Pintas são sinais clínicos que devem ser observados para não virar mal maior

Congênitos ou adquiridos, os nevos, popularmente conhecidos como pintas, podem ser sinais de doenças como o câncer de pele

por Lilian Monteiro 12/02/2014 07:45

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EM / DA Press
Saiba mais sobre as pintas e a pele. Clique para ampliar (foto: EM / DA Press)
Nevos, do latim, defeito. Ou seja, antes de achar uma pinta (nevo) charmosa, tenha bem claro que ela é um alerta sobre uma deformidade, má-formação. Apesar de a maioria ser realmente uma charme – basta pensar em Angelina Jolie, Cindy Crawford, Elizabeth Taylor, Kate Middleton, Madonna, Marilyn Monroe. Marcus Maia, coordenador do Programa Nacional de Controle do Câncer de Pele da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), avisa: “Temos chances de ter vários tipos de defeito. Um nevo de qualquer linhagem celular. A mancha vermelha no rosto, o hemangioma, é um nevo vascular e o defeito é da célula do vaso. Há defeitos de outros tipos de células, manchas de cores diferentes, mas os que mais preocupam são os nevos melanocíticos, que são as pintas escuras”.

Os nevos escuros podem ser congênitos e adquiridos. Os primeiros estão presentes ao nascer ou próximo do nascimento. “É uma fatalidade. Não é genético e, sim, um defeito intraútero. De tamanhos variáveis, podem ser pequenos, médios e grandes. O grande, como se fosse um calção de banho, é raríssimo. O médio, de 3cm a 20cm, também é considerado raro. Os pequenos são mais comuns e 5% nascem com este tipo. A maior incidência são os menores de 3cm.”

Já os nevos adquiridos aparecem durante a vida, são pequenos, as chamadas pintas comuns. E o que há de errado com elas? “Essas surgiram a partir de defeito da célula-tronco. De repente, a célula-tronco é atingida pela radiação ultravioleta solar e dá origem a pintas comuns, benignas. Mas, por circunstâncias que desconhecemos, ela pode causar a pinta maligna, o melanoma”, explica Marcus Maia, que alerta: “Quem toma sol demais pode vir a desenvolver o melanoma (câncer de pele)”.

De acordo com o dermatologista, é fundamental que todos tenham consciência de que “é marcador de risco quem tem mais de 50 pintas pelo corpo. Então, quem tem uma área toda pintada, abra o olho”. Ele acrescenta que pessoas de pele, cabelo e olhos claros estão dentro de um grupo com maior propensão a desenvolver o tumor da pele, assim como quem tem antecedentes familiares. “A pinta faz parte de um contexto maior. Quem tem mais de 100 pintas, estatisticamente tem mais chance de desenvolver câncer de pele, principalmente o melanoma. Pinta é sinal de pele fraca e sensível por tomar sol com pouca ou nenhuma proteção.”

O melanoma pode vir sozinho, do nada, ou dentro da pinta. “Por isso é importante examinar o território com o dermatologista periodicamente. Nevo é sinal de associação do melanoma.”

“Uma pessoa pode ter, em média, de 30 a 400 pintas espalhadas pelo rosto e corpo. O ideal é que pacientes com número excessivo de nevos façam visitas periódicas ao dermatologista. O médico tem experiência e mecanismos para confirmar se está tudo bem, fazendo o exame de dermatoscopia, que fotografa as pintas para fazer o acompanhamento", alerta o oncologista e diretor da Oncomed BH, Amândio Soares.

Ele explica a incidência dos casos de câncer de pele: o melanoma e o não melanoma. “O melanoma tem uma baixa incidência, cerca de três casos por 100 mil pessoas/ano, sendo mais agressivo, de crescimento rápido e com maior potencial de disseminação para outros órgãos. O não melanoma é uma doença mais comum, com cerca de 70 casos por 100 mil habitantes/ano, de lento crescimento. Apesar de muito prevalente, apresenta baixa taxa de mortalidade e menos de 4% dos pacientes vão a óbito devido a esse tipo da doença”, acrescenta Soares.

Amândio Soares compartilha uma regra – a ABCD usada para detectar sinais clínicos de uma pinta que faz mal. Então preste atenção na A (assimetria), B (borda irregular), C (cor diferente) e D (diâmetro), e se o sinal está crescendo.

LONGEVIDADE E O FILTRO SOLAR
Apesar da atenção redobrada com as peles claras, as morenas também têm de se cuidar. “A fotossensibilidade é quanto a pele aguenta de sol, se é ou não resistente. Apesar de seguir pela cor do olho, da pele, do número de pintas, é bom lembrar que a pele morena também tem riscos”, acrescenta Maia. A recomendação básica é usar filtro solar, sem que o sol seja totalmente proibido. “Ele tem três etapas. A luz, que enxergamos e não faz mal. O infravermelho, que é calor, e não é prejudicial. E o ultravioleta, que não vemos, nem sentimos, e é o grade problema. Temos de nos proteger e bloqueá-lo”, diz Marcus Maia. Sobre a sarda, ele explica que ela é a pinta que surge por queimadura de sol. “Não é nevo, é um distúrbio de pigmento em cima da queimadura solar”, mas que também requer cuidado.

De todas as informações, Maia alerta sobre a principal: “Ter pintas é sinal de risco. Procure um dermatologista. O câncer de pele aumenta no mundo todo. No Brasil, foram 182 mil casos de não melanomas em 2013, números do Inca (Instituto Nacional de Câncer), e mais 8 mil de melanomas. Números absurdos. Nos EUA, há 1,5 milhão por ano. No Brasil é 10 vezes menor.”

E será que as pessoas estão se protegendo? “Discussão atual levantada é que o aumento de casos recai sobre a longevidade de uma geração que tomou sol a vida toda e pouco se protegeu. É um dado para pesquisar. As novas gerações têm mais consciência e já não se expõem tanto.”

A luta da classe médica é pela uso do filtro solar. Há pouco tempo, a recomendação tem sido adotar protetores com filtros mais altos. A explicação, conforme Marcus, é simples: “Acaba sendo um discurso da indústria. Um filtro de 30 só será de 30, se a pessoa passar 2mg por cm2. Um adulto de 70 quilos terá de passar 40ml, ou seja, praticamente metade de um tubo do produto. E se pensar na mulher, filhos e na reaplicação a cada uma hora e meia, quanto a família vai gastar com o filtro solar? Sem falar que os produtos de maior proteção são mais caros e menores, geralmente para pequenas áreas. O que importa é que cada um precisa se cuidar. Proteção solar é um conjunto de atitudes. Não coloque toda a responsabilidade no filtro”. Tem ainda os óculos, o chapéu, o guarda-sol e até camisetas para fugir dos raios ultravioleta.

VITAMINA D

Sobre a onda de informações e conversas de botequim do aumento do uso da vitamina D pelo brasileiro (em muitos tem sido detectada a deficiência do mineral), Marcus Maia é categórico: “Absurdamente tem se questionado o uso do filtro solar como barreira para o sol, responsável pela aquisição da vitamina D pelo homem. Como o brasileiro não pratica a fotoproteção correta ou nem usa (a maioria), é impossível que alguém tenha deficiência da vitamina D devido ao uso do filtro solar. Estamos sendo acusados indevidamente. É balela e o mundo dermatológico até gostaria que fosse verdade. Só determinamos a proteção absoluta para quem é do grupo de risco, geralmente para peles claras, que precisam de cinco minutos de sol, com 15% da área corporal exposta para ganhar 1.000 unidades internacionais de vitamina D, sendo que precisa de 400. Não admitimos interferência na consciência pública no combate ao câncer de pele combatido com a prevenção primária”.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Bruno Côrtes Aragão, oncologista e diretor do Cetus Hospital Dia

O sr. poderia falar das diferenças entre câncer de pele melanoma e não melanoma?
São os dois tipos de câncer de pele. O não melanoma é o câncer mais comum e, normalmente, o grupo de risco é formado por pessoas brancas, tendo como causa principal o sol. A maioria dos casos é tratada com cirurgia e há possibilidade de cura. O risco é deixar grandes cicatrizes, geralmente, na face, pescoço ou tronco, os mais expostos, por ter tratado tardiamente. A mutilação pela retirada de lesão é menor quanto mais precoce for diagnosticada. Não precisa nascer a pinta, basta observar a pele irritada, inflamação, sangramento, lesão crescendo. Já o melanoma normalmente ocorre nas pintas da pele. Nele se usa a regra do ABCD (assimetria, borda, cor e diâmetro). Ele pode invadir outros órgãos e dar metástase. Pode surgir em lugares escuros, como as mucosas, boca, língua, olho, ânus, cérebro. É raro. O sol é um dos causadores desse tipo mais genético de tumor.

Como é a remoção das pintas?
Cirúrgica. Ela é tranquila e com anestesia local. Depois da incisão da pinta, ela é enviada para biópsia para termos o diagnóstico. Se a margem não for adequada, novo material é coletado, em uma nova intervenção.

A pessoa tem várias pintas e não sente nada, nenhum incômodo, ou não percebe alteração. Mesmo assim é preciso consultar o médico?
A orientação da American Academy of Dermatology é que o paciente faça uma visita anual ao dermatologista. Pinta todos têm e é nossa obrigação prestar atenção. Se ela é congênita ou adquirida no decorrer da vida, não importa. É preciso observar sempre. A maioria é benigna, apenas um agrupamento de melanina, mas acompanhá-la para ver se há alteração é fundamental. Digo sempre que o companheiro é o maior aliado para checar as costas um do outro. E, se possível, filmar ou fotografar para comparar a evolução das pintas. A gravidade de se expor ao sol só aumenta: a incidência dos raios ultravioleta está cada vez mais agressiva e, por isso, a proteção com filtro é inquestionável. O problema é que ele é usado de maneira errada, só uma vez por dia, e, por parte dos homens, ainda existe o tabu do ‘creminho’. Todos precisam se cuidar porque o câncer de pele não é o que mais mata, mas é o de maior incidência.”