Adeptos de outras décadas adotam o antigo como estilo e resgatam o clima de épocas anteriores

Nostalgia, incompletude, melancolia, saudosismo, estilo ou diversão. Muitas pessoas buscam referências do passado para se sentirem completas e felizes

por Lilian Monteiro 28/05/2017 07:00

Leandro Couri/EM/D.A Press
Jéssica e Graziela vivem o presente com um pé no passado. Elas têm como marca os anos 1940 e 1920, respectivamente (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

O homem é um eterno ser inacabado. Sempre anseia por algo diferente do que ele é (ou do que tem...). Sensação que o leva a buscar completude das mais variadas formas, seja nas relações, nos sentimentos, no consumo ou simplesmente em atitudes que lhe garantam diversão e uma vida mais leve. Em pleno século 21 e na era digital, é cada vez mais comum nos depararmos com termos como vintage e retrô e uma ode ao antigo, seja no mundo da moda, da maquiagem, da decoração ou do jeito de levar a rotina do dia a dia.

No fim, tudo é questão de gosto e prazer. Não passa do desejo em adotar um estilo personalizado, único e que o deixe confortável e com a sensação de aconchego com seu visual e modo de lidar com o mundo. O apreço pelo que é antigo pode até soar como nostalgia, vontade de voltar ou resgatar o passado, de apego a momentos importantes que tenha vivido ou saudosismo. Mas também é simplesmente a liberdade de escolha pelo diferente. Atitude que propõe sair do lugar-comum, andar contra a corrente, provocar ou nada mais do que assumir quem é. Nada tão complicado assim ou que precise de um divã.

Por outro lado, quem se apega ao passado e nutre uma paixão cega pelo que já foi porque está descontente com seu presente necessita de ajuda. Ao agir assim, a pessoa está correndo o risco tanto de abrir mão da atualidade quanto de fazer uma ponte para o futuro. Tudo que saia do controle e seja uma fuga exige cautela e cuidado para que não interfira no bem-estar.

No filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, além de todas as interpretações que propõe, não tem como fugir da nostalgia que Gil Pender, personagem de Owen Wilson, sente ao parecer um homem sempre incompleto. Questionamento que surge tamanho seu encantamento ao “viver” os anos 1920 e conhecer Scott Fitzgerald, Picasso, Buñuel, Dalí, Hemingway, Cole Porter, Matisse, Gauguin e Degas. Ao mesmo tempo, a película nos mostra que a única saída é se envolver com o presente, construir uma história.

FELICIDADE

A verdade é que, independentemente da época em que se vive, ainda que com a presença constante da insatisfação, com a sensação de achar que determinado lugar ou época era ou seria mais feliz, nada melhor do que viver o agora. Ainda mais por nunca ter certeza ou garantia de que o outro momento realmente foi melhor. Será uma incógnita constante. Mas também é fato que a felicidade, o bem-estar, a alegria, o sentir-se confortável sempre estará onde se deseja.

Então, ainda bem que não há regras. Ter referências ao se vestir, decorar a casa, andar por aí, ouvir a música, mergulhar na literatura, ver filmes e se maquiar como nas décadas de 1920, 30, 40, 50, 60, 70 ou 1980 nada mais é do que escolhas que fazem bem. Desde que não rompam a linha do exagero. Afinal, como não se envolver ou prestar atenção na era do jazz, no rockabilly, Grace Kelly, Audrey Hepburn, Rita Hayworth, Mary Quant, o beatnik Jack Keurouac e a ideia on the road, Mutantes, a art-déco, os surrealistas, Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones e David Bowie, as melindrosas, James Dean e Marlon Brando ou mesmo em Ulisses, de James Joyce?

Hoje, o astral do Bem Viver está no passado, com foco no presente e atento ao futuro. Encontramos personagens que dividem o prazer de ter no estilo antigo um ponto de vista que lhes cai muito bem. E os especialistas, uma psicóloga e psicoterapeuta, uma doutora em moda e design e um professor de psicologia social, analisam esse comportamento. E você, qual época o faz suspirar?

Em busca de um tempo que não viveu
Vintage, retrô, antigo. uma doutora em comunicação e Um advogado adotam o estilo dos anos 1920 à década de 1950 como forma de expressão e identidade

Eric não passa incógnito pelas ruas da capital. Seu visual, que vai dos anos 1920 aos 1950, chama a atenção. O mesmo ocorre com Graziela que, se não está caracterizada completamente com a década de 1920, sempre terá um acessório que foge do lugar-comum. Como os dois, cresce o número de adeptos que revisitam o design do passado e esbanjam criatividade ao misturar com prazer gostos de outras épocas. A euforia dos anos 1920, década da prosperidade e liberdade, animada pelo som das jazz-bands e pelo charme das melindrosas e a presença de astros como Rodolfo Valentino e Josephine Baker, e o corte de Chanel. A moda militar e o modelo de beleza dos anos 1930, de Greta Garbo e Marlene Dietrich. A criatividade dos chapéus e o chamado ready to wear (pronto para usar) da década de 1940. A cintura bem marcada, o vestido rodado e esvoaçante à la Marilyn Monroe em contraponto ao blusão de couro, topete e jeans dos rebeldes, e a musa Brigitte Bardot da década de 1950. A calça cigarrete, a minissaia, o paletó sem colarinho com gola rolê e a ícone Twiggy dos anos 1960. Para qual época seu olhar brilha?

Leandro Couri/EM/D.A Press
Apaixonada pelos anos 1920, a professora da UFMG Graziela Mello Vianna diz que, para ela, essa época parece um período de mudança nos costumes, na forma de pensar, de vestir e de dançar (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Graziela Mello Vianna, doutora em comunicação e professora do Departamento de Comunicação da UFMG, herdeira da tradicional família mineira que dá nome a ruas e escolas de Belo Horizonte, é encantada pelos anos 1920. Das melhores amigas gêmeas da infância, dos filmes de terror alugados na locadora e de referência do avô, que trabalhou na Imprensa Oficial e só andava elegantemente de terno e despertou nela o gosto pela leitura, Graziela cresceu com uma multiplicidade de interesses. “Gosto principalmente do pensamento e da estética da década. Assim como da literatura e da música popular no período entre guerras. O jazz nos EUA e o samba no Brasil foram registrados pela primeira vez em 1916-1917, e na década de 1920 (e 1930) viajam pelo mundo e incorporam novas referências. Os loucos anos 1920 me parecem um período de mudança nos costumes, na forma de pensar, de vestir e de dançar.”

Apesar de toda a sua formação acadêmica ser na área da comunicação, Graziela se interessa pelas artes e percebe cruzamentos interessantes. O que define seu jeito de ser: “Faço aula de desenho e de dança, mas gosto de música, cinema, literatura e moda. Sempre adorei o que os mais jovens chamam de 'música velha', como um samba antigo. Mas o período de estágio de doutoramento que fiz em Paris em 2007 e as minhas pesquisas recentes sobre paisagens sonoras urbanas ao longo do século 20 acentuaram esse gosto pela década de 1920”.

Com um estilo particular, Graziela adora a leveza dos vestidos desse período que vai contra a rigidez do espartilho e do comprimento das saias da Belle Époque, que limitava os movimentos das mulheres. Nessa época, foi inventado também o esmalte, e as unhas se coloriram. “Meu guarda-roupa é retrô e se inspira nessa leveza. Hoje, é praticamente impossível comprar uma peça original (vintage) dos anos 1920. Em Paris, por exemplo, descobri lojas maravilhosas, com vestidos igualmente maravilhosos, alguns bordados com fio de prata, mas muito caros (preços que começam em 1,5 mil euros). Os melhores lugares para encontrar as peças são os brechós, principalmente em capitais europeias como Paris, Lisboa e Londres. Nesses lugares, se não dá para comprar um vestido é possível descobrir um acessório. Há lojas que se inspiram ou imitam as peças daquela época e a vendem como retrô”, conta.

BEHOPPERS

Graziela diz que, “como estamos no século 21, acho interessante trazer esse estilo de quase 100 atrás para o nosso tempo. Assim, muitas vezes misturo algo retrô com um acessório supermoderno e contemporâneo. Mas, em ocasiões especiais ou nem tão especiais assim, desde que haja algum pretexto qualquer, visto-me completamente com o estilo anos 1920”. Antenada com a década, ela dança com os BeHoppers, grupo que difunde o hop e o charleston em Belo Horizonte, e “participo da maioria dos eventos que eles propõem, como o pic lindy (piqueniques feitos em praças públicas, onde dançamos os estilos) todo último domingo do mês, o lindy no bar (ocorre em bares e restaurantes com música ao vivo ou mecânica) na segunda quinta-feira de cada mês, e o pimp my lindy (treino aberto dos BeHoppers, também mensal). Além disso, neste ano participei da Tweed Ride, um passeio de bicicleta pelas ruas de BH com as pessoas vestidas com a moda dos anos 1920”.

Na Fafich, onde trabalha, Graziela revela que é reconhecida como “aquela professora dos vestidos diferentes”. “Outro dia, um aluno pediu a palavra para dizer 'professora, adoro os seus vestidos'. As alunas querem sempre saber onde comprei as minhas peças. Meus amigos, quando veem algo retrô, dizem logo: 'Isso é a cara da Grazi' ou 'Grazi, vi uma roupa que me fez pensar em você'. As crianças, às vezes, olham sem entender. Pensam para o que serve aquele chapéu... Acho que a roupa que você usa é a sua marca no mundo, a sua identidade. A roupa conta histórias sobre a pessoa que a veste, indica modos de pensar. Por isso, se gosto do modo de pensar daquele tempo, me visto inspirada nele. Essa é a minha marca.”

CAÇA AO TESOURO

O advogado Eric Elias Guimarães anda por BH sempre elegante e de terno. Exigente, não mistura referências e faz questão de se o costume é dos anos 1950, o chapéu, o sapato e a gravata seguirão a década. Ele sabe que o modelo de 1920 é de corte reto, de 1930, é mais acinturado; de 1940 com mais pano; e o dos anos 1950 é mais sóbrio e de três botões. “Não me apego a uma década específica, mas uso tudo de acordo com a época. Gosto de garimpar minhas roupas, é lúdico. Conheço gente e lugares e vivo a emoção como se fosse caça ao tesouro. Tenho peças dos anos 1930 e 1940 que uso pouco porque são especiais e tenho o prazer e a responsabilidade de preservá-las para o futuro.”

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O advogado Eric Elias Guimarães diz que gosta e se sente confortável com o estilo dos anos 1940 (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Eric se lembra que desde criança desejou ser diferente. Ao formar sua identidade, ter autonomia e vontade própria, trouxe para seu cotidiano e vida comum o gosto pelo antigo, que começou com o interesse por LP, vitrola, decoração, filmes e figurinos que compõem esse universo. “Pode ser uma fantasia, claro, havia hipocrisia, mas era um passado humanizado, o trato com as pessoas era humanizado, com menos pressa. Não era frenético como agora”, diz. Ele reforça que “fujo do referencial, mas isso nunca me atrapalhou. Sou resistente a certa tecnologia, mas preciso ceder. Ela até me ajuda, posso achar antiguidade em um clique, e a recebo em casa. Mas não vivo sob a égide da pressão do consumo programado para acabar mais cedo”.

SANTOS DUMONT

Quanto ao seu estilo, Eric enfatiza que não é voltar ao passado, alienação, viver uma melancolia ou algo que ocorreu na sua vida que o faz rejeitar o novo e se desencaixar do presente. “Gosto e me sinto confortável. Na verdade, não é a roupa ou o visual, mas tento adotar um estilo de vida sem pressa, mais devagar, e unir dois mundos. Uso bicicleta (antiga!), em casa tenho decoração com itens de época (cama, sofá, gramofone, rádio, guarda-roupa), deixando a tecnologia sempre disfarçada. Tenho prazer de ler sobre essa mistura de referências, escuto jazz, Elvis e Bill Haley, adoro a era de ouro do cinema de Hollywood, Machado de Assis, Alcântara Machado, Mário de Andrade e Fitzgerald.”

E como os outros o interpretam? “Os olhares ocorrem o tempo todo. Vejo ar de aprovação, imagino que há no inconsciente popular figuras como Fernando Pessoa, Santos Dumont, homens elegantes, bonitos e com presença. Já para os amigos sou referência. Meu jeito não é moda, tendência, releitura, nova roupagem. É o que eu gosto e faz parte da minha personalidade”, afirma Eric.

Presença e tempero para viver
Nostalgia, moda ou incompletude? Especialistas analisam o comportamento de pessoas que usam referências do passado. Eles alertam que passar da medida é um risco para o presente e o futuro

Talvez você conheça ou já ouviu alguém dizer sobre a sensação de ter nascido na época errada. Pessoas que vivem como no passado, ou melhor, adotam referências de outras décadas, que julgam mais encantadoras. Há quem se sinta seduzido e tenha apreço pelo que é antigo, vintage ou retrô. O que pode ter um ar de nostalgia ou mesmo de incompletude.

A psicóloga e psicoterapeuta de família Cláudia Prates afirma que a escolha de uma época, de um lugar ou elenco de personagens eleitos como modelo ocorre por motivos diferentes. Ela destaca quatro: “O primeiro é quando a pessoa considera determinada época a ideal, a melhor para se inserir, no sentido de satisfação mesmo. A segunda é quando a escolha se remete a situações já vividas e que foram de grande importância e valor. Aqui tem o tempero nostálgico. O terceiro motivo é abrigado pela vivência, de encarnação mesmo, que modifica e registra gratificações e dívidas a serem quitadas; e, por último, destaco quando o indivíduo faz seu reposicionamento diante do que é mais confortável e protegido, seja por poder ou bem-estar. Essa é a fundamentação”.

Para Cláudia Prates, o problema é que a consequência prática dos quatro motivos é a mesma. Ou seja, a perda da própria presença na vida real, no presente. O que é um dos males do nosso século, patrocinado pela automatização de atitude e aceleração do tempo e acúmulo de tarefas. Conforme a psicóloga, o grande risco de não estar presente é a paralisação da própria evolução.

REALIDADE

Nesse caso, Cláudia Prates alerta que são dois os riscos. “A falta de presença é o mais grave, e o segundo é a consequência dele, que são os acidentes que ocorrem por essa falta de presença que pode acontecer no trânsito, no trabalho, no relacionamento.” A psicóloga explica que o mistério da história é a quantidade, já que qualquer excesso é tóxico. “O segredo é o tempero da vida.”

Jair Amaral/EM
Para a psicóloga e psicoterapeuta Cláudia Prates, o risco de mergulhar no passado é perder a própria presença na vida real (foto: Jair Amaral/EM)

Cláudia exemplifica a falta de presença sob outro ponto de vista, como o exagero das mulheres em busca de cirurgia plástica, que, em vez de corrigir e tornar mais harmônico, transforma o corpo ou o rosto em atrocidade e monstros. “Isso ocorre porque muitas mulheres não estão presentes e ficam agarradas a um ideal de beleza e juventude e não se veem com o olhos da realidade. Tudo é padronizado e não se sabe o limite das coisas. Falta o tempero para não perder o valor do artesanato das relações e da beleza, é preciso estar presente para isso”, afirma. De volta às escolhas do passado, Cláudia Prates deixa claro que seja qual for a inspiração, é uma escapada da realidade, já que ela não está como a pessoa deseja.

É ESTILO E FAZ BEM

O desejo de voltar ou ter sempre contato com o passado faz parte da vida de muitas pessoas. Quase sempre elas são apontadas como nostálgicas. E geralmente são identificadas como melancólicas, saudosas, tristes, pesarosas, saudosistas. Adriano Nascimento, professor de psicologia social do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que não existe um perfil de pessoa nostálgica, mas há um conjunto de coisas relacionadas a ela. Ele se refere, especialmente, a duas características. “A primeira é a visão de que é ruim, uma ideia antiga, associada e fixa no passado. Mas de uns tempos para cá, estudos da psicologia passaram a entender que certa nostalgia é saudável. Não faz mal e estabelece e reforça importantes laços com o passado.”

O segundo ponto para o qual Adriano Nascimento chama a atenção é que “a nostalgia não é vista só como sentimento, mas como um estilo de vestir, musical, enfim, algo que pode até virar consumo. São modelos de tênis All Star e da Nike desejados por muitos. Mas a compra deles não significa ter contato com o passado, isso é difuso em termos de consumo. É como se entrasse em um antiquário e não soubesse de qual década é cada objeto. Com tudo unido, isso relaciona o passado mais com estilo do que com museu, ideia datada”.

A questão para Adriano Nascimento é que, a partir dos anos 1980, as imagens daquela década, por exemplo, estão disponíveis “apenas em parte e será sempre assim. O problema é ficar restrito apenas a esse conjunto, porque a maior parte tem a ver com diversão. Outro contexto, o político e o econômico, mais complicados do que o pop rock e a novela, ficam em segundo plano. Daí passa uma ideia mais legal de quem viveu a época”.

DIVERSÃO

Mas o professor afirma que não há nenhum problema ou questão grave de divã para os que vivem ligados ao passado. “Quando entro em uma loja e compra um All Star não estou querendo algo para me completar, mas sim ter lembranças de uma época boa que vivi ou que foi legal e agora posso comprar. É diversão”, afirma.

Adriano Nascimento se lembra dos códigos manejáveis quanto à nostalgia. “Nos dias de hoje, há flexibilidade de viver o estilo de diferentes épocas. O importante é saber conjugar, mais do que estar coerente. Por isso, a nostalgia é mais estilo do que sentimento.” O professor, aliás, é um estudioso e pesquisador da década de 1980. Ele tem dois trabalhos. Um que discutiu o sentido e o significado do pop rock com base em mais de 800 canções sobre relacionamentos amorosos da época e, agora, se debruça em decifrar e mapear as lembranças de homens e mulheres, entre 40 e 50 anos, sobre a moda, a TV, a economia e a política dos anos 1980. Este ainda está em fase de pesquisa.

Seduzida pelo glamour das divas

A designer gráfica, professora de dança e costureira nas horas vagas Jéssica Mendes, de 27 anos, conta que nasceu “em terras pão de queijenses (BH), de família pequena, cresci sem pai e sem irmãos, dividindo a casa com minha mãe e avó. Sempre amei cultura vintage, assistia a filmes e musicais como Grease, Cry baby, e outros como os da grande diva Marilyn Monroe, da incrível Audrey Hepburn ou de Fred Astaire. Queria todo aquele glamour de outra época para mim”.

Leandro Couri/EM/D.A Press
Jéssica Mendes, de 27 anos, se identifica com os anos 1940 e diz que as divas do cinema sempre a inspiraram (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Ao longo dos anos, Jéssica percebeu que era possível adotar um visual retrô sem parecer um personagem, e aos poucos incorporou peças de roupas vintage ao seu dia a dia. “A música sempre esteve presente na minha vida e também é um fator importantíssimo nessa jornada vintage. Quando adolescente, ouvia rock e rockabilly, e logo me interessei em conhecer os ritmos que antecederam o rock, como jazz e blues. Foi assim que o swing jazz entrou na minha vida, trazendo junto danças como o lindy hop, por intermédio do grupo BeHoppers. Dançar e conviver com pessoas que também amam esse universo me deu a possibilidade de sentir um pouco do que era viver na era de ouro do Jazz.”

Mas foram os anos 1940 que a arrebataram. “O que mais me interessa nessa década é a forma como a moda se reinventou no período de guerra. Eram tempos difíceis, os tecidos finos estavam em falta, não havia tantos cabeleireiros disponíveis e tampouco se encontravam meias-calças no mercado. Com isso, as mulheres criaram novo visual mantendo a silhueta elegante com inspirações militares e cores mais sóbrias, porém reutilizando tecidos ou customizando peças. Os cabelos eram mantidos de forma mais simples com cachos e grampos, usavam-se muitos lenços e chapéus e a maquiagem era improvisada com materiais caseiros”, observa.

LENÇOS E BOINAS

A designer lembra que as divas do cinema sempre a inspiraram: “Seja nos trejeitos, na sensualidade polida e elegante, na forma como dançavam ou se movimentavam em cena. Meu sonho de criança era estar em um musical antigo com todos os figurinos maravilhosos e músicas contagiantes”. Jéssica revela que no dia a dia, procura sempre mesclar seu estilo vintage com algo mais casual, como camisetas. “Mas sem abrir mão do visual retrô.” Ela ressalta que, geralmente, se veste a caráter para bailes ou ocasiões especiais, com penteados e sapatos de época. “No dia a dia mantenho a maquiagem clássica dos anos 1940, com batom vermelho e delineador gatinho. Uso roupas de cintura alta e às vezes lenços e boinas”, conta.

Opção no guarda-roupa não é problema para Jéssica, já que também cria suas roupas. “Aprendi a costurar ainda adolescente com minha avó. Ela me ensinou a dar uns pontinhos e o resto veio com a prática. Nessa época, comecei a pesquisar sobre corsets vintage e surgiu a vontade de produzir minhas próprias roupas, de pegar inspirações de outras épocas, pesquisar e criar meu próprio estilo.” Assim, os anos 1940 se tornaram a marca de Jéssica. “As pessoas já se acostumaram com meu visual, inclusive creio que não me imaginam de outra forma. Tanto que sempre há estranhamento quando, em rara ocasião, apareço de calça jeans. É muito engraçado quando ocorre.”

PALAVRA DE ESPECIALISTA:

Núbia Moor Fotografias
Para a doutora em moda Carla Mendonça, deve-se ser feliz com a moda, mas não pode negar a inserção na sociedade que pede códigos de aparência (foto: Núbia Moor Fotografias)

Códigos de aparência
Carla Mendonça, doutora em moda e comunicação e professora da Fumec 

“Nada é proibido. Mas toda escolha impõe risco e consequência. As pessoas que adotam o estilo de vestir de outras décadas precisam ter essa consciência. Deve-se ser feliz com a moda, mas não pode negar a inserção na sociedade que pede certos códigos de aparência. A linha do datado e do figurino é tênue e complicada, ainda que o vintage nos últimos anos surja como macrotendência e haja liberdade maior para se vestir. Não é impor regras, mas não ser penalizado por excessos. Pense em situações como a de um trabalho, do grupo que terá de conviver, há obrigações para cumprir e um espaço social que tem de transitar. Você não ficará confinado somente entre seus amigos e no seu nicho. É importante pensar e levar isso em conta. Pensar em misturar referências, pontuar, escolher detalhes. Quem sabe optar por peças que tiram a cara do velho, do antigo, ainda mais que a moda sempre volta e o que foi usado em outras épocas aparece de cara nova, de agora. Muitas pessoas podem se vestir como no passado fazendo desse estilo um escudo. Todos têm que ser aceitos ao mesmo tempo em que todos também precisam fazer concessões.”

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