Editora lança pela primeira vez no Brasil a tradução de Árvore de Diana e Os trabalhos e as noites, da argentina Alejandra Pizarnik

Lançamento acontece no Sesc Palladium e terá presença da professora da UFMG Maria Esther Maciel e do tradutor Davis Diniz

por Pablo Pires Fernandes 24/08/2018 12:18

A escritora argentina Alejandra Pizarnik escreveu oito livros entre 1955 e 1971, até tirar a própria vida em 1972, aos 36 anos. Entre prosa e poesia, apenas A condessa sangrenta foi publicado no Brasil. Sua poesia, no entanto, não tinha edição em livros, lacuna que a Relicário Edições supre agora com a publicação de  Árvore de Diana e Os trabalhos e as noites, ambos com tradução de Davis Diniz.

Quinho/E.M/D.A.Press
A escritora argentina Alejandra Pizarnik se matou aos 36 anos (foto: Quinho/E.M/D.A.Press)

Autora de rara densidade, Pizarnik transita por temas às vezes árduos – a solidão, a morte, o esquecimento –, mas é capaz de criar imagens potentes e repletas de ambiguidade, cujo sentido escapa e ultrapassa a própria linguagem poética. Sem dúvida, um caso bastante particular na literatura latino-americana, ao dialogar com a tradição do modernismo, a lírica exuberante do Barroco, mas também com o surrealismo, apesar de imprimir um modo de ver absolutamente autoral, marcado pela concisão. Ou, como afirma a professora Maria Esther Maciel, “em Pizarnik, a vida, a memória, o amor, tudo está sempre por um triz”.

Na próxima semana, os dois volumes serão lançados em evento no Sesc Palladium, com a projeção do documentário Alejandra, de Virna Molina e Ernesto Ardito, e bate-papo com a professora da UFMG Maria Esther Maciel e o tradutor Davis Diniz, ambos entrevistados pelo Pensar, que também publica a apresentação da poeta Ana Martins Marques escrita para Os trabalhos e as noites.

 

ENTREVISTA/Davis Diniz, tradutor

Como foi a tradução da obra de Alejandra Pizarnik?
A primeira questão a se considerar diante de uma obra a ser traduzida é captar o ritmo e a dicção de uma poesia, coisas presentes em qualquer autor considerável. Em tudo há um padrão, que em poesia poderia ser entendido como procedimento estético autoral. É dessa definição que nasce uma obra. A tradução então precisa estar muito bem familiarizada com isso. É preciso notar as palavras recorrentes, mais que isso, o que há na escolha dos signos, também quais são as modulações, os procedimentos aliterativos etc. Enfim, construir um verdadeiro mapa verbal de uma determinada poesia. A partir daí, a questão é considerar a passagem entre a língua de partida (o original) e a língua de chegada (a tradução). No caso da Pizarnik, cuja ação poética costuma criar artefatos verbais muito precisos, espantosos por tamanha concisão, lidamos com uma tarefa (ainda que imensamente gratificante) angustiante. Uma escolha ruim, de apenas uma palavra, poderia assassinar o poema. Daí a necessidade de olhar tudo minuciosamente.

A poeta argentina ocupa uma posição bastante particular na literatura, considerando o ambiente em que vivia e a produção portenha da época. Como poderíamos situá-la no contexto da produção literária latino-americana?
É comum ouvir comentários ligeiros sobre a idiossincrasia da obra da Alejandra Pizarnik em vista da produção argentina da época e – em dimensão maior – da própria poesia latino-americana. Mas a verdade é que a ação poética pizarnikeana não se isola do seu contexto literário nem muito menos do mundo social em que se insere: antes, ela abre novas estruturas verbais e novos modos de produção poética e ficcional que evitam a alegoria – o que faz com que sua obra seja irredutível e muito potente. E o papel da tradução e da crítica literária está em escapar a reiterações do que é ordinário. O contexto da literatura argentina é talvez o mais cosmopolita da literatura latino-americana. Buenos Aires sempre foi uma espécie de “República Continental das Letras” latino-americanas. Vários escritores, de distintos países, inclusive europeus, emigraram para Buenos Aires e por muito tempo lá viveram, sendo o nicaraguense Rubén Darío o caso mais importante. O poeta revisita clássicos, mas sobretudo refunda procedimentos da poesia moderna francesa, como Baudelaire, Mallarmé, Gautier e o importantíssimo híbrido transnacional (nascido em Montevidéu e radicado em Paris) Lautréamont, cuja obra Cantos de Maldoror determinará como nenhuma outra as condições poéticas do futuro surrealismo francês. De certo modo, Pizarnik faz algo parecido no seu proceder: lê os clássicos (especialmente a poeta mexicana Sor Juana e Quevedo) e com eles dialoga em vista dos novos ganhos verbais da poesia moderna, que ela encontrará no contato muito próximo que guardaria com a literatura francesa de Rimbaud, Lautréamont, Breton, entre outros. Pizarnik buscou os limites da síntese poética, nada ou muito pouco concedendo aos exageros verbais. São essas estratégias – a tensão entre tradição e modernidade – o que faz com que Pizarnik construa um lugar de reinícios na literatura latino-americana, pondo a produção poética latino-americana no compasso da contemporaneidade, após a passagem pelo modernismo e pelas vanguardas históricas.

Como avalia a recorrência dos temas da solidão e da morte na poética de Pizarnik – sabendo, obviamente, de sua biografia?

A solidão é a predisposição e a condição para a literatura. Digo não apenas para escritores, mas, especialmente, para leitores. É possível ler um livro de modo gregário em um sarau, também entre os braços de uma pessoa em quem confiamos intimidade. Mas a relação mais sincera com o acontecimento literário, com a poesia, reivindica uma sorte de solidão essencial, que é, na verdade, comunhão por ausências. Com Pizarnik não é diferente. Mas no que diz respeito ao seu procedimento poético, a solidão é a condição do silêncio, do estudo das novas possibilidades verbais. Pizarnik escrevia em alguma página de seus prolixos diários que seria possível “morrer por abstração”. É esse o conceito de morte que deveria nos interessar na obra e na ação poética dela. Não é o mórbido, o suicida, mas a morte como espaço de abstração maior que leva da comunicação normativa da língua ao ser da linguagem. Assim, a solidão e a morte, como topoi pizarnikeanos, são deflagradores da abstração e da negatividade da linguagem. Trata-se de uma força do “não” (sílaba tão destacada na poesia dela), potência negativa por meio da qual se sobrevive à própria escassez da linguagem, lançando-se constantemente no esteio de suas possibilidades. De modo então que “solidão”, “morte” e “não” são, em Pizarnik, negatividades constituintes. Enfim, uma ética do fazer verbal que não procura repetir o já dito, o imposto.

Um dos temas centrais da obra de Pizarnik é a memória e o esquecimento. Como vê o ato de escrever – o registrar – em relação a esse tema?
Escrever, como disse, é uma tarefa precedida pela leitura. Ninguém escreve sem antes ler. O que vale dizer: ninguém se tonar escritor sem antes se tornar leitor. A leitura é a condição primeva de qualquer escrita. Daí a necessidade de esquecermos do que lemos. Escrever (gesto que talvez seja uma forma de lembrança) é então um ato em que a memória e o esquecimento são coetâneos.

Entre as muitas imagens recorrentes, chama a atenção a palavra “olhar”, que aparece com diferentes conotações nos versos da poeta. Pode-se dizer que esse olhar é a manifestação de sua singularidade, como se ela explicitasse um modo particular de ver o mundo?

É uma pergunta oportuna. De fato, o “mirar” é um tópos na poesia pizarnikeana. Ele se cristaliza muito especialmente no poema nº 23 do livro Árvore de Diana, que canta assim: “una mirada desde la alcantarilla (um espreitar a partir da sarjeta) / puede ser una visión del mundo (pode ser uma visão do mundo) / la rebelión consiste en mirar una rosa (a rebelião consiste em olhar uma rosa) / hasta pulverizarse los ojos (até pulverizar os olhos)”. Perceba que aí traduzimos a ideia de “mirar” ou “mirada” ora por espreitar, ora por olhar. A palavra “mirar” é muito comum no espanhol. Pode ser tanto um olhar interpelativo quanto um olhar contemplativo. Em português, costumamos produzir variantes conforme o caso. A tarefa do tradutor é preservar (ou transcriar) os contextos de ambas as possibilidades. No caso do poema acima, optamos pelas variantes. No primeiro momento, trata-se de um tipo de olhar que vem a ser uma “visão do mundo”. Estamos aí na espessura interpelativa do significante, percebe? Não é um olhar ingênuo; é um olhar ensaiado, por meio do qual o mundo passa a ter novos significados. Eis o princípio da poesia.

São, portanto, múltiplos olhares?
A questão do “mirar” é uma espécie de regularidade na literatura argentina. O escritor argentino Ricardo Piglia falou da “mirada estrábica” em um ensaio chamado Memoria y tradición. É analisado nesse texto a configuração de uma ideologia de formação da literatura nacional argentina a partir da apropriação da cultural ocidental. O ponto de partida é o olhar estrábico de Esteban Echeverría, escritor e fundador do romantismo argentino (vale reforçar, da literatura nacional daquele país) cujo olhar vesgo, conforme argumentava ele próprio, estava ora na Argentina, ora na Europa, fazendo do estrabismo uma condição fundamental para a estratégia de formação da literatura argentina e – por que não? – latino-americana. Ainda que Piglia não retome a Pizarnik ao longo de seu breve ensaio sobre a “mirada estrábica” na literatura argentina, cuido que a isso estaria relacionada a “mirada desde la alcantarilla” em nossa poeta, cuja “rebelião consiste em olhar uma rosa / até pulverizar os olhos”. Pulverizados os olhos contemplativos postos sobre a rosa, podemos espreitar a partir da sarjeta a grande rebelião de que consiste a poesia.

 

 

* A CERIMÔNIA

Ana Martins Marques

Promovendo uma inversão no título clássico de Hesíodo, Os trabalhos e os dias, poema épico composto entre o final do século 8 e o começo do século 7 a.C., Proust publicou, em 1896, Os prazeres e os dias, uma reunião de contos e poemas de juventude. Outra é a inversão operada no belo título deste livro de Alejandra Pizarnik, Os trabalhos e as noites.

É possível que não haja melhor título para um livro de poemas de Pizarnik, ou, talvez, para qualquer livro de poemas. Como indica o verso de Emily Dickinson, “Good morning, Midnight!”, o poeta é trabalhador da noite; seu labor é noturno, prefere o silêncio e a sombra.

Noite, silêncio, sombra são palavras-chave no vocabulário da poesia de Pizarnik. Trata-se, aliás, de um vocabulário bastante restrito; os poemas de Pizarnik giram em torno de um catálogo limitado de palavras e imagens: pássaro, cinza, pedra, noite, alba, infância, vento, chuva, sombra, silêncio, lilás… A partir de uma série reduzidíssima de elementos, Pizarnik compõe, como num jogo combinatório, seus poemas quase sempre muito breves, extremamente depurados, de uma terrível limpidez.



Alejandra Pizarnik nasceu Flora Pizarnik em 1936, em Avellaneda, cidade localizada na área metropolitana de Buenos Aires. Era filha de imigrantes russos judeus que haviam chegado à Argentina três anos antes. Seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena (que assinou como Flora Alejandra Pizarnik), foi publicado em 1955. A ele se seguiram La última inocencia, de 1956, e Las aventuras perdidas, de 1958. Em 1960, mudou-se para Paris, onde viveria durante quatro anos e onde manteve contato com escritores como Julio Cortázar e Octavio Paz, que escreveu uma introdução para seu livro seguinte, Árvore de Diana (igualmente lançado pela Relicário Edições em tradução de Davidson Diniz).

Os trabalhos e as noites foi publicado em 1965, logo após o retorno de Pizarnik à Argentina. O livro é dividido em três partes, indicadas por números romanos. Ao contrário de Árvore de Diana, em que os poemas são apenas numerados, nesse livro todos os poemas têm título.

Encontram-se aqui vários dos elementos que marcam a poética de Pizarnik: a extrema brevidade; poemas construídos em torno de um número reduzido de palavras, quase sempre “nobres”, sem concessões ao coloquialismo ou ao pop; a ausência quase total de lugares identificáveis, referências históricas ou geográficas, cenas cotidianas; a atmosfera noturna (e soturna); uma radical negatividade.

É “NO”, afinal, a palavra única, com sua única sílaba, que a “dama pequeníssima/moradora no coração de um pássaro”, no poema Relógio, sai à alba para pronunciar. NO de “Não”; NO de “Noche”. O fascínio da negatividade marca a poesia de Pizarnik, em que a morte, o silêncio, o esquecimento, a sombra estão insistentemente presentes, em que a própria ausência está presente, e deixa, tatuada, sua marca no espaço: o ar é “tatuado por um ausente”, o lugar é “de ausências”, o silêncio fala, fala como a noite, fala do que não é.

É uma poética que não recusa o sujeito, ao contrário, mas, ao mesmo tempo, mostra-o sempre cindido, deslocado, nunca coincidente consigo mesmo: “entre mim e a que me creio” (lê-se no poema Invocações deste livro); “Dei o salto de mim à alba” (lê-se no primeiro poema de Árvore de Diana). Ou ainda partindo de si mesmo, como neste poema do livro Árvore de Diana que poderia ser tomado quase como uma definição da poesia e de sua relação com o sujeito que escreve: “explicar com palavras deste mundo/que partiu de mim um barco levando-me”.

Essa espécie de despossessão do sujeito de si mesmo se traduz frequentemente numa duplicação (de que são emblema os numerosos espelhos que se encontram na poesia de Pizarnik) ou numa descoincidência entre o “eu” e seu corpo, ou o “eu” e seu nome: “Eu deixei meu corpo junto à luz” (poema 1 de Árvore de Diana).

Além do “eu”, encontramos na poesia de Pizarnik uma série de personas, figuras nas quais frequentemente se identificaram figurações da própria poeta: a viajante, a menina muda, a adormecida, a princesa na torre mais alta, a pequena morta, a pequena esquecida, a silenciosa no deserto, além de toda uma série de bonecas, manequins e náufragas... Entre essas personas está Alice, a célebre personagem de Lewis Carroll, que aparece neste livro explicitamente no poema Infância, e também se insinua em outros poemas da autora, em especial em textos de sua última fase, por exemplo nas referências a jardins e à rainha louca nos Textos de sombra, publicados postumamente.

Aliás, se a de Pizarnik é uma poética muito própria, ela não se furta, no entanto, ao diálogo com outros textos e autores, o que se revela neste livro nas muitas dedicatórias (a Eva Durrell, Cristina Campo, Antonio Porchia, Jorge Gaitán Durán, Ivonne A. Bordelois, Théodore Fraenkel…), nas epígrafes (de Quevedo e Cervantes) e em alguns títulos (além da relação com Hesíodo no poema que dá nome ao livro, o título Os passos perdidos é provavelmente uma alusão a Nadja, de André Breton, que segundo César Aira era o livro preferido da autora, a ponto de ele sugerir que toda a poesia de Pizarnik poderia ser vista como “uma Nadja em primeira pessoa, escrita por sua personagem, não pelo autor”, como afirma César Aira na biografia Alejandra Pizarnik).

Em seu livro dedicado à poeta argentina, Aira critica veementemente o uso, muito frequente na crítica, de epítetos como “a pequena náufraga” ou “a menina extraviada” para se referir à autora. Se Pizarnik não poupou metáforas autobiográficas em sua poesia, diz Aira, isso, no entanto, “não é desculpa para usá-las contra ela, sobretudo porque ao fazê-lo se está confundindo a poesia já feita e a poesia em vias de se fazer”. As figuras são para Alejandra motor para a escrita, um modo de continuar fazendo poesia; identificá-las à poeta já morta, diz Aira, impede a visão do seu processo de escrita e é um modo de reduzi-la “a uma espécie de bibelô decorativo na estante da literatura”.

Em Os trabalhos e as noites, essas figurações autobiográficas dividem a cena da escrita com um “tu” insistente a que muitos poemas do livro se dirigem. Um “tu” que parece oscilar entre alguém a quem o poema se endereçaria (frequentemente num modo amoroso, muito acentuado neste livro), o próprio enunciador, o leitor (que pela força do dêitico vem ocupar o lugar daquele a quem o poema se destina) e o próprio poema.

“Tu” é, aliás, a primeira palavra do primeiro texto do livro Poema. Um “tu” que, aqui, parece referir-se ao próprio poema (o título funcionando então como uma espécie de vocativo): “Tu fazes de minha vida/ esta cerimônia demasiado pura”. A demanda/exigência de pureza parece atravessar a escrita de Pizarnik, com seus versos concisos, rigorosos, reduzidos a uma espécie de limpidez elementar: pedras preciosas. Que aqui essa exigência, associada à vida, pareça “demasiada”, é indicativo do caráter sempre problemático da relação entre literatura e vida, o que, no caso de Pizarnik, adquire um viés trágico, se se leva em conta seu suicídio, em 1972, aos 36 anos.

A tentação biográfica em que frequentemente recaem as leituras de sua obra é compreensível: a morte está no centro da poesia de Pizarnik. “O desejo de morrer é rei”, lê-se no segundo poema deste livro, Revelações. Em Infância, “alguém entra na morte/com os olhos abertos/como Alice no país do já visto”. E em Silêncios, a morte, “sempre ao lado”, é afinal identificada à própria voz que fala no poema: “A morte sempre ao lado/Escuto seu dizer/Só me ouço”. Em Os trabalhos e as noites, no entanto, a morte divide a cena com o amor, ainda que ausente, ainda que apenas evocado ou lembrado…

Nomear o ausente parece ser a tarefa, sempre malograda, a que esta poesia se lança. Não por acaso, grande parte dos poemas gira em torno da própria linguagem, e sua contraparte, o silêncio (numa dinâmica de contrastes e inversões que também abarca outros pares na poesia de Pizarnik: memória/olvido, morte/vida, presença/ausência, liberdade/prisão, pássaro/gaiola...). O poema como cerimônia de nomeação (e como seu fracasso). Recusando a bela formulação de Breton – Les mots font l’amour (As palavras não fazem amor) –, Alejandra, que tanto bebeu do surrealismo, dirá, no poema intitulado En esta noche, en este mundo, que “las palabras/ no hacen el amor/ hacen la ausencia/ si digo agua ¿beberé?/ si digo pan ¿comeré?”.

Essa dinâmica de presença/ausência, palavra/silêncio encontra na poesia da autora, e em especial neste livro, uma imagem poderosa no repetido elemento “muro”. O muro é superfície da escrita (e do desenho, ainda que feito pelo tempo, como “a cor do tempo em um muro abandonado” no poema que encerra este livro, como as fissuras que em Quarto só formam, em uma velha parede, “rostos, esfinges/ mãos, clepsidras”...), mas também parece ser o obstáculo contra o qual a linguagem se bate (“é muro é mero muro é mudo mira morre”, lê-se no poema que toma seu título do poema anterior, A verdade desta velha parede). No poema Madrugada (para além da noite, há neste livro muitas alusões a essas horas de transição ou passagem entre o dia e a noite: a alba, o crepúsculo, a madrugada...), é o próprio apagamento do “eu” que se identifica ao apagamento da escrita, ao apagamento do poema escrito num muro:

[...]
O vento e a chuva me apagaram
como a um fogo, como a um poema
escrito num muro

Numa entrevista, o poeta norte-americano Ben Lerner afirma que o fracasso do poema em alcançar a margem direita da página é para ele uma forma quase definidora do modo como a poesia faz com que a ausência seja sentida como presença. Essa capacidade de presentificar a ausência pelo vazio da página se faz sentir radicalmente nos brevíssimos poemas de Pizarnik: a abertura de espaços em branco, a “aeração da página” (como diz Barthes do haicai), o espaçamento em torno desses poemas sempre reduzidos parece funcionar como materialização, presente, de algo ausente (desaparecido ou inexistente), que os próprios poemas se esforçam por nomear.

O que se oferece, aqui, a nós, leitores, nestas primeiras edições brasileiras da poesia de Pizarnik, é, como no poema Em teu aniversário, uma espécie de presente negativo, presente de ausências. Agora nossa solidão não está só.


*Texto de apresentação de Os trabalhos e as noites, escrito para a presente edição da Relicário Edições (2018), pela poeta Ana Martins Marques, autora de Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011) e O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015), entre outros.

Ricardo Maciel/Divulgação
Escritora Maria Esther Maciel participa de bate-papo sobre Alejandra Pizarnik (foto: Ricardo Maciel/Divulgação)


ENTREVISTA/Maria Esther Maciel, escritora e professora de literatura da Faculdade de Letras da UFMG


Como se referir ao “eu poético” de Alejandra Pizarnik?

O “eu” de Pizarnik se inscreve na ordem do paradoxo. Ele está e não está ao mesmo tempo. Quando está, afirma-se em estado de “outridade”, numa oblíqua remissão aos outros eus que o constituem. Quando não está, continua pulsando sob as palavras. Ou seja, trata-se de subjetividade que se define sobretudo pelas suas contradições e linhas de fuga. Como diz a poeta em Árvore de Diana: “eu e a que fui nos sentamos / no umbral do meu olhar”.  Há, por certo, um quê de pessoano nesses versos.

Como se apresenta a questão autobiográfica na obra poética da escitora?
Também aparece de maneira oblíqua. É uma questão que atravessa a poesia de Pizarnik, mas sem qualquer ruído ou alarde. A vida vivida é intensa nos seus livros, mas transfigurada pelas sutilezas do dizer poético. Se é possível identificar, em alguns poemas, uma pulsão de morte ou sinais de uma experiência dolorosa diante da existência, isso se dá a ver de maneira quase silenciosa. Aliás, há um grande apreço da poeta pelo silêncio. Um silêncio, paradoxalmente, febril. Tanto que, num dos poemas de Os trabalhos e as noites, lê-se: “meu silêncio de febres”. E a esse silêncio se alia também a solidão, a sensação de estar “a morte sempre ao lado”.

Como vê o diálogo da poesia dela com a história da literatura e outros autores?
Pizarnik dialogou com a modernidade literária hispano-americana e francesa, incursionando também na poesia dos românticos malditos e nas poéticas de vanguarda. Ela transitou no surrealismo de Breton, afinou-se com a poesia da argentina Olga Orozco (1920-1999) e com a do mexicano Octavio Paz. Aliás, ela considerava Orozco sua “mãe literária”, e hoje já existem vários estudos voltados para as afinidades poéticas entre elas.

É possível estabelecer uma especificidade poética na obra poética de Pizarnik?
Pizarnik criou uma obra poética singular. Mesmo tendo mantido diálogos com outros autores e vertentes poéticas, ela conseguiu imprimir em seus livros uma dicção própria, marcada sobretudo pela concisão e pela densidade. Seus poemas são breves, densos e intensos. São cheios de sombras e silêncios.  Ela se desvia, nesse sentido, da tradição lírica hispano-americana, que tende mais à expansão do que à brevidade. Com uma notável economia de palavras, Pizarnik consegue trazer à tona um turbilhão de vivências, sentimentos, sensações e pulsações.

Como analisa a constante evocação que Pizarnik faz a respeito do olhar?

Pizarnik, sem dúvida, olha a vida a partir de um ponto de vista particular. Sua ótica é a da náufraga, assolada pelo sentimento de orfandade e pela experiência da desmemória. Não à toa, “desmemória” é o título de um dos poemas de Os trabalhos e as noites, no qual a pluralidade de eus também se manifesta: “Ainda que a voz (seu esquecimento / vertendo-me náufragas que são eu) / oficia em um jardim petrificado / recordo com todas as minhas vidas / por que esqueço”.
 

 

 

POEMAS

Os trabalhos e as noites

para reconhecer na sede meu emblema
para significar o único sonho
para não sustentar-me nunca de novo no amor

eu fui toda oferenda
um puro errar
de loba no bosque
na noite dos corpos

para dizer a palavra inocente


Relógio

Dama pequeníssima
moradora no coração de um pássaro
sai a alba a pronunciar uma sílaba
        NÃO


# 20

disse que não sabe do medo da morte do amor
disse que tem medo da morte do amor
disse que o amor é morte é medo
disse que a morte é medo é amor
disse que não sabe

# 23

um espreitar a partir da sarjeta
pode ser uma visão do mundo

a rebelião consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos

 

ÁRVORE DE DIANA

De Alejandra Pizarnik
Tradução e posfácio: Davis Diniz
Apresentação de Marília Garcia
Prólogo de Octavio Paz
104 páginas
R$ 39,90

OS TRABALHOS E AS NOITES
De Alejandra Pizarnik
Tradução e posfácio: Davis Diniz
Apresentação de Ana Martins Marques
128 páginas
R$ 39,90

LANÇAMENTO
Terça-feira, 28 de agosto, às 19h, no cinema do Sesc Palladium
(Av. Augusto de Lima, 420, Centro). Exibição do documentário Alejandra, de Virna Molina e Ernesto Ardito (Argentina, 2011), seguido de bate-papo com a professora Maria Esther Maciel e o tradutor Davis Diniz.

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