Fausto Fawcett chega a Belo Horizonte para falar de seu livro 'Favelost'

Multiartista ainda discute tecnologia, cultura literária e a sociedade da internet

por Pablo Pires Fernandes 14/08/2015 12:00
Guanabara Tejo/Divulgação
(foto: Guanabara Tejo/Divulgação )
Som, palavra falada, audiovisual. Unindo e sobrepondo, simultaneamente, esses elementos, o escritor, compositor e performer Fausto Fawcett sobe ao palco do Sesc Palladium na próxima quinta-feira para discutir – e recitar – seu livro Favelost (the book). Como uma espécie de DJ literário, o multiartista explica que o casamento entre palavra, imagem e som remete a uma tradição cultural ancestral. “Três pistas são muito importantes para mim: a reza, as imprecações – aquelas coisas de profeta falando no deserto, coisa que a gente vê muito em mendigo – e as fábulas, a fabulação, o contar histórias.” Essas formas de oralidade, segundo ele, casam muito bem com audiovisual. Fawcett afirma que busca exprimir uma atmosfera de riff, de groove, de ritmo, de rap (no sentido de rythm and poetry) aos seus escritos literários “sem perder a qualidade literária própria do texto; ele não fica fraco, não fica menos”.

Nesse campo híbrido, Fawcett diz querer abrir um diálogo da literatura e da palavra com as duas maiores matrizes de nossa cultura: a oralidade folclórica e tradicional e o audiovisual, radiofônico, eletrônico, cinematográfico. Para ele, no Brasil, a terceira matriz – do livro, do campo literário fundador do pensamento e reflexivo por natureza – “perde de 10 a 0 para os outros dois, tanto que o grande lugar de reflexões literárias e filosóficas está na música popular”. E faz uma sarcástica metáfora: “Você fica ali entre o Câmara Cascudo e o Boni”. Referindo-se a Cérbero como o guardião da cultura literária e letrada no Brasil, Fawcett diz que o cão tricéfalo grego seria um chihuahua entre dois dobermans. ‘‘Então, o que eu tento é fazer o casamento da literatura com esses dois grandes dobermans”, explica.

O sarcasmo, aliás, é arma recorrente de Fawcett para digredir sobre as falsas pretensões humanas de se achar “o centro do universo” ou “a coisa mais incrível que já aconteceu”. “Tem que ter humildade”, afirma, dando a cara a tapa. Afinal, “não dá para levar a sério essa corja”. Mas nem só de mazelas vivem os homens. “A gente tem que levar a sério porque a vida é legal.” E ele novamente remete à mitologia – ao mito de Sísifo e à queda do Paraíso – para selar nosso destino: “A gente é condenado a achar a vida legal, somos condenados a amar, a trabalhar, ficar sonhando com o paraíso e rolar a pedra morro acima”. A observação dessa condenação inexorável e seus reflexos no dia a dia são a fonte e o alvo de seu sarcasmo, bastante explorado em seus escritos desde Santa Clara Poltergeist (1990).

Favelost (2012) traz mais uma vez as características da obra do escritor. A observação aguda da sociedade e de tipos o alimenta para seus delírios vertiginosos que misturam ação, tecnologia e reflexões – muitas delas sarcásticas – a respeito de temas dos mais variados: sexo, ilusão de felicidade, efemeridade, a cidade. “A Favelost é uma espécie de hiper Serra Pelada, onde tudo dura pouco tempo. As pessoas vão lá para consumir e para serem consumidas mesmo.”

“Digamos que eu seja um antropólogo, um etnólogo informal. Digamos que seja uma espécie de tara essa observação contínua”, define. Na busca contínua em detectar tendências, seja nas cidades, nas pessoas, na tecnologia ou em certos fatos políticos, Fawcett diz ter uma intenção especulativa “de ver até onde a minha imaginação pode ver ou pode me oferecer”. A premissa, explica, é fazer uma varredura do que está acontecendo. “E aí a gente joga numa bolsa especulativa.”

O resultado das apostas especulativas do escritor é o retrato de uma sociedade futurista, mas nem tanto. A operação feita pelo autor movimenta características do presente e radicaliza algumas delas, criando lugares híbridos entre o imaginário delirante e o dia a dia. Nesse universo fawcettiano, “houve definitivamente um atropelamento do Estado e das nações pelas empresas, que fazem negócios reais e negócios não reais”. Nesse sentido, diz que o mundo foi transformado em um cassino e que “as culturas viraram parques temáticos e, em última instância, depois das redes sociais, as pessoas viraram parques temáticos”.

Para Fawcett, a onipresença da tecnologia serve como ferramenta de dispersão dos valores tradicionais e de nivelamento cultural. “Havia o padre, havia o poeta. Agora, não. Todo mundo é assalariado (risos). Todo mundo é passível de uma humilhação, ou de uma reverência, por causa da grana”, explica. “A tecnologia é uma parceira dessa colonização, que nada mais é do que você encarar de forma cínica, ou divertida, ou niilista, ou consumista, todos os valores. A verdadeira antropofagia agora é do consumo.”

Diante do esvaziamento – ou embaralhamento, como prefere – de valores humanistas, a fugacidade das relações ou a mistura de real e imaginário na contrução de identidade são extremas. “A gente vive metade em um mundo de realidade orgânica, e metade nessa virtualidade”, constata. Fawcett aponta que a euforia com o advento da internet já passou e que algumas das consequências estão longe de ser positivas.  “Interação não é sinônimo o tempo todo de libertação, não. Interação também é sinônimo de escravidão”, afirma, rindo da própria afirmação. Para ele, a necessidade de interação cria o que chama de “midi-anfíbios”.  “É como se tudo tivesse que passar por esse crivo de fliperama. O smartphone é uma espécie de terço, você vai ali dar uma rezadinha, usar os dedinhos etc. Aquela Ave Maria de consumo e de virtualidade constante. Então, como tudo, é paradoxal, é contraditório.”



Favelost (the book)
Bate-papo com o escritor Fausto Fawcett, mediação do jornalista Kiko Ferreira e intervenções do artista digital Henrique Roscoe (1mpar).

.Próxima quinta-feira, às 19h30, no Palco Biblioteca do Sesc Palladium, Avenida Augusto de Lima, 420, Centro.

.Entrada franca. Classificação: 14 anos.

MAIS SOBRE PENSAR