Ser feliz é uma questão de escolha

No Dia Internacional da Felicidade, comemorado nesse 20 de março, pesquisadores e pessoas reconhecidas pelo riso solto e positividade falam sobre esse estado de graça

por Laura Valente 19/03/2018 13:44

Leandro Couri/EM/D.A Press
O executivo Ricardo Araújo com a esposa, Patrícia de Sá Machado, e os filhos, Laura e Francisco: ele criou um blog que retrata a importância da convivência com a família para a conquista da felicidade (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Já cantava Vinicius de Moraes no Samba da bênção: “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração”. Sábio, o poeta parece ter apreendido lá atrás o que a humanidade vem estudando com mais vigor agora, na juventude do século 21.

Sim, a ciência da felicidade nunca foi tão abordada, vide exemplos como o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB), surgido no pequeno Reino do Butão, na Ásia, usado como referência em modelos de organizações que buscam ser mais humanas e justas, com foco no bem-estar de funcionários e membros. E nem precisamos ir tão longe. Aqui mesmo, em Belo Horizonte, o Instituto Movimento pela Felicidade é outro exemplo de que há pessoas interessadas em espalhar aos quatro ventos os benefícios desse estado de graça no mundo corporativo, nas cidades, na vida de qualquer um - e isso por que, segundo especialistas, a felicidade, seja entendida como ciência ou não, é uma questão de escolha, pessoal e intransferível.

Duvida? Leia na reportagem a seguir histórias de pessoas como Heloísa Capelas, mulher que superou a deficiência de uma filha e tornou-se especialista em ensinar aos outros como buscar a felicidade por meio do autoconhecimento; do executivo Ricardo Alexandre dos Santos Araújo, autor de um blog em que registra que dedicar mais tempo aos filhos pode deixar qualquer profissional mais feliz; de Dalila Abrahão Caram, professora, conhecida na infância como Risadinha e que vem dando lição de vida em muita gente, numa postura positiva e alto-astral diante de um tratamento de câncer e, ainda, o tradutor Antônio Selvaggi, estudioso e praticante do budismo, filosofia em que procura aprender e ensinar os modos relativo e absoluto desse conceito capaz de fazer muito para melhorar a qualidade de vida de todos nós.

Apesar das dificuldades
Por meio do autoconhecimento, da fé e de posturas assertivas, pessoas comuns optam pela felicidade mesmo diante da dor. Conheça gente que "sacode a poeira e dá a volta por cima"

Arquivo pessoal/Divulgação
A empresária Heloísa Capelas viveu uma experiência dolorosa e conseguiu reunir forças para recomeçar (foto: Arquivo pessoal/Divulgação )

“Há 33 anos, vivi uma experiência muito dolorosa. Minha filha de um ano e nove meses, que era encantadora, caminhava, andava, cantava, conversava e brincava, começou a convulsionar e entrou em coma. Quando retornou, foi diagnosticada com deficiência mental e intelectual. Estava grávida de oito meses da segunda filha e, durante muitos anos, fiquei presa a um sofrimento muito grande. Nossa família praticamente enlouqueceu e experimentei o extremo da minha vitimização”, relata Heloísa Capelas, que hoje é especialista em desenvolvimento humano, empresária, palestrante, escritora e apaixonada por autoconhecimento.

A guinada, conta, se deu quando conheceu a metodologia Hoffman, um processo de autoconhecimento que aprendeu e, depois, tornou-se especialista. “Fiz o curso com duração de sete dias e, a partir daí, uma nova história, um novo mundo, um novo recomeço e um novo ponto de vista surgiram na minha vida.”

Por meio do processo, Heloísa escolheu reagir de outra forma diante do diagnóstico da filha. “Toda a nossa história pode ser modificada por meio das escolhas positivas. Assim, a felicidade é uma escolha que envolve sentir um bem-estar indescritível dentro de si mesmo e orgulho de ser quem se é.” Mas para chegar lá há todo um processo de construção, afirma, “olhar a vida de um ponto positivo e pensar que tudo o que nos acontece, acontece para o bem. Esse olhar positivo a nosso respeito, ao nosso entorno e àquilo que nos acontece (e de que não temos o menor controle) é o que chamo de felicidade”.

A partir da mudança, ela se tornou especialista em difundir a metodologia Hoffman e a ensinar outras pessoas a trilhar um caminho para o bem-estar por meio de cursos e de propostas descritas nos livros O mapa da felicidade (Editora Gente, 240 páginas, R$ 29,90) e Perdão, a revolução que falta (Editora Gente, 160 páginas, R$ 29,90). Muito resumidamente, Heloísa deixa aqui uma das principais mensagem que divulga. “A felicidade independe de fatos e pessoas, se é feliz simplesmente por escolha. A tristeza faz parte, o luto faz parte, mas nada disso tira a minha felicidade, que é uma escolha.”

• Fé em Deus e pé na tábua

Beto Novaes/EM/D.A Press
"Felicidade é um sentimento subjetivo: para alguns é ter dinheiro, para outros é ter poder, mas acho que é uma coisa simples como fazer bem ao próximo, lutar para que todo mundo tenha as mesmas chances e oportunidades" - Dalila Abrahão Caram, professora (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Que o diga a professora Dalila Abrahão Caram, de 58 anos, conhecida pelo apelido de Risadinha desde a infância, um flagrante da forma com que encara a vida. Surpreendida recentemente com diagnóstico positivo para câncer, ela experimentou, sim, sentimentos negativos: “Medo do que não conhecemos, de não saber lidar, de não ter força”, conta. Mas no lugar de entregar os pontos, encarou o tratamento com fé em Deus, que considera confiança e conforto e “nos dá a chance de ver que vale a pena lutar sempre para que as coisas sejam melhores”, frisa, esbanjando positividade. “Felicidade é estar bem com você mesmo, de bem com a vida, com as pessoas próximas, se colocar no lugar do outro, perceber o outro e ajudá-lo, colocando a confiança em Deus”, registra.

Não por acaso, o alto-astral de Dalila foi elogiado até mesmo pelos médicos, surpresos pela forma como ela levou força à equipe e aos pacientes enquanto esteve em tratamento. Na realidade, postura que reflete uma vida toda, em muito dedicada ao ensino, como professora da rede municipal, onde fez de tudo para ajudar os alunos, muitos em vulnerabilidade social. “Minha vida sempre foi marcada por luta e dificuldades. Casei muito jovem, aos 16 anos, e precisei me esforçar para estudar, me formar e fazer pós-graduação. No entanto, sempre tive muita garra, pois deposito confiança em Deus, que é meu porto seguro e sabe o que é melhor para a gente.”

Ela também aponta a descoberta do que chama de missão como base para a serenidade. “Poder ajudar crianças e adolescentes é minha paixão. Há 30 anos me dedico a essa profissão e o retorno desse trabalho, a oportunidade de apresentar uma perspectiva de vida melhor para essas crianças, levando otimismo, amor, autoestima e sempre as incentivando, me tornaram uma pessoa melhor e mais feliz. Não em 100% do tempo, em todas as horas, dias ou anos, mas sabendo que a vida é movimento e tudo é passageiro.”

Recentemente, Dalila fundou, ao lado de amigas, o Grupo de Mães, na Paróquia Santa Terezinha, próxima à sua casa. O objetivo, mais uma vez, é ajudar, amparada na positividade. “A vida é maravilhosa, cheia de oportunidades, tudo o que já passei valeu a pena e penso que, por minha experiência, posso ajudar outras pessoas, fazer o bem, anular todo o mal que existe à nossa volta”, acredita. E finaliza com uma certeza: “Problemas e dificuldades todos temos, mas só de deitar a cabeça no travesseiro e saber que tenho meus filhos e minha família, durmo feliz porque, no fim das contas, felicidade é uma coisa simples, como fazer bem ao próximo, lutar para que todo mundo tenha as mesmas chances e oportunidades.”

O que é o Processo Hoffman?

É um processo de autoconhecimento, em cursos com duração de sete dias e que nos leva a conhecer e a revisitar nossa infância de quatro pontos de vistas diferentes: o intelectual, o emocional, o espiritual e o físico. Olhamos para a nossa história de pontos de vista diferentes e aprendemos como foi que nos construímos como a pessoa que somos. Ao olhar para esse aprendizado, percebemos a possibilidade de fazer escolhas e mudar pontos de vista, ações e reações.

Pílulas de felicidade

Heloísa Capelas, autora de O mapa da felicidade (Editora Gente), acredita que todos podem buscar e optar pelo bem-estar. A seguir, dicas que ela ensina em cursos, palestras e livros.

Presente

“Vivemos presos às mágoas do passado ou na expectativa de um futuro melhor e nos esquecemos de viver o único momento que existe, o presente. É preciso saber que, se eu estiver presente aqui e agora para a vida, vou viver aquilo que ela me der, com os recursos que tenho. Isso é ser positivo. Isso é estar presente, aqui e agora, lembrando que todas as situações são circunstanciais. Portanto, se a vida me tira algo, é circunstancial e jamais, de jeito nenhum, será para sempre. Vou viver o luto, a raiva, a tristeza, a impotência daquele momento, mas tudo passará.”

Autoconhecimento

“A felicidade é determinante e determinada pelo quanto a pessoa se conhece. Saber quem é, onde está neste mundo, o lugar que ocupa, aonde quer chegar, a importância para si, para o entorno, para as pessoas com quem convive, o seu próprio significado. Todas essas respostas são fornecidas pelo autoconhecimento e, quando a pessoa toma consciência delas, está pronta para ser feliz.”

Tempo de cura

“Quanto tempo eu vou ficar chateado? Quanto tempo viverei o luto? Quanto tempo ficarei apegado àquilo que não deu certo? Pensar sobre prazos é positividade. Escolho e me responsabilizo por aquilo que vivo e aí vou viver a dor por quanto tempo? Sim, vou vivê-la, sim. E agradecer porque toda dor me engrandece, toda dor me faz aprender e ficar mais forte e, a partir daí, fico pronta e mais disponível para ser feliz. Toda dor e todos os acontecimentos dolorosos são aprendizados e estamos aqui para saber mais, para melhorar, nos tornar melhores pessoas, sermos mais felizes.”

Entorno

“Estamos aqui para distribuir bem-estar e felicidade àqueles que estão ao nosso entorno. Se sou feliz, cinco pessoas ao meu redor ficam felizes também, segundo estudos científicos e comprovados. Então, escolho ser a fonte de felicidade para cinco pessoas, escolho porque isso só me beneficia.”

Um caminho de possibilidades
Ser capaz de aprimorar suas escolhas, a fim de se fortalecer emocionalmente para ser menos afetado ou reagir melhor diante das dificuldades da vida, é o sentido da felicidade

Instituto Movimento pela Felicidade/Divulgação
Encontros do Instituto Movimento pela Felicidade promovem o se conhecer e conhecer o outro (foto: Instituto Movimento pela Felicidade/Divulgação)

Um otimista que sempre se considerou feliz, fazendo questão de enxergar todas as coisas pelo lado positivo - as ruins como aprendizado e as boas como reconhecimento pelo esforço -, Benedito Nunes Rosa é idealizador e fundador do Instituto Movimento pela Felicidade, uma associação de pessoas e profissionais que, assim como ele, acreditam no papel de promover e despertar o conhecimento sobre a ciência da felicidade, “um movimento aberto e que beneficia a todos”, garante.

Mantido com recursos provenientes de cursos, treinamentos, oficinas e palestras ministradas em todo o país, o Instituto promove, a partir de 11 de abril, o 2º Encontro Internacional de Felicidade e Bem Estar (veja o serviço na página). Os eventos realizados em Contagem, Ouro Preto e Belo Horizonte são abertos a todos os interessados e, segundo Rosa, objetivam funcionar como um embrião do que promete ser realidade em um futuro breve.

Instituto Movimento pela Felicidade/Divulgação
"A resiliência ou a capacidade de recuperar a autoestima e tocar a vida ao enfrentar uma adversidade é um dos principais ingredientes para experimentar a felicidade, escudo protetor e combustível para avançar, a despeito dos probelmas" - Benedito Nunes Rosa, idealizador e fundador do Instituto Movimento pela Felicidade (foto: Instituto Movimento pela Felicidade/Divulgação)

“Muitas lideranças já perceberam a necessidade de investir na humanização e em alternativas para promoção do bem-estar e da felicidade, o que, no final das contas, é a mesma coisa. O conceito de cidades felizes, com a adoção de políticas públicas voltadas para a felicidade dos cidadãos e dos servidores, já é uma realidade em alguns países. Nos próximos 10 ou 15 anos, acredito que a cultura da felicidade seja uma realidade mundial”, anseia.

Advogado com especialização em biopsicologia, ele começou a estudar o ser humano lá atrás, quando trabalhava como professor na área de sustentabilidade. “Passei a pensar sobre questões como: que ser humano é esse, que tem que produzir, respeitar e viver em harmonia com o meio ambiente? Que tem que ser um líder na sua comunidade? Será que pessoas felizes são melhores profissionais? Para responder a essas perguntas, comecei a estudar o homem sob a ótica da felicidade”, lembra.

O QUE DIZ A CIÊNCIA

A trajetória de busca do então professor revelou “um veio de ouro” a ser explorado, como diz. Nesse caminho, descobriu guias que julga poderosos, como o livro Em busca de sentido (Viktor Frankl, de 1946, Editora Vozes, 140 páginas, R$ 33), estudou a felicidade, inclusive por meio de fórmulas como a proposta por Sonja Lyubomirsky, pesquisadora da psicologia positiva (que diz felicidade=genética+escolhas circunstâncias). Com o aprendizado, Rosa, que descreve o conceito de felicidade como “um estado de equilíbrio emocional”, diz acreditar que “a busca é uma competência que pode ser apreendida por meio do convívio com experiências positivas e do autoconhecimento acerca do que te faz bem e do que não faz”. Uma das dicas, ele revela, é o indivíduo ser capaz de aprimorar essas escolhas, a fim de se fortalecer emocionalmente para ser menos afetado ou reagir melhor diante das dificuldades.

“Felicidade não é tirar os problemas da vida, mas aprender a lidar com eles”, ensina. E lembra: “A resiliência ou a capacidade de recuperar a autoestima e tocar a vida ao enfrentar uma adversidade é um dos principais ingredientes para experimentar a felicidade, um escudo protetor e combustível para avançar a despeito dos problemas”.

VIRTUDES

Outra dica, afirma, vem da obra do psicólogo Martin Seligman, estudioso da psicologia positiva. “Você tem problemas, mas também virtudes. Quanto mais investir nelas, mais forte você fica e menores serão as dificuldades. A grande sacada é sempre trabalhar o copo meio cheio no lugar de meio vazio.”

Rosa cita ainda o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB), surgido no Reino do Butão (Ásia), em 1972. “Ele permite conceituar a felicidade em nove dimensões: bem-estar, psicológica, educação, cultura, vitalidade comunitária, meio ambiente, governança, padrão de vida e uso do tempo. Quando você consegue equilíbrio em todas essas dimensões, experimenta um estado de felicidade ou de flow - conceito da psicologia positiva. É justamente o FIB que sustenta nosso modelo de aferição de níveis de felicidade nas organizações.”

O especialista também aponta a neurociência como elemento estruturador da felicidade. “Simplificando, posso falar da plasticidade cerebral, ou seja, a capacidade de moldar nosso cérebro para que compreenda nossos anseios como realizações. Pensar positivamente e fazer exercícios de meditação, por sua fez, moldam nossas atitudes. Assim, é possível alcançar objetivos e exercitar a capacidade de reagir de forma positiva às circunstâncias as quais não temos controle.”

Quando questionado sobre como é possível pensar em felicidade em tempos bicudos, o especialista fala sobre esperança. “Sim, a crise financeira, política e social é uma realidade, mas vejo uma esperança muito grande nas pessoas, a descoberta da capacidade de transformação. Acredito que nós, brasileiros, estamos em transição: o povo está tomando consciência de seu papel, importância e poder. Apesar de tudo, e cada um a seu modo, as pessoas têm predisposição a serem felizes. E, mais uma vez, felicidade tem a ver com a forma como eu reajo diante do mundo. Se eu me comparar com um milionário, posso ser infeliz, mas se olhar para dentro, descobrir meus valores e meu lugar no mundo, posso ser feliz.”

Serviço
2º Encontro Internacional de Felicidade e Bem-Estar
» O que é:
Inspirado na ciência da felicidade e ancorado nas pesquisas mais recentes no âmbito da neurociência, da psicologia positiva e da biopsicologia, o evento propõe a discussão de temas fomentando a criação de uma nova plataforma de conhecimento. Unindo teorias e vivências, reúne especialistas globais, casos de sucesso e praticantes experimentados, e visa abordar a felicidade de maneira integral.
» Datas: De 11 a 13 de abril, em Contagem, com o tema Cidades Felizes; de 9 a 11 de maio, em Ouro Preto, com o tema Pessoas Felizes; 19 e 20 de junho, em Belo Horizonte, com o tema Organizações Felizes.
» Informações: http://www.movimentopelafelicidade.com.br/

Indivíduo e coletividade
Priorizar escolhas que fazem bem é uma forma de se aproximar da felicidade e, segundo quem busca realização pessoal, focar o bem coletivo é um processo libertador e prazeroso

Leandro Couri/EM/D.A Press
"Acredito que felicidade é uma escolha que você faz diariamente, que cada um tem a opção de definir como será o dia, ainda que enfrente chuva, trânsito e alagamento. Como Einstein propôs, vou fazer com que a vida dê certo e , para mim, acompanhar de perto o crescimento dos meus filhos é sinônimo de bem-estar" - Ricardo Alexandre dos Santos Araújo, de 41 anos, empresário (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Professor, dono de empresa de tecnologia, administrador de uma cooperativa de empreendedores e de um espaço para festas, Ricardo Alexandre dos Santos Araújo, de 41 anos, convive com muitos executivos, grupo em que percebeu existir uma máxima: “Muitas vezes, os profissionais mais bem-sucedidos colocam como contrapartida para o sucesso o afastamento dos filhos, da família, uma realidade que me assustou quando estava para ser pai”, conta.

Sim, ele é o que podemos chamar de workaholic, mas acredita que “quanto mais vínculos com os filhos e forte a relação com a família, mais empoderado o sujeito será”. A prova vem de si mesmo, pai de Laura e Francisco, e autor do blog Pai executivo, em que relata episódios da relação com os pequenos com o objetivo de deixar um legado positivo no mundo. “Acordá-los e prepará-los para a escola, contemplar o sono das crianças é um momento que me prepara para enfrentar qualquer coisa”, declara.

À noite, a atenção aos filhos também é 100% exclusiva. “Tenho a prática de concentração plena, pois penso que mais relevante que o tempo dedicado a eles é a intensidade desse convívio: posso estar lá apenas em 20% do dia, mas é de corpo e alma, presente. Desligo o celular e digo a quem me procura e não encontra que estava em uma reunião com clientes muito importantes: meus filhos.”

O empresário vai além, e fala sobre o que a escolha tem a ver com felicidade. “Acredito que felicidade é uma escolha que você faz diariamente, que cada um tem a opção de definir como será o dia, ainda que enfrente chuva, trânsito, alagamento. Como Einsten propôs, vou fazer com que a vida dê certo e, para mim, acompanhar de perto o crescimento dos meus filhos é sinônimo de bem-estar.”

Araújo revela outro fato que chama a atenção: “Li os resultados de uma pesquisa que questionou entre doentes em fase terminal o que mudariam em suas vidas se tivessem oportunidade e a maior parte das respostas não incluiu temas como ter mais dinheiro, uma casa ou um carro diferentes, mas, sim, que mudariam as relações. Então, acredito que não é o que o sujeito conquistou que interessa, mas o legado que ele vai deixar, e é extremamente triste a perspectiva de perder essa oportunidade.”

Dica para os pares é rever as prioridades, como afirma. “O mercado é competitivo, mas é possível estar nele e ainda ter relação com os filhos. Se não está satisfeito, repense a sua vida pois pode estar dedicando os melhores anos a algo que não se orgulha de fazer.” E um conselho para todos: “Lidar com a felicidade não significa eliminar problemas de relacionamento, de trabalho, financeiros. É uma gestão muito mais ampla, que tem a ver ainda com uma experiência coletiva pois a felicidade tem que ter impacto na sua atitude política, social, cotidiana. Enquanto houver espaço para melhorar vidas no mundo, minhas atitudes serão nesse sentido. Quando mais pessoas pensarem da mesma forma, a felicidade será, finalmente, um direito de todos.”

PERSONAGEM DA NOTÍCIA

Carlos Altman/EM/D.A Press - 28/8/17
(foto: Carlos Altman/EM/D.A Press - 28/8/17)

Célia Laborne, de 92 anos (foto), uma das primeiras jornalistas do sexo feminino a atuar no estado, além de poetiza e escritora, diz que não guarda rancor de nada e apresenta um poema sobre a felicidade. Confira:

Vamos brincar de felicidade?

Você pode escolher as cores e o ambiente; eu distribuirei o primeiro sorriso destinado à multiplicação e você o acolherá como se fosse definitivo e imperecível. Eu direi a primeira palavra amável e você a guardará para que a qualquer momento possamos transformá-la em mil outras e alegrar o mundo inteiro.

Falarei sobre o sol e o céu muito azul, então tudo ficará positivamente iluminado. Lembrarei as horas de festa e faremos com que todos participem do encantamento.

Há um segredo dentro de cada hora à espera de que o libertemos, mas talvez só os sábios ou os puros tenham tido oportunidade de decifrá-lo, sem mágoas e sem tormentos.

Vamos hoje insistir firmemente para que tudo seja belo, saudável, feliz. Vamos brincar de harmonia, como se fossem muito nossos esses dons que recebemos e que, muitas vezes, guardamos egoisticamente.

Cada um colherá junto de nós a primeira rosa para a oferta, a primeira palavra para o estímulo, o primeiro gesto para a compreensão.

E, é bem possível que, quando menos esperarmos, toda a nossa brincadeira será a mais espantosa realidade - como se de nossas mãos pudesse brotar o milagre de chamar a paz e retê-la ao nosso lado. Vamos brincar hoje, intensamente, de felicidade, e tudo então, será possível.

Três perguntas para...
 Marcos Vieira/EM/D.A Press
(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Antonio Selvaggi - de 55 anos
Praticante e facilitador de práticas de estudos do Budismo no Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB).

1) O que é felicidade para você?

Felicidade é um estado de espírito que, talvez, possa ser percebido de dois modos básicos: um relativo e outro absoluto. A felicidade relativa é essa que buscamos no dia a dia, por meio do entretenimento, da autossatisfação, do conforto, do controle sobre as coisas, as pessoas e os conceitos, da busca de segurança.

2) Como a felicidade relativa “funciona”?

Quando as ações nos sentidos descritos acima são bem-sucedidas, ficamos felizes. Quando não são, ficamos infelizes. Mas como tudo que nos deixa feliz nessa perspectiva é temporal, ou seja, se transforma, é impermanente, mesmo inicialmente felizes, exercemos várias ações no sentido de assegurar essa felicidade ou não perdê-la. E isso gera tensão e ansiedade. Por outro lado, quando não temos o objeto de felicidade, exercemos várias ações no sentido de conquistá-lo, o que também gera tensão e ansiedade. Todo esse movimento pode ser resumido na Roda Da Vida budista, onde Buda explica de forma detalhada e lúdica esse movimento ininterrupto dos seres em busca da felicidade relativa, enquanto procuram se afastar do sofrimento. Essa motivação básica nos irmana.

3) E a felicidade do ponto de vista absoluto?

Buda e vários seres humanos excepcionais antes e depois dele, de várias tradições, contemplaram também a felicidade do ponto de vista absoluto. Nesse modo, a pessoa subverte a lógica autocentrada e passa a ver o bem-estar do outro como foco de suas ações e esforços, e isso basta para que ele(a) se sinta feliz.

4) Como chegamos a ela? Para que esse modo de operar seja efetivo, é preciso um profundo contato com a natureza primordial que nos gera e mantém todo o tempo. Será preciso meditar profundamente, entrar na experiência contemplativa viva, despir-se de várias camadas de condicionamentos a que somos submetidos no longo processo de maturação do ego. É um despojar-se inteligente, vivo, que poderá levar ao contato com esse espaço básico que nos gera e nutre. Desse ponto, surge a energia autônoma da felicidade genuína, que não precisa ser alimentada no âmbito relativo. Dotados dessa energia, podemos nos doar para o outro, não por bondade relativa, mas por ser o caminho único e óbvio a ser seguido.

5) É possível buscá-la na rotina do século 21?

Encontramos exemplos todo o tempo. Como volta e meia cita o Lama Padma Samten, quando ocorrem grandes catástrofes, o que reconstrói o tecido social não é o aspecto econômico, mas a rede solidária que se forma em torno da manutenção da vida, a rede de apoio e reconstrução, que não tem uma meta propriamente, a não ser apoiar a existência viva que reconhecemos no outro, e que espelha a nossa própria. Então, não estamos falando de uma coisa esotérica e distante, mas sim de uma realidade próxima que surge naturalmente em janelas entre os vários episódios de egocentrismo e autocentramento do dia a dia.