O câncer sem controle: diagnóstico em pessoas com hábitos saudáveis intriga leigos e médicos

Estudo mostra que as alterações genéticas aleatórias respondem, em média, por 66% das mutações que originam 32 tumores, incluindo os de próstata, pâncreas e cérebro. O resultado reforça a importância do diagnóstico precoce da doença

por Vilhena Soares 27/03/2017 14:51
Revista Science
Clique para ampliar (foto: Revista Science)

O diagnóstico de câncer em pessoas com hábitos saudáveis, como as que seguem uma dieta nutritiva e controlam o peso, intriga leigos e especialistas da área médica. Em busca de respostas para essa questão, pesquisadores dos Estados Unidos fizeram o levantamento genético de 32 tipos de tumores e detectaram a força da aleatoriedade nesses processos. Há casos de carcinomas, inclusive tipos muito incidentes, em que erros ocorridos durante a replicação do DNA são mais atrelados ao surgimento da enfermidade que as mutações genéticas herdadas e as provocadas pela interação com o ambiente. Para os autores, os achados, publicados recentemente na revista Science, ajudam a entender melhor a doença e reforçam a necessidade da realização de exames preventivos.

As mutações genéticas que desencadeiam cânceres são divididas em três tipos: hereditárias, ambientais e aleatórias. (Veja infográfico.) Segundo os investigadores, o papel do último grupo não havia sido explorado mais a fundo pela ciência, o que os motivou a realizar o levantamento. “É bem conhecido que devemos evitar fatores ambientais, como fumar, para diminuir o risco da doença, mas não sabemos muito sobre as mutações que ocorrem na replicação do DNA. Esses erros de cópia são uma fonte potente de mutações de câncer que foram cientificamente subvalorizados. Esse novo trabalho fornece a primeira estimativa da fração de mutações causadas por esses erros”, explica, em comunicado, Cristian Tomasetti, professor-assistente no Johns Hopkins Kimmel Cancer e um dos autores do estudo.

Os pesquisadores analisaram o sequenciamento do genoma e dados epidemiológicos de 32 tipos de câncer, com dados de pacientes dos Estados Unidos e de outros 68 países. As informações equivalem a dados de 4,8 bilhões de pessoas, mais da metade da população mundial. Por meio de um modelo matemático, estimou-se que 66% das mutações críticas dos tumores analisados são aleatórias, 29% podem ser atribuídas a fatores de estilo de vida ou ambientais e as 5% restantes estão ligadas a heranças genéticas. “Erros de DNA aleatórios e imprevisíveis são responsáveis por quase dois terços das mutações nos cânceres”, ressalta Tomasetti.

O método também permitiu determinar a parcela de participação dos três tipos de mutações na ocorrência dos tumores malignos. Nos cancros de próstata, cérebro ou osso, por exemplo, mais de 95% das mutações são aleatórias. No caso dos pancreáticos, 77% delas são aleatórias, 18% causadas por fatores ambientais e 5% estão ligadas à hereditariedade. O câncer de pulmão apresenta cenário diferente: 65% das mutações são devido a fatores ambientais, principalmente o hábito de fumar, e 35% são devido a mutações aleatórias.

Análise ampliada

Bernardo Garicochea, diretor de Ensino e Pesquisa do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, explica que a investigação norte-americana é o desdobramento de um trabalho da mesma equipe. “A anterior causou muita discussão e recebeu críticas por analisar apenas a população americana, entre outros pontos. Nesse novo estudo, eles fizeram um sequenciamento bem mais amplo”, diz. “Para que o tumor ocorra, você precisa que mutações estejam presentes, e o que eles buscaram foi saber qual a proporção de cada uma dessas três mutações nesse processo.”

O especialista, que não participou do estudo, cita uma história presente no artigo que serve como ilustração da visão usada pelos cientistas. “Imagine que você tem um grupo de pessoas em que nenhuma apresenta antecedentes da doença. Depois, você as leva para um planeta que não tem nenhum fator ambiental que cause câncer. Todos os tumores que surgirem a partir daí seriam causados por alterações aleatórias”, detalha.

O preocupante da constatação é que essas mutações aleatórias não podem ser evitadas. “Elas sempre ocorrem porque o corpo precisa desse processo do DNA. Sem ele não seríamos geneticamente estáveis. Essas mutações aleatórias são como mísseis lançados a esmo. Boa parte delas ocorrerá em regiões menos importantes dos genes e não vão levar a alterações importantes, mas existe a chance de alguma atingir um gene e causar danos graves”, explica Garicochea.

Por isso, ressaltam os autores, o paciente não pode achar que os cuidados tomados por eles não evitaram a complicação. “Muitas pessoas desenvolverão o câncer, não importa o quão perfeito é o comportamento delas. A doença pode ocorrer por causa dessas cópias aleatórias do DNA. Essas pessoas não devem se sentir culpadas, não existe nada que elas poderiam ter feito para evitá-lo”, reforça Bert Vogelstein, pesquisador no Johns Hopkins Kimmel Cancer Center.

Prevenção essencial

Apesar da alta influência da imprevisibilidade na ocorrência de cânceres, especialistas frisam que a prevenção é essencial no combate à doença. Por isso, de maneira alguma, ela deve ser deixada de lado. “Claramente, alguns tipos de tumores, como o de pulmão, são fortemente influenciados por fatores ambientais. Portanto, manter um peso saudável e evitar a exposição a carcinógenos conhecidos, como o tabagismo, são fundamentais para a prevenção de mortes. Estima-se que cerca de 40% dos cânceres podem ser evitados se as pessoas se desviarem dos fatores de risco, e nossos resultados estão de acordo com essas estimativas”, ressalta Bert Vogelstein, pesquisador no Johns Hopkins Kimmel Cancer Center e um dos autores.

Os pesquisadores ressaltam que as conclusões do estudo sinalizam a urgência também de mais investigações quanto à prevenção secundária — que envolve a detecção e a intervenção precoce dos tumores. Segundo eles, a medida pode ser a única opção de tratamento para os cânceres causados principalmente pelas mutações aleatórias. “Essas medidas podem prevenir muitas mortes. Detectar cancros mais cedo, enquanto eles ainda são curáveis, pode salvar vidas, independentemente do que causou a mutação. Acreditamos que mais pesquisas para encontrar melhores formas de detectar a doença mais cedo são urgentemente necessárias”, frisa Vogelstein.

Bernardo Garicochea, do Hospital Sírio-Libanês, também ressalta que o trabalho mostra como a prevenção é extremamente necessária e pode fazer a diferença. “Isso leva até a uma questão niilista. Se eu não consigo evitar, por que vou tomar cuidado? Mas não é bem assim, temos muitos tumores em que a influência do ambiente pesa muito no seu surgimento, como os de pulmão e o de pele. Por isso, é importante manter a prevenção primária, que são parar de fumar e o uso de filtro solar, respectivamente, além da secundária, como realizar exames que ajudem a identificar precocemente o câncer”, destaca.

Processo vital

As células humanas estão constantemente se regenerando. O corpo produz novas células bilhões de vezes ao longo da vida de uma pessoa. Cada vez que uma se divide para dar origem a outra, seu DNA é copiado e, em média, ocorrem três erros aleatórios.

Palavra de especialista
Daniel Gimenes, oncologista do Centro Paulista de Oncologia
Mais recursos

“A genética tem evoluído bastante nos últimos 20 anos, e a oncologia se desenvolveu absurdamente com esses avanços. Isso tem nos ajudado a entender o câncer e, principalmente, como ele ocorre, como visto nesse trabalho. Quando sabemos mais sobre essas mutações, além de entender como o tumor se origina, ganhamos recursos que nos permitem aprimorar diagnósticos e escolher qual o melhor tratamento. Também acredito que outros tipos de tratamento e diagnósticos podem surgir com base nos avanços da área genética”

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