Na véspera de completar 118 anos, Belo Horizonte guarda pouco de sua história em sua paisagem

Os escritores que viveram aqui, porém, deixaram rastros nas ruas e bairros da cidade

por Mariana Peixoto 11/12/2015 12:31

JORGE GONTIJO/EM/D.APRESS - 17/12/76
BH, 1976: Pedro Nava visita antiga casa de Carlos Drummond de Andrade, na Rua Silva Jardim, Floresta (foto: JORGE GONTIJO/EM/D.APRESS - 17/12/76)
“A casa não é mais de guarda-mor ou coronel. Não é mais o Sobrado. E já não é azul. É uma casa, entre outras.” Nos anos 1920, quando se mudou de Itabira para Belo Horizonte, Carlos Drummond de Andrade viveu na Rua Silva Jardim, na Floresta, bem ao lado da Igreja Nossa Senhora das Dores. Décadas mais tarde, no poema A casa sem raiz (que integra o terceiro volume de Boitempo, esquecer para lembrar, de 1979), ele questionou a falta de memória da cidade.

Questionamento semelhante fez outro antigo morador ilustre da Floresta, quando foi à mesma Silva Jardim. Em 1976, Pedro Nava percorreu, a convite do Estado de Minas, os lugares por onde passou na infância e juventude. Chegou ao número 107, a antiga casa do amigo Carlos. Notou que não havia mais dois telhados na residência, ainda que o portão de ferro, o mármore da escada e a grade fossem os mesmos, como mostra a foto desta página.

Passados quase 39 anos da visita de Nava, a casa da Silva Jardim não mais existe. O número 107 revela um prédio residencial como outros. Tal experiência não é exclusiva de Drummond e Nava (que na mesma visita assistiu ainda a uma casa da infância em fase de demolição). O EM levantou o endereço de 13 escritores que viveram na cidade, de gerações e grupos diferentes.

Os modernistas do Bar do Ponto e do Café Estrela; os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos), que puxavam angústia na Praça da Liberdade; as mulheres que fizeram história e contaram estórias (a poetisa Henriqueta Lisboa e as escritoras Alaíde Lisboa e Lúcia Machado de Almeida, que encantam até hoje gerações com seu A bonequinha preta e O escaravelho do diabo, respectivamente); os concretistas; os romancistas; os autores mais contemporâneos.

 

 

 

Neste caminho cheio de pedras, para citar novamente Drummond, encontra-se uma história rica que se confunde com a história da própria Belo Horizonte, que chega amanhã aos 118 anos. Que foi interpretada de várias maneiras, como apresentado no livro Uma cidade se inventa – Belo Horizonte na visão de seus escritores (editora Scriptum), lançado em setembro pelo jornalista Fabrício Marques.

Há como fazer vários percursos literários pela cidade. Viagens por meio das memórias de Pedro Nava e Cyro dos Anjos, das reflexões do clássico de formação O encontro marcado, de Fernando Sabino; nas curiosas passagens dos personagens de Roberto Drummond; na poesia de Henriqueta Lisboa e de Affonso Ávila.

Já o percurso físico é mais complicado. As residências dos anos 1930 e 1940 foram engolidas com o crescimento da região Centro-Sul (onde praticamente todos viveram) da capital. Da geração modernista, pouco existe, como comprovaram, em vida, Drummond e Nava. Uma exceção é Cyro dos Anjos, integrante que chegou mais tarde ao grupo. Ainda hoje está de pé, no coração de Lourdes, a última casa onde o autor de O amanuense Belmiro residiu com a família antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1946.

Também existe, ainda que escondida atrás de tapumes e com futuro indefinido, a casa que João Guimarães Rosa viveu na esquina das ruas Leopoldina e Congonhas. O Bairro Santo Antônio, por sinal, está assistindo aos últimos dias de uma de suas residências mais diletas. Palco de reuniões da geração da poesia concreta, a residência de Affonso Ávila e Laís Corrêa de Araújo, na Rua Cristina, foi vendida neste ano para uma construtura. Como não foi tombada, virá abaixo, dando lugar a mais um prédio. A promessa é de que uma placa lembre a residência do casal de poetas, que ali viveu de 1955 até o fim da vida.

A Savassi, com suas livrarias e comércio de rua, é outra região com lugar cativo na literatura. Tanto que um mesmo endereço reuniu dois escritores, ainda que em épocas diferentes. A estátua de Henriqueta Lisboa, no quarteirão fechado da Rua Pernambuco, está exatamente em frente ao prédio onde ela morou até a morte, em 1985. Já nos anos 1990, o mesmo apartamento foi ocupado por Bartolomeu Campos de Queirós.

A Praça da Liberdade, cenário de tantos relatos sobre BH, também entra neste percurso. Seu prédio residencial mais relevante – não apenas da região, como da própria cidade – foi obra de uma escritora. O Edifício Niemeyer foi construído por iniciativa de Antônio Joaquim e Lúcia Machado de Almeida, que, até o início dos anos 1980, quando se mudaram da cobertura, recebiam artistas e intelectuais que vinham à cidade.

A região central nas proximidades da Rua da Bahia, ponto de encontro dos escritores desde a década de 1920, continuou recebendo muitos deles anos mais tarde. Depois de viver em vários endereços de BH, Murilo Rubião voltou ao Centro para viver sua velhice. Morou no Edifício Genoveva, no Maletta, que ainda hoje exibe vigor para a literatura.

Retrocedendo muito no tempo, era no mesmo endereço que havia o Grande Hotel, inaugurado em 1897 junto com o nascimento de BH. O hotel recebeu de braços abertos a caravana paulista de Oswald e Mário de Andrade e Tarsila do Amaral, em 1924. Estes, por seu lado, souberam acolher muito bem os modernistas mineiros.

Nas páginas a seguir estão as histórias desses personagens que, a despeito da passagem do tempo (e da memória um tanto descuidada da própria cidade), continuam, a sua maneira, habitando Belo Horizonte.

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