Versão enfraquecida do vírus zika diminui o crescimento de tumor em cérebro

Injetada em ratos, versão modificada do agente aumenta a expectativa de vida. Cientistas norte-americanos acreditam que a abordagem poderá ser repetida em humanos

por Vilhena Soares 19/09/2017 12:36
Reprodução/Internet/Deviante
(foto: Reprodução/Internet/Deviante)

No cérebro em desenvolvimento, o zika vírus tem ação drástica, levando o bebê a nascer com microcefalia. Cientes dessa grande interferência no órgão, cientistas norte-americanos cogitaram usar o micro-organismo a favor do infectado: combatendo tumores. Em um experimento com ratos manipulados para ter glioblastoma, o câncer cerebral mais comum, a abordagem surtiu resultados promissores, publicados na última edição da revista The Journal of Experimental Medicine. Segundo os autores, o trabalho abre caminho para um tratamento mais eficaz contra a doença incurável.

“Um problema intratável no glioblastoma é que as células-tronco cancerígenas são resistentes à radiação e à quimioterapia. Nosso colaborador Jeremy Rich foi o primeiro a mostrar essa resistência à radiação. Muitas pesquisas têm procurado formas estratégicas para matá-las”, explica Milan Chheda, um dos autores do estudo e pesquisador da Universidade da Califórnia. Descoberto o diagnóstico, o paciente vive em média por até dois anos.

Michael Diamond, também autor e pesquisador da Escola de Medicina da Universidade de Washington, explica que o zika tem uma atuação no feto vinculada às células-tronco. “Sabíamos que ele atingia essas células em fetos humanos. Por isso, cogitamos que esse vírus poderia ser capaz de infectar e matar seletivamente células-tronco cancerígenas no cérebro. Levantamos a hipótese de que a preferência do vírus zika pelas células precursoras neurais poderia ser direcionada para as células-tronco do glioblastoma”, detalha.

Para isso, os pesquisadores desenvolveram uma cepa adaptada do vírus zika, bem mais sensível ao sistema imune, e a injetaram em ratos com glioblastoma. O patógeno diminuiu o crescimento do tumor e prolongou significativamente a vida útil dos animais. Também foi capaz de atingir e matar especificamente as células-tronco do câncer, sendo ainda mais eficaz quando combinado com uma droga de quimioterapia chamada temozolomida, que geralmente tem pouco efeito sobre essas células.

“Há uma longa história de vírus oncolíticos (que destroem o câncer) para tratar tumores. Nosso trabalho é um pequeno passo nesse contexto maior. Mostramos um mecanismo específico para atingir as subpopulações mais resistentes das células cancerígenas”, ressalta Chheda. “O interessante desse estudo é que os pesquisadores pegam algo que é catastrófico para as crianças e transformam em algo benéfico para o uso em adultos”, avalia Fabio Simões Fernandes, neurocirurgião do Hospital Brasília.

O médico explica que a quantidade de células-tronco neurais em crianças é maior porque essas estruturas são responsáveis pelo desenvolvimento do cérebro. “Pode até ser que ocorram danos a células-tronco neurais com o uso dessa versão atenuada do zika, mas isso só se perceberia anos à frente, o que ainda assim seria benéfico, pois a abordagem aumenta o tempo de vida desse tumor, geralmente pequeno”, explica Fernandes.

Os autores acreditam que uma terapia mais completa possa surgir a partir das constatações iniciais. “Nosso estudo é um primeiro passo para o desenvolvimento de cepas seguras e efetivas do vírus zika que possam se tornar ferramentas importantes na neuro-oncologia e no tratamento do glioblastoma”, diz Diamond. Mas a equipe reconhece que a segurança da técnica é uma das questões que precisam ser avaliadas com mais cuidado. “Queremos nos certificar de que o vírus zika modificado é seguro e estável. Além disso, pretendemos compreender melhor o mecanismo que faz com que ele destrua as células-tronco tumorais”, adianta o investigador.

Fernandes também acredita que mais pesquisas são necessárias para que o uso do zika no combate ao glioblastoma seja uma opção futura à medicina. “Precisamos ter certeza de que a utilização do vírus não gere consequências graves.”

Palavra de especialista
Fernando Cotait Maluf coordenador do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia e fundador do Instituto Vencer o Câncer

Aposta científica 

“É uma pesquisa interessante , que ainda precisa de mais testes para que possamos ter certeza da sua eficácia. Essa técnica utiliza uma via de pesquisa que tem sido bastante explorada: os vírus oncolíticos, que, mesmo relacionados a doenças, são utilizados no combate a cânceres. Além do zika, estão sendo usados como objeto de estudo para o combate a tumores cerebrais o adenovírus, o parvovírus e o poliovírus. O grande desafio dessas pesquisas é criar uma alternativa mais eficaz, já que os tratamentos atuais, cirurgia, quimioterapia e drogas biológicas, têm resultado limitado. Como próximo passo, acredito que é preciso saber os efeitos e a segurança dessa abordagem em testes clínicos realizados em humanos”


Novo alerta


Apesar do número de casos de infecção por zika ter diminuído, o vírus continua preocupando as autoridades. Tanto pelos efeitos que provoca nas pessoas infectadas quanto pelo fato de sua ação não ser completamente conhecida. Um dos pontos de alerta é o surgimento de novas cepas, a partir de mutações e adaptações ao longo das contaminações. O risco foi ressaltado por pesquisadores brasileiros durante a abertura da Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental, realizada na semana passada, em Campos do Jordão.

“Hoje, existe apenas um único zika e, uma vez infectada, a pessoa se torna imune. Mas o vírus está em franca mutação, e não seria surpresa se, em breve, surgirem o zika 2, 3, 4...”, declarou Edison Luiz Durigon, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Os investigadores colheram semanalmente amostras de sangue, esperma e urina dos pacientes (dois homens e uma mulher). O material foi enviado aos Estados Unidos para análise, e o mapeamento genético mostrou alterações no vírus.
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