Tratamento hormonal na menopausa pode combater a demência na velhice

A terapia para a menopausa também pode preservar a parte do cérebro responsável pela memória e evitar o acúmulo de beta-amiloides, proteínas ligadas à doença neurodegenerativa

por Sara Sane 12/04/2018 13:22
Ilustração/Valdo Virgo/CB/D.A Press
(foto: Ilustração/Valdo Virgo/CB/D.A Press)

O tratamento hormonal na menopausa, além de amenizar os efeitos causados pela produção reduzida de hormônios, pode prevenir outra complicação característica do envelhecimento: a demência. Segundo estudo da Academia Americana de Neurologia (AAN), a terapia é capaz de preservar a estrutura do cérebro responsável pela memória e por habilidades de pensamento, além de reduzir o acúmulo de placas beta-amiloides, considerado um dos fatores que desencadeiam o Alzheimer. Os resultados do trabalho foram divulgados recentemente na revista médica Neurology.

O estudo envolveu 75 mulheres saudáveis com idade entre 42 e 56 anos e que estavam na menopausa havia cinco meses a três anos. As voluntárias foram separadas em três grupos: 20 receberam pílulas de estrogênio equino (0,45 miligramas), 22 receberam estradiol (50 microgramas) por meio de adesivos de pele e 33 ficaram com o placebo, substância sem propriedade farmacológica, em forma de pílula ou de adesivo. As mulheres dos dois grupos com tratamento hormonal também ingeriram pílulas de progesterona (200 miligramas) nos 12 primeiros dias de cada mês para manter o endométrio protegido.

“As mulheres fizeram testes de memória e de pensamento, além de ressonância magnética, em cinco momentos: no início do estudo, depois de 18 meses, depois de três anos, quatro anos após o inicio do tratamento e, então, novamente, três anos após o fim da terapia. O estudo durou sete anos”, detalha Kejal Kantarci, cientista médica do Mayo Clinic em Rochester, Minnesota, membro da AAN e autora principal do artigo.

Kantarci e colegas mediram o volume do cérebro das voluntárias e o acúmulo de lesões cerebrais usando exame de tomografia de emissão de pósitron. As imagens foram comparadas com as performances nos testes de memória e de pensamento. “Os resultados mostraram que as participantes que tomaram estradiol via adesivo de pele mantiveram, por mais de sete anos, o volume no córtex pré-frontal dorsolateral, área do cérebro que dá assistência à memória, ao pensamento, ao planejamento e ao raciocínio”, conta a pesquisadora.

Os pesquisadores descobriram ainda que as mulheres que começaram a terapia hormonal com estradiol logo no início da menopausa tiveram efeitos mais duradouros no cérebro. No caso do grupo que ingeriu pílulas de estrogênio, o efeito protetivo acabou com a interrupção do tratamento.

Prevenção

Professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fernando Reis ressalta que, no estudo americano, mesmo a terapia hormonal não tendo modificado significativamente o volume do cérebro e as funções cognitivas, o tratamento pode ter funcionado como uma espécie de prevenção ao Alzheimer. “Nesse grupo, quanto menor foi a perda de volume nessa área específica, menor foi a disposição de beta-amiloide no cérebro, um marcador associado com a doença”, explica.

Segundo Reis, existem outros estudos que sugerem que o estrogênio é importante para o equilíbrio metabólico do cérebro. “A redução desse hormônio na época da menopausa provoca alterações da função cerebral em uma parcela significativa das mulheres. Não por acaso, a maioria dos sintomas da menopausa são sintomas neurológicos, a começar pelas ondas de calor”, ilustra.

Para José Maria Soares, professor-associado do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), as novidades do estudo americano são o uso da metodologia sofisticada e a confirmação de hipóteses. “Ele confirma as dúvidas sobre o benefício do estrogênio. A afirmação é que esse hormônio pode melhorar a cognição de mulheres na menopausa”, resume.

Contudo, o professor ressalta que as mulheres na menopausa precisam passar por avaliação médica antes de começar a tomar qualquer hormônio. É preciso considerar, por exemplo, a existência ou predisposição para câncer de mama, doença no endométrio, diabetes, doenças que acometem o fígado, entre outras.

“Quando o estrogênio é usado de forma correta e adequada, pode trazer vários benefícios, como a melhora na qualidade de vida, nos sintomas vasomotores e na cognição, mas, se a paciente tomar o estrogênio sem a avaliação e tiver as doenças listadas, o hormônio pode agravar o caso”, justifica. Fernando Reis acrescenta que, além de aliviar os sintomas, a terapia hormonal retarda a perda óssea e reduz o risco de osteoporose.

Necessidade de mais estudos

Apesar dos resultados do estudo da Academia Americana de Neurologia, especialistas e os próprios pesquisadores concordam que ainda há caminhos a seguir para responder a determinadas questões sobre o uso da terapia hormonal para proteger o cérebro do Alzheimer.

Segundo Cláudia Barata Ribeiro, neurologista e fisiatra do Hospital Santa Lúcia e presidente regional da Associação Brasileira de Medicina Física, o estudo americano ocorreu em um período muito curto. A médica argumenta que, se tivesse durado alguns anos a mais, os pesquisadores poderiam ter encontrado uma diferença na cognição. “Também tem o fato de que, quando as mulheres decidem tomar a hormonoterapia, não é apenas por quatro anos, como no estudo. Elas fazem o tratamento por mais tempo”, pondera.

Kejal Kantarci, autora principal do estudo, comenta que os próximos estudos envolverão justamente descobrir se esses efeitos no cérebro duram até a idade avançada das mulheres. Outra limitação do estudo, segundo ela, é que todas as participantes estavam com boa saúde cardiovascular. Assim, as conclusões podem não ser as mesmas para aquelas com problemas cardíacos, diabetes e outros problemas no coração.

A autora também coloca que mais pesquisas são necessárias para descobrir as razões biológicas por trás das mudanças que acontecem no cérebro durante o tratamento hormonal. “Futuros estudos também são necessários para definir como diferentes produtos hormonais, pílulas versus adesivos, afetam o cérebro”, defende

O médico Fernando Reis destaca que, com os resultados atingidos até o momento, não é possível pensar em uma aplicação clínica dos resultados. “Isoladamente, esse estudo não basta para orientar nenhuma mudança na prática médica. A própria revista em que o trabalho foi publicado o considerou uma evidência classe III, o que significa que as evidências apresentadas não são fortes o suficiente para embasar decisões terapêuticas”, explica.

(SS*) * Estagiária sob supervisão da subeditora Carmen Souza

Palavra de especialista
Cláudia Barata Ribeiro - neurologista e fisiatra, presidente regional da Associação Brasileira de Medicina Física

Ainda sem uso clínico

“É um estudo interessante, pois existem muitas dúvidas sobre o uso da reposição hormonal. Os pesquisadores concluíram que os testes cognitivos não mudaram após a terapia e que o volume do córtex global foi semelhante, mas, quando analisaram por partes, descobriram que o córtex pré-frontal dorsolateral foi preservado. Como, para a cognição, isso não fez diferença, os resultados não trazem um significado clínico. Um ponto importante é que, no grupo do estradiol, houve menos disposição para placas amiloides, e isso pode prevenir o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e o Parkinson. Então, pode ser que esse estudo tenha impacto no futuro. Contundo, ainda são necessárias mais pesquisas para provar isso.”

Anemia pode dobrar o risco de morte materna

Estudo da Queen Mary University of London mostra que mulheres que têm anemia em qualquer momento da gravidez ou até sete dias após o parto apresentam risco dobrado de morte, quando comparadas às não anêmicas. Jahnavi Daru, líder da pesquisa, e sua equipe analisaram, entre maio de 2010 e dezembro de 2011, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre mais de 300 mil mulheres de 29 países, incluindo o Brasil, para chegar a essa conclusão, detalhada na revista The Lancet Global Health.

Os pesquisadores definiram morte materna como qualquer óbito ocorrido durante a gravidez ou até 70 dias após o parto, e criaram uma pontuação de propensão ao episódio fatal, evitando, dessa forma, que outros possíveis motivos para o óbito não afetassem o objetivo do estudo, como a malária e a perda de sangue durante a gestação.

Seguindo esse parâmetro, das mulheres analisadas, 4.189 tinham anemia severa, definida no pré e no pós-natal pela concentração de hemoglobina abaixo de 70 gramas por litro. Os resultados mostraram ainda que, mesmo com esses fatores controlados, a morte materna dobra em mulheres com anemia severa.

“Nosso estudo mostra que, se a mulher desenvolve anemia severa em qualquer momento da gravidez ou nos sete dias após o parto, ela está correndo grande risco de morte, tornando o tratamento urgente ainda mais importante”, alerta, em comunicado, Jahnavi Daru.

Relação independente

Por ser um estudo observacional, não é possível provar uma relação de causa e efeito direta entre anemia severa e morte materna, segundo o autor principal.

Apesar disso, ressalta Daru, não se deve amenizar a importância dos cuidados. “Anemia é uma condição prontamente tratada, mas as abordagens existentes atualmente não têm sido capazes de enfrentar o problema”, justifica. A prevenção e o tratamento da anemia materna envolvem pílulas de ferros para gestantes, alimentação rica em ferro, acesso ao pré-natal para áreas remotas, acesso a serviços de transfusão de sangue e o tratamento de ancilostomose, doença popularmente conhecida como amarelão.

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