Fisioterapia aquática pode ajudar a suportar males típicos do inverno

Baixas temperaturas não causam somente frio, mas provocam dores e desconforto em quem tem artrite e reumatismo, entre outros transtornos

por Lilian Monteiro 06/08/2017 07:00
Arquivo Pessoal
A fisioterapeuta Cláudia Furst Fernandes afirma que a prática exerce papel fundamental na recuperação funcional dos pacientes (foto: Arquivo Pessoal)

A fisioterapia aquática é um recurso da área da reabilitação indicada para tratamentos nas áreas de geriatria, ortopedia, traumatologia, reumatologia, neurologia, oncologia, pediatria, esportiva e para gestantes. Pessoas que sofrem com dor crônica, limitação de movimentos, dificuldades de locomoção, alteração de equilíbrio, pós-operatórios de cirurgias ortopédicas, artrite, artrose, fibromialgia, dor lombar, hérnia de discos cervical e lombar, pacientes submetidos a prótese de quadril, joelho e ombro, quem sofreu acidente vascular encefálico, crianças portadoras de paralisia cerebral, idosos com sobrepeso que apresentam distúrbios do equilíbrio e limitações funcionais importantes são algumas das condições beneficiadas pelo tratamento na água. Trata-se da realização de exercícios terapêuticos em piscina coberta e aquecida a 32 graus.

Cláudia Furst Fernandes, fisioterapeuta com formação internacional em fisioterapia aquática, explica que a água aquecida, por meio das suas propriedades físicas e fisiológicas, exerce um papel fundamental na redução dos sintomas e recuperação funcional dos pacientes tratados com a fisioterapia aquática. Devido à redução do peso aparente do corpo, provocada pela força da flutuação (empuxo), a recuperação dos movimentos na água é mais fácil, menos dolorosa e com amplitude maior em relação à fisioterapia em solo (convencional). “Esse efeito beneficia pacientes com restrição de movimento articular, como os portadores de capsulite adesiva, artrite e pós-operatórios de cirurgias ortopédicas.”

O resultado tem a ver com a pressão hidrostática, exercida pela água na superfície de todo corpo imerso no ambiente aquático. Ela favorece a redução do edema (inchaço) articular, beneficiando pacientes submetidas a mastectomia para o tratamento do câncer, cuja sequela é o linfedema crônico, portadores de linfedema e de doenças degenerativas, inflamatórias e traumáticas que acarretam edema articular. “A reabilitação do edema articular na água é mais efetiva em relação à fisioterapia em solo. A temperatura mais elevada da água atuando durante toda a sessão, associada aos efeitos da flutuação e pressão hidrostática, auxilia na diminuição da percepção dolorosa no indivíduo imerso em água aquecida”, enfatiza a profissional.

Cláudia Fernandes destaca que os exercícios terapêuticos e a execução das técnicas especializadas em piscina coberta e aquecida a uma temperatura que pode variar entre 32 e 34 graus é uma exigência da fisioterapia aquática. “É nessa faixa que teremos os efeitos fisiológicos e terapêuticos necessários para a reabilitação. As evidências científicas comprovam que acima de 33,3 graus de temperatura o corpo recebe calor necessário para reduzir a sensibilidade das terminações nervosas sensitivas, diminuindo as dores e espasmos musculares”.

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(foto: Arquivo Pessoal)

A fisioterapia aquática ocorre tanto na época de frio quanto de calor, sempre mantendo a temperatura terapêutica (de 32 a 34 graus). Ela só não é feita na água fria, pois, com o frio, o paciente não conseguirá o relaxamento muscular necessário para os movimentos, alívio da dor e consequente recuperação funcional. Em vez disso, vai contrair, aumentando o quadro de dor e rigidez.

JAPONESES E CHINESES

Cláudia Fernandes lembra que a fisioterapia aquática não é uma modalidade terapêutica nova, ao contrário, é um dos recursos mais antigos da fisioterapia. “Sabemos que o ser humano utiliza água como meio de cura há milhares de anos. Os japoneses e chineses usavam prolongados banhos quentes para reduzir a fadiga, acelerar a cura de ferimentos e combater a depressão. Por outro lado, Hipócrates usava a imersão em água quente e fria para combater os espasmos musculares e as doenças reumáticas. Embora não haja precisão de quando a água foi utilizada pela primeira vez com finalidades terapêuticas, há indícios de que os orientais tenham iniciado essa prática por volta do século 19. Podemos ressaltar que o uso da água no passado não coincide, no entanto, com a percepção que temos dela hoje. Sabemos muito mais sobre os seus benefícios, já que é um meio de tratamento cientificamente estudado”.

Conforme a especialista, fazem parte do resultado da fisioterapia aquática equipamentos específicos, além das técnicas especializadas. Ela tem uma cadeira de alongamento subaquática, esteira para caminhadas na água, prancha de equilíbrio, escada modular subaquática, flutuadores cervical e pélvico. Todos são ferramentas que potencializam o tratamento. “O sucesso da fisioterapia aquática no tratamento de uma grande variedade de doenças ou disfunções não se resume apenas às propriedades físicas e fisiológicas da água aquecida. Uma consulta fisioterapêutica criteriosa e bem planejada possibilitará a elaboração de um programa de reabilitação aquática personalizado, atendendo às necessidades específicas de cada paciente. Observo, na prática clínica, uma diminuição da necessidade do uso de medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios devido à eficácia da fisioterapia aquática no alívio das dores.”

I
Arquivo Pessoal
(foto: Arquivo Pessoal)

nfelizmente, a fisioterapia aquática não está disponível na rede pública. É particular. Geralmente, com 10 sessões o paciente já sente melhora no quadro de dor e função, com consequente melhora da qualidade de vida. “Podemos dizer que o tratamento na água não é caro. A relação custo/benefício é favorável e um número significativo tem acesso.” E as contraindicações, segundo a fisioterapeuta, são consideradas absolutas ou relativas. As absolutas são infecções de pele, febre acima de 38 graus, insuficiência cardíaca e renal, pressão arterial descontrolada e sintomas de trombose venosa profunda. E as relativas são incontinência urinária e fecal, epilepsias, capacidade pulmonar vital baixa e doenças sistêmicas.

Benefícios

» Alivia a dor

» Relaxa os músculos

» Reduz os espasmos musculares

» Reduz edemas

» Facilita o ganho de amplitude de movimento articular

» Aumenta a circulação periférica

» Facilita a marcha

» Melhora os distúrbios do sono

» Melhora a ansiedade e o estresse

» Favorece o fortalecimento de músculos fracos

» Melhora o equilíbrio

» Ajuda no controle do peso corporal

» Contribui com a normalização do tônus em pacientes neurológicos

» Favorece a descarga de peso precoce com proteção articular

*Fonte: www.fisioterapiaaquaticabh.com.br

DEPOIMENTOS

• Eugênia Lúcia Alves Machado, de 72 anos, dona de casa

“Procurei um ortopedista há um tempo por causa da dor intensa que sentia no joelho, que sempre ficava inchado. Depois da avaliação, tive o diagnóstico de artrose e lesão de menisco. O médico me disse que, se não melhorassem os sintomas, teria que fazer uma cirurgia. Fui indicada por uma amiga para fazer fisioterapia aquática. Comecei e rapidamente senti melhora na dor e no edema articular. Melhorou muito a minha qualidade de vida. Também sentia muitas dores na região lombar, e hoje, com a continuidade do tratamento, já não sinto mais. Meu joelho não fica mais inchado e não foi preciso me submeter à cirurgia. Estou muito satisfeita com os resultados.”

• Juliana Camargos Araújo, de 34, advogada

“Há oito meses busquei a fisioterapia aquática. Em poucas sessões pude sentir seus benefícios, como a redução dos edemas e melhora significativa das dores nos ombros, na lombar e no pé que havia fraturado. Gradualmente, também estou ganhando massa muscular e resistência física, tudo isso de uma maneira segura, sem sofrer impacto, como poderia ocorrer fora do ambiente aquático. Além disso, o tratamento nunca fica chato ou monótono, já que minha fisioterapeuta usa técnicas e equipamentos variados a cada sessão. É uma pena que a fisioterapia aquática não seja tão conhecida e, tampouco, seja frequentemente prescrita pela maioria dos médicos, pois é incrível.”

Aposte na atividade física
No inverno, é comum algumas pessoas relatarem dores mais intensas nas articulações. Especialista explica por que ocorre e como agir

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Breno Nascimento diz que cada recurso terapêutico tem uma capacidade para ajudar o paciente no controle da dor (foto: Arquivo Pessoal)

Para aquecer o corpo, geralmente, encolhemos, contraímos a musculatura e, assim, associada com a vasoconstrição decorrente do frio, ocorre a diminuição do fluxo sanguíneo nas extremidades do corpo. Os músculos podem ficar mais rígidos e provocar dores. Se você tem algum problema clínico, então, a situação pode se complicar. Breno Gontijo do Nascimento, professor de fisioterapia do Centro Universitário Estácio e professor-doutor pelo Laboratório de Bioengenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que não há grandes evidências científicas que apresentam a relação entre baixas temperaturas e aumento das dores nas articulações. “As reportadas na literatura internacional se referem aos pacientes que já apresentam doenças crônicas, como artrite reumatoide e osteoartrites.”

A influência da baixa temperatura nas pesquisas, de acordo com Breno Nascimento, considera fatores como frio, pressão atmosférica, umidade e velocidade do vento. Sendo o frio o fator climático capaz de alterar a viscoelasticidade do tecido muscular, altera, dessa forma, a rigidez. Ou seja, a dureza da articulação que está relacionada com sua capacidade de movimento da articulação, o que provoca no corpo alteração da rigidez do tecido músculo esquelético e, consequentemente, maior limitação para a realização dos movimentos.

O complicado é como lidar com o inverno e passar pelo frio sem sofrimento. Ou, pelo menos, amenizá-lo. Para Breno Nascimento, os exercícios físicos são realmente um dos melhores remédios para as dores articulares. Ao fazer movimentos articulares, a pessoa promove melhor funcionamento da articulação, devido à liberação de substâncias lubrificantes e também o efeito sistêmico analgésico que os exercícios são capazes de gerar.

No entanto, é preciso saber qual atividade física é a mais indicada. Breno Nascimento recomenda, para indivíduos que apresentam quadros com alguma queixa de movimentação e limitação o acompanhamento de um especialista para prescrição e execução dos exercícios. “Médicos, fisioterapeutas e educadores físicos devem sempre ser consultados.”

Além da prática de exercícios, Breno Nascimento lembra que, na fisioterapia, há tratamentos que auxiliam na redução da dor. Tens, laser, ultrassom, alongamento, hipertermoterapia... “Sim, esses são recursos terapêuticos usados pelos fisioterapeutas durante diversos tratamentos. Cada recurso tem uma capacidade de auxiliar os pacientes no controle da dor. Porém, deve ser sempre aplicado por profissionais capacitados. Os recursos podem ter efeitos mais imediatos e de curta duração, mas também existem aqueles que são modulados para processos analgésicos mais duradouros.” E a aplicação dos recursos deve ser feita conforme o relato de cada paciente. No entanto, no frio, ele ficará “refém” desses aparelhos?

FRIO E CALOR

Quem está com dor só pensa em se ver livre dela. Mas muitos não sabem como aliviá-la. Há quem use compressas, bolsa de gelo ou água quente. Como proceder? Breno Nascimento explica que cada recurso (gelo ou calor) tem uma ação terapêutica para os tratamentos. O gelo é o recurso usado nos traumas/acidentes que ocorrem no momento. Como entorse do tornozelo ou uma dor no cotovelo depois de uma partida de tênis. Já o calor é um recurso usado para quadros de lesões crônicas e, principalmente, situação em que se busca um relaxamento da musculatura envolvida em alguma disfunção que o paciente apresente. “Mas cada caso deve ser cuidadosamente avaliado pelo fisioterapeuta.”

Portanto, cuide-se sempre sob orientação de um profissional. E como o frio só vai embora em setembro, Breno Nascimento lembra que o agravamento que o frio provoca é realmente a restrição aos exercícios terapêuticos, quando o paciente apresenta uma maior tendência em ficar em casa e, dessa forma, suspende a frequência na clínica de fisioterapia e também nas academias. E o alerta para procurar assistência é a dor incapacitante, que impede os indivíduos de fazerem suas atividades da vida diária. “Lembrem-se que é importante vencer o sedentarismo ou a preguiça que o frio possa impor. O indicado é manter o corpo aquecido e sempre em movimento.”

SINAL DE ALERTA

Como combater as dores articulares que pioram em épocas frias? Quem tem artrose, também chamada de osteoartrite, doença que ataca as articulações, promovendo o desgaste da cartilagem que recobre as extremidades dos ossos, principalmente das mãos, coluna, joelhos e quadris, ou lida com a artrite, que gera inflamação prolongada da articulação, sendo mais comum nos punhos e nos dedos das mãos, não é fã do inverno rigoroso. O fisioterapeuta Rodrigo Moura, da FortaleSer, explica que as pessoas com o diagnóstico de artrose ou de dor com duração de mais de três meses têm uma alteração no sistema de percepção de dor e desconforto, como se tivessem um sinal de alerta ligado permanentemente. “Seu sistema nervoso é mais hiperexcitado e faz com que percebam um pouco mais a intensidade e o desconforto, a ponto de entender os estímulos que não são de dor como se fossem, como a alteração da temperatura ambiente. Quando diminui a temperatura, deveria ocorrer a hiperexcitação dos receptores térmicos, por conta da alternância de temperatura. Porém, a hiperexcitação do sistema de percepção de dor faz com que essas pessoas sintam essa alteração como dor, sendo que era para ser só uma alteração térmica.”

Diante da alteração desse sistema, o fisioterapeuta conta que as pessoas que têm dor persistente durante a alternância de temperatura deveriam estimular os receptores térmicos, porém, estimulam o de dor. E, por isso, fazem a associação de que a dor piorou com a mudança climática. “Mas não é o frio que piora a dor, e sim o fato de elas já terem um quadro de dor persistente, que faz com que percebam alguns estímulos como dor. Em ambos os casos, a dor e a rigidez podem aumentar durante a madrugada e a manhã, fazendo com que haja certa dificuldade para sair da cama ou começar as primeiras atividades do dia.”

Rodrigo Moura, então, dá orientações para quem tem quadro de dor persistente. “Tem de entender o que o quadro provoca de dor, avaliar os níveis de movimento e mobilidade do corpo. Deve-se tratar e avaliar, principalmente, a funcionalidade, evoluindo para uma rotina de exercícios físicos, movimentos específicos do dia a dia e hábitos gerais de uma rotina com qualidade de vida. Tentar tratar pontualmente com dicas ou comportamentos isolados não resolve.”

ADAPTAÇÃO

“As pessoas que sofrem de dor no joelho devem evitar atividades que o sobrecarreguem. Elas devem ser direcionadas para atividades que amenizem o impacto, como a hidroginástica, e o exercício aeróbico, como a bicicleta. O importante é adequar, sempre enfatizando o movimento ou o condicionamento, já que o repouso excessivo e a falta de movimentação levam ao medo e à insegurança, que piora o quadro.”

Rodrigo Moura explica que o processo degenerativo, a artrose em si, não é um problema. O problema é a adaptação do corpo ao envelhecimento. O importante é que esse envelhecimento ocorra com a preservação do movimento, da mobilidade, da força e do condicionamento, para que a pessoa não desenvolva mais limitações.

Ele conta que hoje existem vários estudos mostrando que o processo degenerativo, a artrose, o desgaste da cartilagem, dependendo da faixa etária, não quer dizer que a pessoa tenha de sentir dor. “Os exames e estudos atuais já não correlacionam o processo degenerativo com a dor, mas sim que dependem de outros fatores relacionados à avaliação fisioterápica, biomecânica, do movimento principalmente e funcional, que envolve outras questões.”

Como se prevenir da dor independentemente da estação do ano:

» Manutenção do movimento e função

» Condicionamento físico

» Força muscular

» Hábitos gerais de vida saudável

» Exercício físico regular e frequente

PERSONAGENS DA NOTÍCIA:


A ordem é se mexer
Wânia Lúcia Divino de 62 anos, laboratorista

Arquivo Pessoal
(foto: Arquivo Pessoal)
“No frio, sofro mais.Principalmente na hora de me levantar, sinto que estou toda torta, um horror. Só melhora quando começo a esquentar um pouco. Apesar de tudo, não fico parada. Fujo da vontade de ficar encolhida porque senão vou ficar é enferrujada. Tenho reumatismo e artrite reumatoide desde adolescente. Faço caminhada, desço e subo escada, mesmo com elevador, e aulas de dança na Estácio. Movimentar me faz bem. Tenho prótese no joelho, mas a dor maior é no ombro. Mas graças a Deus estou ótima com meus 62 anos, mais do que aos 15. Não deixo a doença tomar conta. Ficar parada é pior. E depois que comecei a dançar flamenco, três vezes por semana, das 14h às 15h, não me lembro da dor nem do frio.”

Cuidados e disciplina
Regina Viana, de 67, ex-professora universitária 


“Tenho artrite reumatoide e coloquei duas próteses: no joelho e no cotovelo direito. Já senti muita dificuldade para andar, devido à artrose nos dois tornozelos. Mas como faço tratamento fisioterápico e atividade física há oito anos, não sofro com dores com a mudança de temperatura. Meu incômodo maior é pela manhã e vai melhorando no decorrer do dia. Para aliviar, faço pilates, acompanhado por fisioterapeuta e educador físico duas vezes por semana e, uma vez por semana, tenho sessão de fisioterapia manual, com atividades específicas para os lugares onde sinto mais incômodo, além de drenagem do edema. O tratamento, feito com disciplina, faz com que os sintomas fiquem cada vez mais brandos.”

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