Suicídio: do silêncio ao saber falar

A escolha errada de palavras para se referir ao ato extremo pode estimular a prática e comprometer a prevenção, sinaliza estudo europeu. A pesquisa mostra que o cérebro não processa as diferentes expressões da mesma forma, abrindo a possibilidade de reações distintas

por Paloma Oliveto 12/03/2018 11:24
Netflix/Reprodução
A série '13 reasons why', da Netflix, fala diretamente sobre o assunto (foto: Netflix/Reprodução)

É preciso falar de suicídio. Mas é preciso saber falar de suicídio. Se há até pouco tempo essa palavra dificilmente seria lida em um jornal, hoje é consenso de que relegar o tema à categoria de tabu não ajuda a diminuir riscos. Pelo contrário, com o silêncio autoimposto, perde-se a chance de trabalhar a prevenção. Contudo, nem sempre se acerta na escolha das palavras e expressões para lidar com esse problema sério de saúde mental. Não é uma questão de ser “politicamente correto”, mas de evitar atribuir ao ato conotações que, para pessoas fragilizadas, podem acabar sendo interpretadas como estímulo.

A forma como o cérebro processa informações sobre suicídio dependendo da expressão utilizada foi testada por uma equipe de pesquisadores europeus. Eles recrutaram 451 indivíduos que foram divididos em três turmas. Todos leram as mesmas notícias curtas adaptadas da imprensa, com a diferença de que, para cada grupo, utilizou-se uma palavra diferente para definir o ato em si - os termos, em alemão, foram suizid (suicídio), selbsmord (auto-homicídio) ou freitod (morte livre).

Segundo os autores do artigo, publicado na revista Social Science Medicine, enquanto a primeira palavra é considerada neutra, a segunda remete a crime, e a terceira “transmite o significado associativo segundo o qual os seres humanos podem escolher, livre e racionalmente, por diversas opções comportamentais”, sendo, de acordo com os pesquisadores, a mais problemática para se referir ao suicídio. Até porque há um contrassenso nesse termo: embora remeta ao livre arbítrio, a ciência sugere o contrário: “Na verdade, pesquisas mostram que indivíduos em crise suicida exibem um estreitamento emocional e intelectual, o que dificilmente dá apoio às suposições de livre arbítrio e escolha racional”, observam.

Depois de apresentados aos textos, os voluntários tiveram que resumir o que leram usando as próprias palavras e preencher vazios em um joguinho de passatempo que testava a memória implícita (que não requer uma busca consciente). Por fim, os pesquisadores fizeram perguntas sobre a opinião pessoal que eles tinham sobre suicídio. A análise do desempenho dos participantes não deixou dúvidas, segundo Florian Arendt, pesquisador do Departamento de Ciência da Comunicação e Pesquisa de Mídia da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, Alemanha.

Aqueles que leram as notas de jornal que se referiam ao suicídio como freitod tiveram uma visão mais positiva do ato, quando se debatia a prática cometida por pacientes crônicos. Os voluntários dos grupos que leram as notícias contendo os termos suizid e selbsmord mostraram-se menos indulgentes. A influência das palavras empregadas nas reportagens foi visível. “Encontramos um efeito claro, na medida em que os participantes preferiam usar o termo que tinham lido nos textos passados a cada um deles”, diz Florian Arendt (Leia duas perguntas para).

DESCONFORTO

O pesquisador ressalta que, nos países onde se fala alemão, a expressão mais frequentemente usada pela mídia para se referir a suicídio é selbstmord, também não recomendada por associar a vítima a um crime. Embora freitod não seja tão comum quanto, ela ainda aparece com regularidade nas reportagens. A psiquiatra Helena Moura, preceptora da residência de psiquiatria do Instituto Hospital de Base, lembra que, no Brasil, também há uma variedade de termos utilizados para se referir ao suicídio.

A médica, que é do Pará, já trabalhou no Rio Grande do Sul e, hoje, mora em Brasília, diz que cada região tem formas peculiares de denominar o ato. “No Sul, dizem autoextermínio, o que me soa muito agressivo. No Pará, dizem ‘partir ao ato’. É como se as pessoas não estivessem confortáveis para falar suicídio. Ficam com vários rodeios e não falam claramente no assunto”, critica. Para Helena Moura, o experimento realizado na Alemanha poderia ser reproduzido no Brasil para verificar se os termos utilizados no país também influenciam o significado que as pessoas atribuem ao suicídio.

Além das palavras certas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que não se utilize alguns termos, como “tentativa bem-sucedida” ou “tentativa malsucedida”, pois eles implicam que a morte seria o resultado desejável para o ato. Detalhes excessivos, descrição de métodos e reportagens que, de alguma forma, romanceiem a tragédia também podem estimular pessoas com ideações suicidas. Para Helena Moura, o ideal é que, ao se noticiar um suicídio, especialmente de celebridades, que despertam muito a atenção, a imprensa aproveite a chance para mostrar relatos que, de fato, acabaram bem: ou seja, de pessoas que passaram por crises suicidas, mas conseguiram superar e, hoje, estão bem.

INFLUÊNCIA DA FICÇÃO

Com o anúncio da segunda temporada da série da Netflix 13 reasons why, que trata do suicídio de uma adolescente, a influência que obras ficcionais podem ter sobre a audiência volta a ser debatida por especialistas. Um estudo da Universidade de San Diego, na Califórnia, indicou que, logo após a estreia do seriado, no ano passado, houve um aumento nas buscas sobre o ato na internet. “Todas as buscas que incluem o termo suicídio foram cumulativamente 19% maior nos 19 dias seguintes à estreia, refletindo de 900 mil a 1,5 milhão de mais buscas do que o esperado”, relata o estudo.

Os autores também examinaram o teor do rastreio e descobriram que, comparado ao padrão anterior à estreia da série, houve uma mudança, com mais procura sobre meios de cometer o ato. “13 Reasons Why aumentou a atenção sobre suicídio, mas ainda preocupa que buscas indicando ideação suicida também tenham aumentado. Não está claro se qualquer uma dessas buscas precedeu uma tentativa real”, observaram os autores.

Para Kimberley H. McManama O’Brien, psiquiatra da Faculdade de Medicina de Harvard que pesquisa intervenções de prevenção ao suicídio, o sucesso da série deve estimular outros executivos da área de entretenimento a produzir títulos semelhantes. “Nesse caso, é imperativo que eles tenham responsabilidade ética e social, aderindo às recomendações e fornecendo aos jovens espectadores os recursos necessários para processar um conteúdo emocional tão carregado, especialmente quando esse conteúdo é assistido, geralmente, em um curto período de tempo (nas maratonas de série)”, afirma. “Essa imersão na história e nas imagens pode ter um efeito particularmente forte sobre os adolescentes, cujo cérebro está desenvolvendo a habilidade de inibir certas emoções, certos desejos e certas ações.”

Peça ajuda Prevenção ao suicídio: ligue 188. Serviço disponível 24 horas por dia

Duas perguntas para
FLORIAN ARENDT
Pesquisador do Departamento de Ciência da Comunicação e Pesquisa de Mídia da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, Alemanha

Embora sua pesquisa tenha investigado os termos para suicídio em alemão, o senhor acha que as conclusões gerais podem ser ampliadas para outros idiomas? Em português, por exemplo, temos diferentes expressões também, como tirar a própria vida e se matar.

Claro, essa é uma importante aplicação. Nós conduzimos o estudo em alemão, mas essa questão também é relevante para qualquer língua em que há palavras ou frases que provocam um significado problemático específico, uma conotação. Eu não falo o seu idioma e, por isso, não posso dar uma opinião como especialista para o português. Porém, “tirar a própria vida” e “se matar” soa bem neutro, ou seja, sem significados associativos que conotem decisões racionais, crime ou livre arbítrio. Nem todas as linguagens têm palavras diferentes para suicídio - incluindo os referentes problemáticos.

A mídia social é a principal fonte de informação para muita gente, especialmente jovens. Os acadêmicos também estão investigando como o suicídio é descrito no Facebook, Twitter, Youtube etc.?

Sim. É a mesma coisa da mídia tradicional: pode ser percebido como uma faca de dois gumes. Por um lado, relatos emocionais, como dar descrições detalhadas do método de suicídio (especialmente de celebridades) pode aumentar as taxas de suicídio. Por outro, matérias responsáveis podem ter um efeito protetivo, diminuindo essas taxas, como se referir a serviços de aconselhamento telefônico ou conter depoimentos de pessoas que se saíram de forma positiva de uma crise suicida. As mídias sociais têm o potencial para ambos. Porém, o Instagram está atualmente dominado por descrições gráficas muito explícitas, como #suicide e #selbstmord (suicídio em inglês e alemão, respectivamente). Mais conteúdo útil deveria ser publicado, como por organizações profissionais de prevenção.

ARTIGO » Clareza e seriedade

Para falar de suicídio, o ideal é que se utilize uma linguagem clara, para que a população possa entender o sentido da morte e o do suicídio. O ideal é utilizar frases como “Ele morreu”, “Ele cometeu suicídio” e “Ele se matou”. Podemos utilizar a palavra suicídio para que se divulgue cada vez mais essa informação. Quando dizemos “Ele deu fim ao sofrimento”, essa é uma mensagem dúbia, como se o suicídio fosse uma forma de curar o sofrimento, e as pessoas que sofrem e que pensam em se matar podem adotar a morte como um remédio para curar o sofrimento.

Morrer é uma forma de finalizar o sofrimento? É. Mas existem outras estratégias para aprazar esse sofrimento e dar uma qualidade de vida melhor para a pessoa. Existem outras alternativas para lidar com isso, principalmente em relação à psicoterapia, a medicamentos, a um apoio social e familiar adequado. Quem comete suicídio não quer morrer; ele deseja, sim, aliviar o sofrimento. Tentar suicídio é um pedido de ajuda.

O importante é conscientizar a população com seriedade, com reportagens que tragam pesquisas, estatísticas, prevalências. Esse tipo de material pode ser algo preventivo, para que outras pessoas que estejam pensando em morte, realizando planos de se matar, possam procurar tratamento.

Também não devemos realizar piadas sobre isso, como fez um youtuber recentemente no Japão. O suicídio é a terceira causa de morte em adultos jovens, só perde para homicídio e acidente de trânsito. Compromete a vida do indivíduo e, se a abordarmos isso de forma cômica, podemos, em vez de prevenir, incitar a prática, principalmente em adultos jovens e adolescentes, que são os mais vulneráveis.