Livro de Alberto Lins faz paródia dos lugares comuns dos romances de aventuras

Veneza faz a releitura de um passado extinto, que revela as chaves de sua extinção e a compara com a época atual.

por Tadeu Sarmento 27/10/2017 11:36


Utilizando a paródia, Alberto Lins Caldas faz em Veneza um tratado sobre o tempo e a melancolia diante da impossibilidade de apreendê-lo - vários autores já escreveram sobre Veneza – Goethe, Shakespeare, Henry James, Thomas Mann, Joseph Brodsky –, de modo que é difícil se debruçar sobre o mito dessa cidade italiana evitando o desgaste dos clichês. É o que consegue Alberto Lins Caldas em seu romance Veneza. Ao parodiar todos os lugares-comuns dos romances de aventuras, Lins constrói um pequeno tratado sobre o passado e suas relações com o presente e a melancolia.

Antes, a primeira lição que consta no livro é borgeana. Na introdução, alguém que se identifica como A. L. C. se dirige ao leitor para segredar que o texto que ambos têm aos olhos foi salvo do lixo do arquivo público de um Estado qualquer, o qual o narrador não quer recordar o nome. O códice fora descartado por não conter data nem assinatura de autoria, fato que não o qualificava como texto raro, tanto que A. L. C. reputa a sorte de tê-lo achado à sua mania e vício de historiador, com predileção por mexer no lixo alheio.

 

Um gesto simples e cômico, que dispara uma série de consequências complexas cujo resultado é a chegada desse texto (escrito provavelmente entre os séculos 17 ou 18) traduzido aos nossos tempos. O desejo de A. L. C. em conservar esse “rastro” produz um efeito farsesco, na medida em que quer reinserir, no presente, a lacuna de um passado que não interessa mais a ninguém. E essa superposição só pode se manifestar sob uma única forma: a paródia.

Revirar o lixo é investigar o que os homens atuais descartaram do dia que terminou e A. L. C., após recolher as sobras, mantém seu trabalho à noite. Prova disso são as manchas no original, fruto do café que pingava de seus bigodes, nas noites de muito cansaço e sono. A. L. C. é o humorista solitário que realiza sua especialidade secreta nas horas em que os bem-instalados em seu século se entregam ao sono. Só que esse século onde os normalizados se encaixam também desaparecerá, tão rápido quanto o tempo no qual o cavaleiro Pierre Bourdon (herói desse códice esquecido) viveu, sonhou e sofreu. É esse vaticínio que A. L. C. quer anunciar.

Dessa forma, a introdução aponta para o fato de que, em seu novo romance, Lins segue tratando de sua principal obsessão, tema de vários de seus poemas (coletados no A perversa migração das baleias azuis): a releitura de um passado extinto, que revela as chaves de sua extinção e a compara com a época atual.

A ação propriamente dita começa com Pierre Bourdon saltando nu pela janela para escapar de um marido ciumento, fugindo em seguida com seu criado, chamado apenas de Mouro, em um navio, rumo ao Novo Mundo. Não é por acaso que o romance começa com essa cena rocambolesca, digna das estripulias de Giacomo Casanova. Assim como o aventureiro veneziano, Bourdon é infiel a toda e qualquer reprodução da beleza, e fiel apenas à ideia platônica do belo, isto é, a uma generalidade que conteria em si todas as suas determinações. Por isso é dado à melancolia, ao tédio, ao cansaço e ao pessimismo.

Em Veneza, o presente só se constrói em uma relação atualizada com o passado. Mas Lins não é nostálgico nem se encanta com aquilo que está longe. Olha para o passado como se olhasse para o futuro, sem a distância histórica que dá à memória seu valor e sem recorrer a comparações morais que julgariam o presente à luz de uma suposta idade de ouro. Lins não se reconhece (nem à sua época) em nenhuma das pontas e esse não reconhecimento se expressa no desastre da vida nômade de Pierre Bourdon, condenado a “viver em tantas cidades e vir de tantos lugares aos quais seus contemporâneos jamais poderiam ir ou pertencer”.

Os que acreditam na ilusão do progresso tendem a representar a História em uma linha reta rumo ao paraíso ou inferno. Lins não apenas desconfia dessa ideia, mas trabalha contra ela: cada época contém seu próprio inferno e paraíso e o futuro é apenas repetição. A lição de Pierre Bourdon é esta: libertar-se do ciclo é um constante esforço individual de fuga, obviamente fadado ao fracasso.

Tadeu Sarmento é escritor,  autor de E se Deus for um de nós?.
VENEZA   
De Alberto Lins Caldas  
Penalux  
184 páginas  
R$ 40 l

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