Obesidade dificulta diagnóstico e tratamento do câncer de mama

Estudo com 2 mil suecas mostrou que a obesidade mascara a presença de nódulos malignos nas mamas, dificultando a detecção precoce. Excesso de peso também favorece o câncer, alertam os pesquisadores

por Sara Sane 20/02/2018 14:03
Ilustração/Valdo Virgo
(foto: Ilustração/Valdo Virgo)

Mulheres obesas precisam de mais cuidados na prevenção do câncer de mama, segundo um estudo sueco do Instituto Karolinska, apresentado no encontro anual da Sociedade Radiológica da América do Norte. O trabalho mostrou que aquelas com índice de massa corporal (IMC) acima de 30 correm o risco de descobrir os tumores apenas quando eles já estão grandes e, portanto, mais difíceis de tratar e curar. Assim, os pesquisadores sugerem que pessoas com o perfil realizem a mamografia com mais frequência. Médicos brasileiros, porém, questionam essa recomendação.

Para realizar o estudo, os cientistas coletaram dados de mais de 2 mil mulheres diagnosticadas com câncer de mama em Estocolmo, na Suécia, entre 2001 e 2008. “Realizamos essa pesquisa para entender por que algumas mulheres não são diagnosticadas até que o tumor esteja grande”, afirma Fredrik Strand, principal autor do trabalho. “Examinamos muitas possíveis causas e descobrimos que o índice de massa corporal e a densidade mamográfica estão relacionadas a isso”, explica. Segundo o pesquisador, a descoberta de que o IMC elevado torna difícil a detecção dos tumores, mesmo nos exames, foi uma novidade.

Densidade

Os pesquisadores acompanharam as pacientes até 2015 e concluíram que tumores em mulheres com IMC elevado ou com a mamária densa não foram detectados até que já tivessem chegado a 2cm, o tamanho de um amendoim. Esse parâmetro é importante, pois é o que separa o estágio 1 do 2 da doença. Além disso, trata-se do tamanho em que o nódulo se torna palpável, o que favorece o diagnóstico precoce.

O mastologista José Roberto Filassi, chefe do Setor de Mastologia da Divisão de Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), esclarece que a densidade da mama é o que dificulta o diagnóstico da doença e lembra que algumas mulheres não obesas também podem apresentar esse problema. “A mama densa não tem sensibilidade, assim fica mais difícil rastrear o tumor. Então, quem precisa de uma vigilância maior são mulheres com a mama densa, sendo elas obesas ou não”, diz.

Por outro lado, já se sabe que o peso excessivo e o sedentarismo são fatores de risco para o câncer de mama, o que aumenta o alerta para mulheres que estão com índice de massa corporal elevado. “A recomendação é que a pessoa tenha um peso corporal adequado para diminuir o risco do câncer”, diz Arn Migowski, epidemiologista e chefe da Divisão de Detecção Precoce do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Estrogênio

A associação entre obesidade ou sobrepeso com o câncer de mama acontece porque a gordura transforma outros hormônios em estrogênio, ou seja, quanto mais gordura, maior concentração do hormônio. “O estrogênio é um dos fatores que precisam estar presentes para que ocorra o câncer”, esclarece José Roberto Filasse.

Segundo o Inca, a necessidade de fazer a mamografia é de uma vez a cada dois anos entre 50 e 69 anos, o que se aplica também às pessoas obesas. Entretanto, aquelas que fazem parte de grupos de risco precisam começar o rastreamento mais cedo e com maior frequência, de acordo com a recomendação médica. Mulheres com histórico familiar da doença (parentes de primeiro grau), aquelas com determinadas mutações genéticas e que já foram diagnosticadas com outros tumores malignos estão entre as com risco aumentado.

Frequência deve ser mantida

Rodrigo Pepe, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia, diz que é preciso mais estudos para comprovar a necessidade da mamografia em intervalos mais curtos, no caso de mulheres obesas. “É preciso mostrar os benefícios e comprovar que esse diagnóstico está relacionado à qualidade de vida das pacientes”, explica.

Outra observação que ele faz sobre a pesquisa sueca está relacionada ao número, que considera pequeno, de mulheres envolvidas no estudo. Para Pepe, os argumentos não são fortes o suficiente para mudar a recomendação na frequência dos exames.

O médico argumenta que alterar a rotina de rastreamento não resolveria, porque a mutação celular acontece muito lentamente, e a possibilidade de encontrar qualquer mudança é muito pequena. “Se não tem nada no exame hoje, pode ser que já haja tumor, mas que ele não está grande o suficiente para ser visto. Com 6 meses de exame de intervalo, é quase impossível ver qualquer alteração, então, não tem necessidade da mamografia”, alega. Contudo, o mastologista diz que quando o tumor alcança um determinado tamanho, começa a crescer mais rápido a cada ano.

Pepe recomenda que, para as mulheres obesas ou com sobrepeso, a melhor dica é manter o equilíbrio da massa corporal. Ao mesmo tempo, o epidemiologista Arn Migowski, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), diz que é preciso desconstruir a ideia de que a mulher obesa precisa fazer mais exames. “A densidade dificulta, mas não quer dizer que tenha que fazer a mamografia com mais frequência.”

Quanto ao autoexame, Migowski recomenda cautela. É preciso conhecer a mama e saber reconhecer o que está certo ou errado. “O autoexame é uma questão complicada, porque a mama é cheia de alterações e saber procurar direito não é fácil”, concorda José Roberto Filasse, da Universidade de São Paulo.

* Estagiária sob a supervisão da subeditora Carmen Souza