Segundo os pesquisadores, o ácido aristolóquico (AA) presente na erva medicinal chinesa é o que desencadeia a doença nos rins e no fígado. Para chegar ao resultado divulgado nesta semana na Science Translational Medicine, eles fizeram o sequenciamento genético de pessoas com câncer e que ingeriram fitoterápicos com o composto. Os efeitos do ácido tóxico foram notados nas células, que sofreram mutações que desencadearam os tumores malignos.
“É um grande avanço na medicina, já que as mutações genéticas associadas à exposição ao ácido aristolóquico eram desconhecidas”, avalia o pesquisador Instituto de Câncer de Cingapura Bin Tean Teh. Também participaram do estudo cientistas da Universidade Johns Hopkinse, do Memorial Sloan-Kettering, ambos nos Estados Unidos, e do Memorial Chang Gung de Taiwan.
Para Teh, comprovar que o AA tem relação direta com o câncer possibilita alertar as pessoas que consomem as ervas com o composto. Normalmente, elas são ingeridas em forma de infusões. “Queremos enfatizar que o AA é proibido em vários lugares, mas, ainda assim, há pessoas que consomem produtos com o composto. Sabe-se também que, apesar da proibição, alguns dos produtos podem ser acessíveis pela internet”, afirma o especialista. No Brasil, é proibido o uso das plantas Aristolochia em cosméticos, mas não há regulamentação sobre os fitoterápicos.
Também integrante do estudo, Poon Ling Song, do Instituto de Câncer de Cingapura, acredita que o composto pode estar relacionado a outros tumores. “As contribuições do ácido aristolóquico para a insuficiência renal e o câncer foram documentadas, mas é possível que ele tenha envolvimento com outros tipos de câncer. Nossa pesquisa pode levar a uma nova onda de sistemas de detecção dos tumores baseada em DNA para monitorar exposições cancerígenas.”
Risco proeminente
Além da revelação de que o AA está envolvido com as mutações que provocam tumores, pela primeira vez, os cientistas obtiveram dados precisos sobre o efeito da substância no organismo humano. Comparado a outros agentes cancerígenos, o ácido aristolóquico é muito mais perigoso. Os tumores em pessoas expostas ao fitoterápico tinham 150 mutações por milhões de base de DNA. No caso do câncer de pele vinculado à radiação ultravioleta, cai para 111, e para oito em câncer de pulmão relacionado com o cigarro.
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Segundo o oncologista Wilson Luiz da Costa Júnior, o câncer de rim normalmente não tem um fator ambiental significativo. No caso do de fígado, o médico destaca patologias que contribuem para o problema. “A principal causa é a cirrose. A hepatite B e C também são significativas no desencadeamento da doença. O importante é fazer visitas regulares ao médico a fim de se submeter a exames que avaliem o estado de saúde.”
Chefe do Centro de Alta Complexidade em Oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Sandro José Martins enfatiza que os compostos feitos com ervas da família Aristolochia já eram considerados pela medicina como um agravante para o câncer. “Há mais de 10 anos, se sabe que o produto tem potencial maléfico à saúde. Esse novo estudo mostra dados ainda mais severos do composto AA. O uso popular com indicações para auxílio do diabetes e de dores musculares deve ser desconsiderado. Ao querer amenizar os sintomas de determinadas doenças, as pessoas acabam colocando a vida em risco.”