Outubro Rosa: o poder das mulheres contra o câncer de mama

Comunidade é envolvida em campanhas e ações que objetivam alertar para a importância do diagnóstico precoce da doença e celebrar novas perspectivas

por Laura Valente 09/10/2018 11:19
Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
A analista de sistemas Jordanete Santos Ribeiro venceu a doença e hoje integra o grupo PodeRosas, que incentiva pacientes em tratamento (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Um laço pra lá de significativo: desde que teve início, em Nova York, nos anos 1990, a campanha contra o câncer de mama, denominada Outubro Rosa, não para de crescer. Para além da conscientização sobre a importância de cuidados, prevenção e diagnóstico precoce da doença, que atinge quase 60 mil mulheres por ano só no Brasil, as ações envolvem não apenas médicos, agentes de saúde e pacientes, mas toda uma comunidade que adota o pink para ir às ruas, alertar as amigas, fazer barulho, chamar ao autoexame e à necessidade de controle rigoroso, sistematizado e inteligente. São pessoas de diversos perfis e profissões, empenhadas tanto em proteger a população feminina quanto em ajudar vítimas da enfermidade, que, apesar de assustadora, tem sim grandes chances de cura e sobrevida satisfatória, mesmo em tipos mais agressivos.

A seguir, apresentamos a analista de sistemas Jordanete Santos Ribeiro, de 51 anos, que venceu o câncer de mama e, hoje, integra o grupo PodeRosas, com a missão de espalhar confiança, autoestima e alegria a pacientes em fase de tratamento; a youtuber Jussara Del Moral, de 54, que convive com a versão metastática da doença há 12 anos e não deixa a peteca cair - é conhecida, inclusive, como praticante de crossfit; e a modelo Flávia Flores, que recebeu o diagnóstico aos 32 anos e criou um canal que fala sobre embelezamento durante a quimioterapia.

CELEBRAÇÃO

Há, também, novidades em tratamentos, como a mamografia 3D, o lançamento de novas drogas e a escalada de terapias cada vez mais personalizadas e plurais, o que garante uma melhor qualidade de vida àquelas que lutam contra o tipo de câncer que mais mata mulheres em todo o mundo. Outro motivo de orgulho são os laços criados por entidades públicas e privadas, verdadeira força-tarefa que espalha informação, apoio, carinho e ajuda em todos os cantos do país, levando a crer que, apesar das estatísticas e do diagnóstico sofrido, há sim, muito o que celebrar na jornada contra o câncer de mama.

Instituto Mário Penna

Vai realizar 1,5 mil exames de mamografias sem a necessidade de passar pelo posto de saúde antes. Para se inscrever, a solicitante deverá estar na faixa de 50 a 69 anos e não ter feito mamografia nos últimos 24 meses (de acordo com os critérios do Ministério da Saúde). Informações e agendamento pelo telefone (31) 3349-1212.

Chamada à reação
A despeito das dificuldades, mulheres mostram que é possível enfrentar o câncer com coragem e união

Coletivo Pink/Divulgação
Jussara Del Moral, de 54 anos, criou canal no YouTube para dar dicas e provocar reflexões em pacientes como ela (foto: Coletivo Pink/Divulgação )

“‘Supervivo’ com o câncer desde 2007 e tenho metástases desde 2009. Não somos amigos, mas temos boa convivência”, diz a funcionária pública aposentada Jussara Del Moral, de 54 anos, a todas as mulheres que entram no canal do YouTube criado por ela a fim de relatar a experiência de enfrentamento à doença. “Vivo com muita qualidade de vida e decidi dar dicas e provocar reflexões não só em pacientes como eu, mas em famílias e amigos. Afinal de contas, atualmente, todo mundo conhece alguém que tem câncer, não é mesmo?” Jussara integra uma estatística considerada alarmante: por ano, há quase 60 mil novos casos de câncer de mama no Brasil. Mas também é exemplo de que, com os avanços da medicina e outras iniciativas no combate à doença, receber o diagnóstico - mesmo em quadros agressivos -, não é sinônimo de estar próximo do fim da linha. “Até pouco tempo, ter câncer com metástases era sentença de morte. Hoje, não! Pensemos no câncer como uma doença crônica! Convido você a superar os momentos difíceis compartilhando os meus (difíceis e fáceis), aqui no canal. Avante!”, convida a mulher, que descobriu algo errado nos seios durante um autoexame.

Sim, ela fez cirurgia e quimioterapia e, ainda assim, viu o câncer atingir os pulmões. Travou ali a segunda grande batalha contra a doença. Mais tarde, o problema apareceu na calota craniana e, atualmente, é esse o alvo de Jussara e da equipe de soldados da saúde (médicos, enfermeiros, terapeutas e mais uma ‘pá’ de gente) que a acompanha na luta. “Não sei quanto tempo de vida tenho pela frente, mas, enquanto houver a oportunidade de estar aqui, meu lema é ser feliz”, afirma, com a disposição de quem faz crossfit - programa intenso que mistura exercícios aeróbicos, de força e de impacto -, e viaja por todo o Brasil a fim de inspirar e mobilizar outras mulheres para vencer ou conviver com a doença sem perder o foco na qualidade de vida.

FORÇA-TAREFA

A reportagem conheceu Jussara na última semana, em São Paulo, durante o lançamento do projeto “Coletivo Pink – Por um outubro além do rosa”, grupo que reúne as organizações não governamentais (ONGs) Meninas de Peito, Instituto de Mama do RS (Imama), Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), Laço Rosa e Oncoguia, além da indústria farmacêutica Pfizer. “Já não basta vestir rosa ou iluminar monumentos. Disseminar informações de qualidade para toda a sociedade e acolher pacientes e familiares fazem a diferença quando o assunto é câncer de mama, o tumor mais comum entre as mulheres do Brasil e do mundo”, disse Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia, referência em ações de apoio aos portadores de câncer.

Coletivo Pink/Divulgação
"Disseminar informações de qualidade para toda a sociedade e acolher pacientes e familiares fazem a diferença quando o assunto é câncer de mama, o tumor mais comum entre as mulheres do Brasil e do mundo" - Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia (foto: Coletivo Pink/Divulgação)

Além de apresentar a programação para este Outubro Rosa, a reunião contou com a apresentação da pesquisa Câncer de mama metastático - A voz dos pacientes e da família. Eurico Correia, diretor médico da Pfizer, comentou os resultados, lembrando da importância de haver representatividade e acolhimento a essas pessoas, ambientes que favoreçam a troca de vivências e diálogo amplo com a sociedade, no sentido de vencer as barreiras da desinformação e do preconceito. Prova vem de dados da pesquisa, que apontaram, entre os principais fatores que podem ajudar no tratamento, as reuniões de família (73% das respostas), o encontro com outros pacientes (50%) e com amigos (81%), além de poder trabalhar (82%). Também no encontro, Marcelo Cruz, oncologista clínico do Hospital Sírio-Libanês, lembrou que o câncer de mama deve ser discutido de janeiro a janeiro, uma vez que é o tipo de tumor mais comum nas mulheres, representando 30% do total e afetando a rotina de 1,5 milhão de pacientes. “Nesse sentido, informações são de suma importância para a adoção de políticas públicas de saúde mais assertivas para a detecção precoce e o tratamento da doença.” Apesar dos dados alarmantes e de o cenário ser pouco animador fora do sistema suplementar de saúde brasileiro, o médico aponta boas novas. “Principalmente se detectado precocemente, o câncer de mama tem grande chance de cura ou de sobrevida, inclusive na forma metastática. O que vai fazer a diferença é o conhecimento acerca da doença e a qualidade e acesso ao tratamento adequado”, afirma.

MAMAMIGA

Edésio Ferreira/EM/D.A Press
Mônica Câmara, presidente da Asprecam, com modelo didático que revela as quatro alterações mais frequentemente encontradas durante o autoexame (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press )

Em Belo Horizonte, a Associação de Prevenção do Câncer na Mulher (Asprecam) organização social (OS) sem fins lucrativos, fundada em 1984, por grupo encabeçado pelo médico mastologista e cirurgião plástico Thadeu Rezende Provenza, criou e implantou diversos programas de ajuda no combate ao câncer de mama. Um deles é o Movimento Mamamiga pela Vida, cujo símbolo é um modelo do seio feminino, que convida o público a fazer o autoexame e indica as principais alterações que podem ser percebidas ao toque. “O modelo didático simula a glândula mamária feminina e revela as quatro alterações mais frequentes que podem ser encontradas durante o autoexame, e é reconhecido pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca)”, explica Provenza. Atual presidente da entidade, Mônica Maria Câmara de Bessa Reis, dentista e bióloga, informa que adesão à entidade oferece apoio a mulheres durante o tratamento, nas áreas psicológica, nutricional, jurídica, além de acompanhamento em consultas médicas, sessões de quimioterapia e radioterapia.

A origem do Outubro Rosa

O movimento teve início na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, em 1990, quando a Fundação Susan G. Komem for the cure promoveu uma corrida para arrecadar fundos para a pesquisa e informar sobre o câncer de mama. Na ocasião, todas as pessoas que participaram usaram um laço rosa na altura do peito. Hoje, ele se tornou o símbolo mundial da campanha.

Corrente contra a doença
Grupos se organizam na luta e recuperação das pacientes. Conheça iniciativas e os tratamentos de ponta

O contexto já estava difícil na vida pessoal quando Jordanete Santos Ribeiro, atualmente com 51 anos, analista de sistemas, foi diagnosticada com câncer de mama. “Minha mãe e meu marido enfrentavam problemas de saúde, as crianças eram pequenas, estava trabalhando em outro município e, de repente, tive que enfrentar a doença.” Atendida no Hospital Felício Rocho pelos médicos Érika Monteiro e Alexandre Ribas, entre outros, ela encontrou não só profissionalismo, mas também apoio do núcleo de psicologia. Tanto que passou a integrar o PodeRosas, grupo de pacientes formado lá, que continua mais ativo do que nunca e do qual participa até hoje, oferecendo o mesmo auxílio a quem passa pelo tratamento. “Fiz mastectomia e sessões de químio. Muitas vezes, não tinha quem me acompanhasse nas sessões e não me fazia de rogada: ia no grupo e pedia ajuda mesmo. Passei por todo o processo, venci efeitos colaterais, como lesão na córnea, queda dos cabelos, das unhas, cílios e sobrancelhas. Mas pedi e recebi apoio - até as colegas da 8ª série apareceram para ajudar - e, com fé, o amor da minha família e de amigos e os cuidados de uma equipe médica sensacional dei a volta por cima. Hoje, entendo que Deus me habilitou para ajudar outras mulheres. Virei referência”, discorre.

No panorama de quem passou pelo susto, Jordanete lembra que, à luz do século 21, não é possível enxergar o câncer como sentença definitiva. “Antes, ninguém pronunciava o nome da doença, os pacientes se viam como amaldiçoados. Mas não é assim, né? Qualquer um pode ter, não é maldição. E muitas de nós estão curadas! Mesmo as que tiveram metástase. É como diz meu slogan, versículo bíblico: A alegria do Senhor é nossa força. Nada vai apagar meu sorriso!. Então, indico o ‘batonzão’, a peruca e o lenço. Já me inspirei até na Beyoncé”, lembra.

AUTOESTIMA NA QUÍMIO

Attahualpa César/Divulgação
"Ensinamos como driblar os efeitos colaterais, como se maquiar, manter a sensualidade e a autoestima durante o tratamento e ainda mostramos que não estão sozinhas" - Flávia Flores, modelo, diagnosticada com câncer de mama e que fundou o Instituto Quimioterapia e Beleza (foto: Attahualpa César/Divulgação )
Por falar em autoconfiança, vale citar a história da modelo Flávia Flores, diagnosticada com câncer de mama aos 35 e que, na luta, fundou o site Quimioterapia e Beleza, projeto em que incentiva outras pacientes ao empoderamento, por meio de posts de conteúdos que indicam o autoconhecimento, troca de experiências e pesquisas. “Ensinamos como driblar os efeitos colaterais, se maquiar, manter a sensualidade e a autoestima durante o tratamento e ainda mostramos que não estão sozinhas.”

Flávia também fundou um banco de lenços, geralmente doados por pacientes que já terminaram o tratamento e querem mandar sorte para as outras, embalados e enviados com uma cartinha de apoio. “É um ciclo de carinho. No site www.bancodelencos.com.br ela pode pedir um lenço, saber como doar e também aprender novas formas de amarração! Se você está passando pelo tratamento e, como ocorreu comigo, entrou para a turma das carequinhas, peça seu lenço, um presente de ‘cat para cat’”.

Ela terminou o tratamento no ano passado. “Estou me sentindo muito bem e, passadas 30 sessões de quimioterapia, 28 radioterapias, 5 anos de remédios, sou recém-casada com o amor da minha vida. Trata-se de um amor antigo e, hoje, estamos tentando engravidar”, conta, repleta de esperança e vontade de viver.

“A página virou livro, que virou site, que virou filme, que virou Instituto Quimioterapia e Beleza. Hoje, somos uma equipe, fazemos conteúdo diário, eventos; a tradicional Pedalada Rosa, as oficinas de maquiagem “De bem com você - A beleza contra o câncer”, temos o Banco de Lenços Flavia Flores, que já distribuiu mais de 25 mil lenços e emocionou milhares de pessoas. Levamos workshops de lenços e palestras a hospitais, diretoria científica, apoio psicológico, outras Cats/Paciente inspiração, como a doutora Fabíola Lá Torre, e até grupos de WhatsApp – trabalhamos em conjunto para dar apoio a pacientes com câncer, inspirar e deixar o tratamento de cada uma delas mais leve e mostrar que elas não estão sozinhas. Elas têm com quem contar.”

PROJETO PODEROSAS

O resgate da autoestima de mulheres em tratamento de câncer é o objetivo do PodeRosas, projeto do fotógrafo Alexandre Rust (Estúdio Rust & Bicalho), 100% voluntário, que recebe ajuda de maquiadoras e outros profissionais para a produção das modelos. As fotos integram exposições - a próxima será no dia 21, no Centro Cultural Ataíde Ocío e Ofícios, no Bairro Cidade Nova. “Todos são bem-vindos“, convida o fotógrafo. Veja a galeria com imagens do projeto:

Ver galeria . 7 Fotos Susie SanguinettiAlexandre Rust/Divulgação
Susie Sanguinetti (foto: Alexandre Rust/Divulgação )


Três perguntas para...
Alexandre Ribas, médico oncologista e coordenador do Instituto de Oncologia do Hospital Felício Rocho

Hospital Felício Rocho/Divulgação
(foto: Hospital Felício Rocho/Divulgação)
1) Qual é o atual cenário do câncer de mama no Brasil e no mundo?

O câncer de mama é a neoplasia maligna mais frequente nas mulheres em todo o mundo, excluindo-se os tumores de pele não-melanoma. Representa a principal causa de morte por câncer entre as mulheres nos países em desenvolvimento e a segunda principal causa nos países desenvolvidos (M. Ervik F, 2016). Os dados do último Globocan estimam mais de 2 milhões de novos diagnósticos e 626 mil óbitos devido ao câncer de mama, em 2018. No Brasil, é o câncer mais frequente entre as mulheres, com 59.700 casos estimados para este ano em todo o país (Inca).

2) E os tipos mais comuns?

São inúmeros subtipos, mas, para facilitar, podemos dividi-los nos tumores receptores hormonais (receptor de estrógeno e receptor de progesterona) positivos ou negativos; os tumores que têm o receptor HER2 (sigla em inglês que significa receptor epidermal humano do tipo 2) positivo ou negativo e aqueles tumores nos quais os tumores não expressam nem os receptores hormonais nem o receptor HER2; esses são chamados de tumores triplo negativos.

3) Quais são as últimas novidades em tratamentos?

Acaba de chegar ao Brasil uma nova classe de drogas para os tumores de mama receptores hormonais positivos com metástases, que são o palbociclibe e o ribociclibe. Outra novidade importante foi a publicação do estudo Tailorx, no Congresso da Sociedade Americana de Oncologia, em junho. Ele nos ajudou a entender melhor um exame de assinatura genética, que avalia mais precisamente a necessidade de quimioterapia em alguns tipos de tumores, englobando 21 genes associados ao câncer de mama. Por meio de uma pontuação, ele nos ajuda a decidir o melhor tratamento para a paciente. Importante enfatizar que nem todos os tumores são elegíveis para tais tratamentos e exames.

Fique atenta!

O câncer de mama não tem uma causa única. Diversos fatores estão relacionados ao aumento do risco de se desenvolver a doença, como, idade, fatores endócrinos, comportamentais e hereditários:

» Mulheres a partir dos 50 anos são mais propensas a desenvolver a doença

» Fatores endócrinos, como história de menarca precoce (idade da primeira menstruação menor que 12 anos); menopausa tardia (após os 55 anos); primeira gravidez após os 30 anos e a nuliparidade (não ter filhos)

» Ingestão de bebidas alcoólicas, sobrepeso e obesidade após a menopausa

» Fatores hereditários são os relacionados à presença de mutações genéticas (BRCA1 e BRCA2). Mulheres com histórico de casos de câncer de mama na família, sobretudo em idade jovem; de câncer de ovário ou de câncer de mama em homens devem ser encaminhadas para avaliação por um oncogeneticista

Fonte: Alexandre Ribas, médico oncologista e coordenador do Instituto de Oncologia do Hospital Felício Rocho

Mamografia 3D

“Disponível no Brasil desde 2010, o aparelho representa grande inovação no diagnóstico precoce do câncer de mama, pois é mais precisa, feita num mamógrafo especial, que permite obter várias imagens com 1mm de espessura, revelando o que estava escondido. Além disso, ajuda nos casos em que aparece alguma imagem suspeita, mostrando se é real ou apenas soma de imagens normais. Ela é realizada com leve compressão das mamas, em apenas 3min. Em mulheres que sentem o nódulo, a mamografia 3D também é mais precisa para mostrar se o nódulo é suspeito para câncer ou de aspecto benigno.”

Fonte: Vivian Schivartche, médica radiologista especialista no diagnóstico de câncer de mama do CDB Premium.