Guimarães Rosa acompanhou boiadeiros pelos sertões das Gerais em expedição de 1952

Viagem do escritor foi documentada pela revista O Cruzeiro e serviu de inspiração para compor sua obra-prima

por Mariana Peixoto 10/07/2015 15:15

Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro
Entre vaqueiros, o doutor Guimarães Rosa aguarda a comida ficar pronta: feijão, arroz, farinha e carne seca, incrementada por um pouco de pimenta (foto: Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro)
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Vaqueiro Chico Moreira (foto: Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro)
Ao longo de 10 dias de maio de 1952, o escritor João Guimarães Rosa (1908-1967) percorreu, com um grupo de boiadeiros, 40 léguas (cerca de 240 quilômetros) do interior de Minas Gerais – o percurso terminou nas proximidades de Araçaí, Região Central de Minas. Na manhã do último dia da viagem, surpreendeu-se com a chegada de outros dois homens: o fotógrafo Eugenio Silva e o repórter Álvares da Silva, da revista O Cruzeiro.


A conversa, que durou algumas horas, resultou na matéria Um escritor entre seus personagens, publicada em 21 de junho daquele ano. As fotos de Eugenio Silva, que recheiam as seis páginas da matéria, correram mundo e são reproduzidas até hoje, 63 anos após a jornada. O acervo d’O Cruzeiro pertence ao Estado de Minas. Entre as imagens que ilustram esta página, algumas são raras, não chegaram a ser utilizadas pela própria revista.


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Tropeiro Sebastião de Morais (foto: Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro)
Aqueles poucos dias marcaram definitivamente não só a obra de Guimarães Rosa, mas a literatura brasileira. Quatro anos mais tarde, ele publicaria o clássico dos clássicos, o romance Grande sertão: Veredas (a primeira edição é de maio de 1956). “Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte”, escreveu Rosa na página inicial de Grande sertão.


“Grande sertão é de forma muito complexa e difícil, um modelo de romance”, afirma Walnice Nogueira Galvão, professora emérita de teoria literária e literatura comparada da Universidade de São Paulo (USP), estudiosa da obra de Guimarães Rosa (a quem já dedicou seis livros) e Euclides da Cunha.


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Vaqueiro Zito (foto: Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro)
Comparando “seus dois autores”, ela comenta que Rosa sai ganhando na comparação com Cunha. “A obra dele é inesgotável. Os sertões é menos lido, por causa do tamanho e da dificuldade. Euclides da Cunha é mais rebuscado. Já Guimarães Rosa é mais próximo, tem histórias notáveis e é um grande fabulador.”


Walnice Nogueira Galvão é uma exceção quanto à primeira recepção frente à obra maior de Rosa. “A primeira página que li (de Grande sertão) quase me fez cair de costas de alegria”, afirma ela, que utiliza uma metáfora curiosa para falar sobre a obra e o escritor. “Guimarães Rosa é parecido com uísque. É um gosto adquirido. As pessoas têm dificuldade com o emaranhado de palavras. Mas assim como o uísque, têm que insistir até gostar.”


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Vaqueiro Manuelzão (foto: Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro)
O contato do escritor com os boiadeiros na expedição de 1952 – inspiração não só para Grande sertão, mas para as novelas de Corpo de baile, de janeiro de 1956, onde Manuelzão tornou-se personagem –, na opinião da estudiosa, seriam uma necessidade do autor “para dar origem à fabulação extraordinária. Ele tinha uma imaginação prodigiosa, não é comum uma pessoa ter tantos enredos na cabeça, mas tenho a impressão de que precisava também do contato com o real.”


Na expedição retratada por Eugenio Silva, foram vários os caderninhos (sempre com um barbante com um lápis amarrado) que o escritor preencheu com as falas dos boiadeiros, os nomes das plantas, dos pássaros, as cores de pelagem do gado. “Havia a escuta documental, registrada nos cadernos, e a interpretativa, que ajudou a compor os enredos”, diz ela.


Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro
Vaqueiro-mestre Santana (foto: Eugênio Silva/EM/O Cruzeiro)
Walnice Nogueira Galvão acredita que um ponto fraco sobre Guimarães Rosa é a própria biografia do escritor. “Não há quase nada. Sempre houve obstáculos para lidar com a documentação da vida dele”, acrescenta. O que se sabe é que, para o grupo que acompanhou Rosa naqueles 10 dias, o convívio foi fácil. Eram sete horas diárias de cavalgada e um cardápio tropeiro que praticamente não mudou desde então: feijão, farinha, arroz e carne seca. Quando o vaqueiro/escritor ganhou uma garrafa de pimenta, considerou “um dom de Deus para temperar o eterno menu”.


E a despeito da presença do escritor, que morava no Rio de Janeiro, em meio aos boiadeiros das gerais, quem brilhou mesmo foi o “guieiro” Zito, que também fazia as vezes de cozinheiro e poeta. Ao final da expedição, escreveu os versos do que chamou Descrição dos vaqueiro das Jeraes: “O Doutor saiu do Rio/Com prazer e alegria/Para acopar uma boiada/Para ver o que acotecia/Na boiada do Manuelzão/Vinha Dr. João Rosa/Derobando boi zebu/Tava todo cheio de prosa”.

 



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