, ainda mais porque Antônio era o maior soldado do mundo. Ela pode usar um vestido, mas há um momento em que pega a espada dele, o que é um símbolo fálico. E Shakespeare escreve sobre isso, não deixa nas entrelinhas”, diz Bagagal.

Ao encenar Cleópatra, ator e encenadora foram descobrindo diferentes aspectos do texto. “Nas conversas via Skype, Susan comentava detalhes na tradução que eu não percebia. Descobri que os tradutores foram misóginos. A força sexual e política da personagem, pois ela era o macho da relação, foi abafada pelos tradutores de sociedades latinas”, afirma o ator.

Ele exemplifica com um trecho escrito, no original, “eu gostaria de ter os seus centímetros para te mostrar...”. Em português, a frase virou “eu gostaria de ter a sua altura...”. Para o ator, a personagem se referia ao órgão sexual de Antônio, e a tradução acabou “romantizando a fala de Shakespeare”.

PARCERIA

O solo é apenas o primeiro passo da parceria de Bagagal e Susan numa imersão na obra shakespeariana. Para Cleópatra, eles utilizaram os dois últimos atos do texto original. “Estamos planejando trabalhar os quatro atos anteriores num novo espetáculo. São os atos em que se vê a relação dela com Antônio.” Nessa sequência, Bagagal continuaria fazendo a personagem feminina. Já a masculina seria interpretada por um ator escocês.

Quando se pergunta a Bagagal o porquê de sua escolha por papéis femininos, ele diz: “As duas femmes fatales ‘me procuraram’”. Se no caso de Cleópatra houve o encontro com Susan, com Salomé o encontro se deu num período em que o ator viveu em Londres. Em cada biblioteca e livraria que entrava, ele se deparava com um exemplar de Salomé, de Oscar Wilde. Então, trabalhou bastante o texto até criar o solo.

Mas há ainda uma questão pessoal. “Transito muito bem entre os gêneros, existe uma fluidez em mim desde criança. No meu trabalho, entro num lugar atemporal, onde você pode ser o que quiser. E há também questões feministas. Sou mineiro, de uma família tradicional, então nunca quis ser o macho. Brinquei de boneca quando quis, usei vestido quando quis. Mas mais do que defender uma bandeira LGBT, sem politizar, para mim é uma coisa artística. O artista tem que ter liberdade. Não me vejo nem como homem nem como mulher. Sou livre.”


CLEÓPATRA
Solo de Diego Bagagal com direção de Susan Worsfold. Estreia nesta sexta (17), às 19h, no Teatro de Bolso do Sesc Palladium (Avenida Augusto de Lima, 420, Centro). Temporada de sexta a domingo, às 19h, até 26 de novembro. Ingressos: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia) e R$ 5 (comerciários).


ENCARNAÇÕES DA RAINHA DO CÉU
Quando o espetáculo O evangelho segundo Jesus, rainha do céu foi apresentado pela primeira vez em BH, em 2016, no Museu Mineiro, o grande porém enfrentado pela equipe foi um problema de saúde da atriz Jo Clifford, que fez com que uma apresentação fosse cancelada.

No período de um mês em que Jo e Susan estiveram no Brasil, elas apresentaram a peça na capital mineira e fizeram uma série de palestras no Rio e em São Paulo. Não ocorreu nada semelhante ao que sofreu a versão brasileira da peça. A montagem traduzida e dirigida por Natalia Mallo foi alvo de protestos desde a estreia, em agosto de 2016, em Londrina.

O monólogo escrito por Jo recria a história de Jesus como uma transexual. A montagem brasileira é estrelada pela atriz e travesti Renata Carvalho. Apresentado em outubro na Funarte, em BH, o espetáculo esteve na mira do deputado João Leite (PSDB), um dos líderes da bancada evangélica na Assembleia Legislativa. Ele disse que procuraria o Ministério Público para impedir a estreia da peça.

O evangelho teve todas as suas sessões em BH realizadas (e esgotadas). Antes de chegar à capital mineira, a montagem já havia sofrido outras ofensivas, com tentativas de impedir sua realização (em Jundiaí, interior de SP, e Porto Alegre, por exemplo).

PROTESTOS
Desde a estreia da montagem original, em 2009, em Glasgow, Susan convive com essa situação. “Naquele momento, centenas de pessoas protestaram em frente ao teatro. Há alguns anos tivemos problemas também em Belfast (Irlanda)”, diz ela.

Mas The gospel according to Jesus, espetáculo da companhia Queen Jesus Plays, continua no repertório. Já viajou por muitos países. Susan acha que agora é uma boa hora para levá-lo aos Estados Unidos. “Hoje, analisamos bem onde vamos apresentá-lo. Se são lugares bons e seguros; se são lugares bons, mas um pouco perigosos; e lugares onde não é possível levar a peça”, diz ela.

A montagem escocesa ganhou recentemente uma versão em espanhol, El evangelio según Jesús, reina del cielo, apresentada em outubro, em Buenos Aires e Montevidéu. A tradução e direção são também de Natalia Mallo. Já a personagem-título é interpretada por Fabiana Fine, artista trans uruguaia.

“Jesus vem tendo, ao longo desses oito anos, muitas reencarnações. A cada vez que apresentamos o espetáculo, criamos algo novo. Meu sonho agora é conseguir levar para uma mesma cidade as três montagens: em inglês, em português e em espanhol”, diz Susan.

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