Brasileiros avançam em vacina contra o zika

A fórmula feita com o vírus enfraquecido tem resultados animadores em ratos e primatas não humanos. A estimativa é de que a imunização chegue aos hospitais e postos em até três anos

por Paloma Oliveto 11/04/2017 15:51
Valdo Virgo/CB/D.A Press
Clique para ampliar (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)

Pesquisadores brasileiros anunciaram o sucesso no desenvolvimento de uma vacina contra o zika, em parceria com colegas norte-americanos. A imunização, testada por enquanto em ratos, se mostrou eficaz e segura. Até o fim deste mês, devem ser publicados os resultados dos estudos com primatas não humanos, que estão sendo feitos em Ananindeua (PA), no Rio de Janeiro e nos Estados Unidos. De acordo com o principal autor do trabalho, o virologista Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas (IEC), os testes preliminares com esses animais são animadores. Ele acredita que, se os experimentos em humanos forem bem-sucedidos, daqui a dois ou três anos os postos de saúde do país já oferecerão a vacina contra a doença.

A demanda por uma imunização tornou-se urgente no fim de 2015, quando ficou evidente que a epidemia de microcefalia registrada no Brasil estava associada à infecção pelo zika, um vírus para o qual, até então, a população não tinha defesas naturais. Embora a doença causada pelo micro-organismo e transmitida pelo mosquito Aedes aegypti seja muito mais branda que a dengue em fetos de gestantes infectadas, o resultado é devastador. Além do perímetro encefálico reduzido, as crianças nascem com malformações nos membros superiores e inferiores, entre diversas outras complicações.

Em 1º de dezembro daquele ano, Vasconcelos estava em Manaus quando recebeu um telefonema do então secretário-executivo do Ministério da Saúde, o bioquímico Agenor Álvares. Ele perguntou se o IEC, vinculado à pasta e uma referência mundial em medicina tropical, poderia liderar um estudo para o desenvolvimento da vacina contra o zika. “Falei que o ideal seria uma ação conjunta entre o instituto e uma instituição estrangeira para que tivéssemos mais celeridade. Sozinhos demoraria muito”, contou o virologista. Como ele fez doutorado e pós-doutorado na Universidade do Texas, parceira do IEC, ficou acertada a cooperação. Em abril do ano passado, Vasconcelos viajou com os pesquisadores Daniele Medeiros e Bruno Tardeli para os Estados Unidos, onde o ministério assinou o contrato de parceria.

Um ano e R$ 10 milhões investidos pelo Ministério da Saúde depois, saiu a primeira publicação sobre o estudo, divulgada ontem na revista Nature Medicine. Esse foi o prazo que Vasconcelos combinou com Álvares para obter os primeiros resultados, que se mostraram bastante promissores. “Vacinas bem-sucedidas requerem um balanço exato entre eficácia e segurança”, observa Pei-Yong Shi, autor sênior do artigo e pesquisador do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade do Texas, em Galveston. Na fase pré-clínica, feita com animais, foi exatamente isso que os cientistas conseguiram.

DOSE ÚNICA


Embora existam outras vacinas contra zika em desenvolvimento e em fases mais avançadas de pesquisa, essa é a primeira que usa vírus vivo atenuado. Essa abordagem – a mesma da vacina de febre amarela, um flavovírus como o zika, e da poliomelite, por exemplo – consiste em modificar o vírus, apagando algumas partes dele, de forma que não represente riscos, mas, ao mesmo tempo, esteja vivo para simular a reação do organismo diante da ameaça externa. “A vantagem desse tipo de vacina sobre as outras é que, com uma única dose, conseguimos desenvolver proteção, induzindo a formação de anticorpos no organismo, ao contrário das outras”, explica Pedro Vasconcelos.

Enquanto isso, as substâncias feitas com fragmentos de DNA ou com o vírus inativo necessitam de até três doses, exigindo, às vezes, mais reforços. “Todo mundo sabe que, quando é preciso vacinar uma pessoa mais de uma vez é complicado, principalmente quando envolve adultos, adolescentes e crianças maiores, como é nossa proposta para essa vacina do zika. Seriam (imunizados) mulheres e jovens em idade fértil e crianças antes da puberdade, para proteger contra microcefalia”, diz.

SEGURANÇA

No laboratório, os cientistas utilizaram um modelo de camundongo chamado nocaute, no qual falta o interferon, uma proteína que impede as infecções virais. Portanto, o animal com essa mutação é bem mais suscetível à ação do vírus. “Mesmo pequenas doses são capazes de matá-los”, conta o virologista brasileiro. Depois de retirar 10 nucleotídeos do vírus e, assim, garantir que ele estava com ação reduzida, os cientistas o injetaram no cérebro dos camundongos. Todos sobreviveram.

Para comparação, a equipe inoculou outro grupo de nocautes com o vírus selvagem (não modificado) e, nesse caso, todos morreram. “A segurança é um importante obstáculo quando desenvolvemos vacinas de vírus vivo atenuado. A nossa vacina do zika mostrou um perfil promissor nos ratos quando comparada a vacinas do tipo clinicamente aprovadas, como a da febre amarela”, destaca Pei-Yong Shi.

Com a segurança da vacina assegurada, foi hora de testar a eficácia. Trinta dias depois de vacinar os camundongos nocautes, os cientistas expuseram os animais ao vírus selvagem. “Nenhum morreu, e o vírus não conseguiu se replicar nos tecidos e no sangue desses animais, mostrando que eles tinham uma proteção bastante efetiva”, diz Vasconcelos.

Impactos também no mosquito


Os pesquisadores fizeram também um experimento com o Aedes aegypti, o mosquito transmissor do vírus da zika. Enquanto a versão selvagem do micro-organismo infectou os mosquitos, tornando-os potenciais transmissores da doença, os modificados na vacina foram incapazes de obter esse efeito. Embora ainda não tenha os resultados definitivos dos experimentos com macacos, Pedro Vasconcelos, diretor do Instituto Evandro Chagas (IEC), antecipa que, por ora, eles são animadores.

O que falta, agora é expor os animais vacinados ao vírus selvagem, como foi feito com os camundongos. “Esperamos que os resultados sejam similares aos que obtivemos com os camundongos nocautes (que não têm a proteína que impede as infecções virais), ou seja, que eles não tenham viremia, que não tenham efeitos colaterais e não tenham sintomatologia. Os dados preliminares estão mostrando isso”, observa.

Se os resultados forem positivos, começará a fase clínica, em que a vacina é testada em humanos. Quem ficará a cargo da produção da substância desenvolvida pelo IEC para esses experimentos será o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Segundo Vasconcelos, diversas instituições brasileiras demonstraram interesse em conduzir os testes. Contudo, antes que isso ocorra, ele ressalta que é necessário seguir protocolos burocráticos, porém necessários, envolvidos nesse tipo de estudo. O custo também não será baixo. “O que foi gasto para o desenvolvimento não é nem 10% do que será gasto com testes em humanos”, afirma o virologista.

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