Fernando Brant exercitou sua verve literária no Estado de Minas; relembre textos

Nas páginas do EM Cultura, escritor, compositor cofundador do Clube da Esquina divagou sobre os amigos, família, música e o cotidiano de BH

por Estado de Minas 20/06/2015 07:00

Arquivo EM
Jovem repórter da revista 'O Cruzeiro', Fernando Brant soube ver poesia em fatos banais do cotidiano (foto: Arquivo EM)
De 2001 a 2014, Fernando Brant escreveu crônicas para o caderno EM Cultura, do Estado de Minas. O sócio-fundador do Clube da Esquina, que morreu no dia 12, gostava de falar da vida, dos amigos, da família, de música e de fatos corriqueiros de seu dia a dia em BH. “Avô desengonçado”, encantava-se com os netos. Tratava os cachorros de casa como seres humanos. E filosofava: “A presença dos vivos e dos que se foram é muito forte e o simples parar de respirar, o sopro que se vai não faz com que desapareçam. Na memória eles permanecem”.

Repórter da delicadeza do mundo, Brant, que trabalhou como jornalista na sucursal mineira da revista O Cruzeiro, nos anos 1960, era também apaixonado pela política. Garoto, chorou quando João Goulart foi deposto pelo golpe civil-militar em 1964, lutou pelas Diretas-já, apoiou a cruzada de Tancredo Neves e criticou duramente homens públicos e cidadãos, que, em sua opinião, não honraram a democracia tão duramente reconquistada. Nesta edição, o Pensar publica algumas das crônicas do autor de 'Travessia'.

 

 

 


''Os meninos crescem e o amor segue seus passos. A cada dia uma novidade. Aquele finge que não sabe falar, mas entende tudo e, por conforto, prefere esperar que os adultos lhe mostrem os objetos. Mão estendida, sem essa canseira de gastar palavras, o que ele terá de fazer por toda a sua vida a partir do momento em que for descoberta a sua esperteza. O fascinante, para esse avô desengonçado, é perceber a noção de ritmo que ele tem. A música o conduz a sorrisos, palmas e pés que batem no chão. A imitação do gestual dos pais revela inteligência e criatividade. Meus olhos brilham na contemplação da cena.

Ela continua me deslumbrando pela alegria, carinho e inventividade. É tão bom saber que sou amado por pessoa tão pura. No telefone, “ ei, vô”, eu me desmancho. Mas ao vivo é uma festa que não tem tamanho, um renovar de energia, uma vontade cada vez maior de ter saúde e viver muito. No tempo das filhas, eu vivia também de boca aberta de deslumbramento. Mas ter direito a essa segunda chance é algo que me dá um contentamento difícil de narrar. Fui contemplado pela felicidade, eu penso.

Assisti hoje, com eles, à versão original de Peter Pan. Eu viajei horrores revendo minha experiência de menino, aqueles músicas, aquele desenho, aquele voo à Terra do Nunca que, para mim, é a terra do sempre. Nenhuma nostalgia de minha infância, apenas a constatação de que, quando a tive, aproveitei às pampas.

Na imaginação e na folia das brincadeiras de rua com os parceiros da mesma idade. Quem não foi Peter Pan, quem não combateu o Capitão Gancho, quem não gargalhou com o crocodilo que engoliu o braço e o despertador, e se encantou com as sereias? Naquele tempo em que o erotismo começava a despontar no corpo dos meninos.

Mas agora não sou eu o cowboy. Eles é que são, os meus pequenos e amorosos companheiros de filme. Ela é calma e assiste a tudo com atenção e risos. Ele tem mil interesses. Quando se fixa na tela da televisão, ri e pula, sempre no ritmo das canções. A visão dessas vidas sem maldade, abertas ao afeto, me ensina muito. No meu convívio com o mundo, com os obstáculos que dificultam nosso caminho, encarceram nossas aspirações de liberdade e justiça, eu sinto que é possível não usar máscaras, mentir, ser falso.

A desilusão com as promessas ideológicas, políticas e econômicas é um fato que nenhuma campanha de marketing vai solucionar. É desolador assistir às atitudes dos que chegam ao poder, ilusório, e se dizem donos da verdade.

Não há verdade única, nem absoluta. E o poder não tem o poder de esconder eternamente a verdade, escrevi um dia para um cartaz que retratava Galileu.

Eu, porém, me mantenho em pé e teimosamente esperançoso ao conviver com os meus menino.''

 



''Vinte anos de idade, meio confuso diante do que estava acontecendo nos últimos dias, eu fora poucas vezes ao Rio de Janeiro. O desconhecido, as pessoas, o mar, a cidade enorme me assustavam. Estava hospedado num hotel na Avenida Atlântica, juntamente com os artistas que participavam do 2º Festival Internacional da Canção, em terras cariocas. A cada dia eu conhecia mais pessoas que admirava. Dividia um apartamento com o cantor Agostinho dos Santos, voz e talento inesquecíveis, um dos que me ajudaram a pôr o pé na profissão.

Nas noites anteriores saíra com meu amigo Milton Nascimento, que ia me apresentando ao mundo musical da Guanabara. Conheci mestres e futuros mestres da canção brasileira. Fiz amizades que perduram até hoje e me dão orgulho, alegria. Música e poesia passavam a ser minha linha do horizonte, meu campo de pouso e decolagem, meu trabalho feliz.

Estávamos, em uma manhã daquelas, sentados à beira-mar, os olhos se deliciando com o marzão besta à frente, a brisa acariciando nossas peles que o sol fustigava. Eu e meu parceiro, junto com alguns amigos novos. Um desses me apresentou a primeira interpretação de minha primeira, e única até então, letra para melodia, que fora selecionada entre milhares para a competição. Era uma charge e nela se via um avião cruzando o céu por cima de uma rodovia e, saltando de pára-quedas, uma dezenas de velhinhas.

A legenda: solto avós nas estradas. Uma boa gozação que recebi com satisfação. Estavam me levando a sério. Melhor do que a pergunta que ouvi de vários jornalistas, durante um coquetel no Copacabana Palace – que chique eu, hein?. Todos queriam saber o que eu queria dizer com a minha letra. Tímido, mas estranhando aquele tipo de questão, eu respondia declamando as palavras que iniciavam nossa canção: “Quando você foi embora fez-se noite em meu viver.” Para mim estava claríssimo. Só muito mais tarde eu me acostumei com os repórteres e suas inusitadas indagações.

Naquela manhã nas areias de Copacabana éramos jovens felizes vivendo o mundo da música. Uma melodia, tocando num radinho ao lado, atraiu a nossa atenção: era Cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, cantada por Elis Regina. Depois de ouvi-la, Milton se virou para mim e disse: “Ainda bem que ela está concorrendo lá em São Paulo”. O fato é que existia muita música boa no festival, mas, no do Rio, a qualidade de cobras musicais novas e antigas não era brincadeira.

Enquanto na pauliceia o concurso envolveu, além do artístico, muita questão de política e de costumes, a terra de São Sebastião assistiu ao aparecimento de uma explosão de harmonia, ritmo, melodia e voz que mudaria o rumo da música popular brasileira que viria a seguir. Milton Nascimento foi essa revolução.''




''Meus pais me olham através do retrato. Sinto a presença deles. É para isso que pomos as fotografias das pessoas que gostamos na parede. Para que em dado momento do dia, em hora que estamos à procura de algo, nos deparemos com olhares que sempre nos acompanharam e que não estão mais ao nosso alcance.

Mas a memória fortalece a visão das imagens de amigos e parentes que passaram por nossa existência. Aquelas conversas e as peladas com o Gonzaguinha, cada um de nós mostrando a sua mais nova canção. Os almoços festivos com o Veveco, cozinheiro maior do nosso mundo particular, a voz da Elis ao telefone.

O amigo me fala dos diálogos com sua mulher, física, que sugere que a medicina está se modificando, seus conceitos cada vez mais influenciados pela física e pela química. A ciência não para de fazer perguntas e buscar respostas para o universo e a vida. São estudos e pesquisas que visam nos explicar e conhecer essa máquina maravilhosa que somos, os humanos.

Os cientistas não param de avançar, e foi assim sempre. A cada descoberta, no entanto, correm o risco de se sentir deuses, donos da verdade absoluta. Mas se trata aqui de algo muito complexo que, sozinhas, nem a crença nem a ciência conseguem solucionar. Somos todos de barro e o nosso andor também.

O corpo humano está aí à disposição para ser desvendado pelas novas tecnologias. Exames clínicos e aparelhagem moderna enxergam como os nossos órgãos e esqueleto funcionam e os profissionais da medicina, sem deixar de lado a experiência e o saber empírico, estão em melhores condições, hoje, de avaliar a nossa saúde.

Mas daí a concluir que somente fenômenos físicos e químicos são capazes de nos compreender em nossa totalidade vai uma boa distância e aqui eu me armo de desconfianças, pois somos mais complicados do que fórmulas científicas.

Poesia, amor, música, criação, pensamento, sentimentos e afetos são uma enormidade de beleza que não cabem em manuais. O que ocorre com a humanidade enquanto fazemos, enquanto estamos e ainda não somos, é um mistério que filosofia, religião e ciência tentam revelar, mas a tarefa é gigantesca. Cada conhecimento é um buraco novo de ignorância que a vida nos impõe.

A presença dos vivos e dos que se foram é muito forte e o simples parar de respirar, o sopro que se vai não faz com que desapareçam. Na memória eles permanecem.

Minha Clara fez um desenho com uma casa, uma outra, pequena, um cachorro e um coração. Dedicou-nos com as seguintes palavras: “Para o vovô e a vovó se lembrarem do Miró”. Isso vale um milhão de tratados.''




''Eu me lembro da primeira vez que o vi. Pequeno, pretinho, no colo dos meus filhos, que tinham ido nos buscar no aeroporto da Pampulha. Vínhamos de uma viagem para fora do Brasil e trazíamos forte, ainda, a dor da perda do Otto, basset-round que nos dera tanta alegria.

A intenção era nos reanimar no dia a dia, na rotina doméstica. Muito antes de crescer, já nos conquistara.

Nunca abriguei em minha casa nenhuma fera. Desde que minhas meninas eram crianças, nossas escolhas eram sempre por animais dóceis, brincalhões, educativos para a meninada. O primeiro que tivemos nos domínios da Cachoeirinha foi o Obelix, beagle inesquecível.

Quando eu era o menino, tivemos vários companheiros, todos vira-latas e amantíssimos, que pareciam viver mais do que os de raça mais pura, que só conhecei ao me tornar pai. Dianas, Suzetes e outros preencheram de alegria a minha meninice. Mas também eles tinham seu dia final, seja por atropelamento ou doença. Guardo na memória o ensinamento do primeiro veterinário que conheci, o Forondo, médico do Obelix: você adquiriu o melhor presente para as suas crianças. O tempo demonstrou que ele estava certo.

Desde a sexta-feira antes do carnaval, no entanto, uma solidão tomou conta dos dias e da casa, dos espaços onde convivíamos com o Miró, belo labrador preto de andar elegante e atitudes sóbrias. Latia para os de fora, para os ruídos da rua, para as campainhas. Protetor da família, era incapaz de ladrar quando havia crianças por perto. Se acercava, admirava e ficava quieto. E os amigos que nos visitavam também eram acolhidos com o sorriso do abanar do rabo.

A sentença de sua morte já estava decretada, mas sempre ficava uma esperança com os curativos que lhe eram feitos ao longo de meses. Ele passou a chorar pelas noites, de dor. Analgésicos o acalmavam, mas eram paliativos. Eu me encarreguei, enquanto a maioria do pessoal viajava para os feriados, de levá-lo à consulta definitiva. Não havia opção. Voltei para casa com a mesma sensação de amargura dos outros momentos semelhantes que vivi.

Não adiantou esconder sua morada, nem seus pratos de comer e beber. O território nosso era dele e por todos os lados que vou sinto sua presença negra. Seus sons se ouvem no dia e me acordam na noite. Chego da rua, abro o portão e cadê ele vindo em minha direção para me receber? Silêncio que dói.

Sinto-me incapaz de começar tudo de novo com um novo amigo. Um vazio enorme tomou conta do casal desde os dias da folia e do samba. Miró faz uma falta imensa como os outros fizeram. Mas o sofrer presente é dele. Por ele eu me entrego ao sentimento da dor e da saudade.''

 


''Gosto de ler dicionários, e em especial um, o etimológico de nomes, de Antenor Nascentes. Ele me ajuda muito. Não sou muito chegado a crendices horoscópicas e afins, mas isso nada tem a ver com minhas observações. As palavras vieram depois das coisas, um modo eficaz que os humanos inventaram de designar o que conheciam e se comunicar, os vocábulos significando, na origem, exatamente o que eram.

Por exemplo. Itaorna, do tupi-guarani, quer dizer pedra que se esfarela, e o governo dos tempos militares ignorou esse saber e construiu, em Angra dos Reis, nossas usinas nucleares. E as pedras são realmente podres.

Assim, os nomes das pessoas têm significado, o que não quer dizer que a pessoa que resultar da denominação vai corresponder à previsão dos pais.

Não parece ser o caso do meu personagem de hoje que, vivo, estaria fazendo 100 anos. O sentido de seu nome, Tancredo, é “conselheiro com reflexão”.

E há uma possibilidade de ser “conselheiro agradecido”. Pensa, aconselha e ainda fica agradecido. Combina com o que ele foi. Nestes tempos em que política, em todo o mundo, passa por um descrédito justificável, tais os absurdos cometidos contra a democracia pelos que deveriam representá-la e defendê-la, sinto-me bem em me lembrar de um mineiro e brasileiro que foi exemplo de vida e atitudes diferentes do que estamos acostumados nos dias de hoje.

Adolescente, ouvi pelo rádio e li nos jornais as notícias do golpe militar, muito apoiado por gente que andava pela mesma cidade que eu. Chorei, menino, com o golpe que, nem imaginava, bloquearia nossas vidas por mais de 20 anos. Passei minha juventude e muito tempo de minha adultância em meio a uma ditadura. Vivi, estudei, virei compositor, marido e pai naquele ambiente opressivo. Consegui construir uma existência pessoal digna e boa, mas o ar das ruas era irrespirável.

Vi, vimos, em 1982, depois de um longo e sofrido caminhar, que era possível chegar à democracia. A candidatura de Tancredo Neves ao Palácio da Liberdade, naquele ano, era a porta que se abria para o fim do autoritarismo. O governo de Minas, estava escrito com todas as letras para nós poetas e sonhadores, era o passo certo para a rampa do Planalto Central e a volta dos brasileiros livres ao poder. Abracei, abraçamos, aquela causa com todas as nossas forças.

E estávamos certos.

Cantamos em praça pública, e Belo Horizonte nunca vira nada parecido, para uma multidão de mineiros ávidos de música, beleza e liberdade.

“Mineiros: o primeiro nome de Minas é liberdade”, ouço até hoje. Por ter sofrido o pior e participado discretamente da construção da solução, abro meus braços e meu pensamento para Tancredo Neves, conselheiro que pensava e que ajudou os brasileiros a acreditarem que a democracia era possível.

Continuo acreditando, mas prestando muita atenção no que se passa.''



''Máscara é um disfarce. Um jeito de esconder, velar a verdade, desinformar.

Na infância, encantava-me com o Zorro e o Batman, heróis das histórias em quadrinhos e dos filmes em série do cinema. Cobrindo os rostos, as máscaras ocultavam os mocinhos, que, sem usá-las, seriam descobertos em seu dia a dia e impedidos de praticar o bem, fazer justiça contra os malfeitores, os que oprimiam o povo.

Nas tragédias e comédias gregas, as máscaras eram indispensáveis. No latim, persona, personagem, figura, papel. Vem daí o título do belíssimo filme de Ingmar Bergman, aqueles rostos de pessoas sofridas presentes até hoje em minha memória.

Existem aqueles que chamamos mascarados, os convencidos, vaidosos, presunçosos, os que se julgam ser melhores do que são, os que pensam ter o rei na barriga. Mas a boa máscara é a dos carnavais, da folia. Houve o tempo dos confetes, serpentinas e lança-perfume. Aquela moça com a face escondida gritando no meio do salão arrepiava os corações adolescentes. Nas rua havia toda espécie de fantasia e o grupo de gatinhas podia ser só de mulheres ou trazer alguns machos escondidos.

Máscara negra, de Zé Keti e Pereira Matos, é o símbolo eterno em canção popular do mistério que havia na imaginação de quem brincava no carnaval e se deparava com o segredo do rosto feminino que só revelava os olhos. Isso vale, certamente, para as moças que sonhavam príncipes por detrás do pequeno pano que encobria a identidade do objeto de desejo e admiração.

Nem é carnaval e as máscaras e os mascarados voltaram às nossas cidades. Nada que lembre os heróis dos quadrinhos ou do cinema. Muito menos o teatro grego.

Muito longe dos bons tempos da alegria de Momo. Não vieram festejar, querem destruir. Dizem que são anarquistas e anticapitalistas. Não são. Fazem o mesmo que grupos nazistas praticaram há poucos anos na Alemanha e outros países europeus. Não passam de fascistas, que não respeitam o direito dos cidadãos e a democracia. Abusam da omissão dos que deveriam defender o direito de ir e vir das pessoas. Nenhuma reivindicação inteligível, só caos e violência.

Pessoas iguais a eles, seus irmãos em ódio, acabaram com o “Ocupem Wall Street”.

Os brasileiros saíram às ruas de suas cidades, em junho, para dar um basta à corrupção, à incompetência e dizer que o povo não está representado pela maioria dos que ocupam os cargos públicos. Todo mundo que viu guarda as imagens belíssimas dos cidadãos assumindo o que lhes pertence. Exigindo melhor educação, saúde, transporte, segurança e respeito. Os do poder não entenderam nada. Aí vieram os mascarados fascistas para acabar com a festa das multidões.

Quem estará por trás disso?''



''Era semana santa. Estava em Diamantina, depois de alguns anos de ausência. As mesmas pedras capistranas em que eu corria atrás de bola até meus 9 anos estavam lá. As mesmas igrejas, a mesma paisagem, o mesmo povo simples.

Diferente era, bares abertos na sexta-feira, o bispo dom Sigaud abençoando (será?) os frequentadores dos botequins. Eu tinha nas mãos uma inofensiva Coca-Cola, mas também fui atingido pelos gestos episcopais.

Meu irmão, estudante com índole de líder, agitava o seminário religioso com discurso inflamado contra o golpe que se anunciava.

Eu acompanhava os fatos nacionais e tinha uma impressão positiva da ação e das falas do gaúcho João Goulart. Sabia das prometidas reformas de base, que dividiam o país. Era um assunto essencial nos intervalos das aulas do Colégio Estadual. Lia os jornais de casa e assistira pela tevê ao comício do dia 13 de março, no Rio de Janeiro, quando uma multidão aplaudiu os oradores, que defendiam as mudanças a serem feitas na estrutura do Brasil.

Já simpatizara, antes, com o jingle cantado por Jorge Goulart na eleição de 1960. “Na hora de votar eu vou jangar, eu vou jangar, é o Jango, é o Jango, é o Jango Goulart.” Quando houve o plebiscito para se restabelecer o presidencialismo eu também me entusiasmei, mesmo não tendo ainda o direito de votar (sem saber, naquele tempo, que só participaria de eleições nacionais quase 30 anos mais tarde). Torci e cantei: “Eu vou fazer um xis no quadrinho ao lado da palavra não, parlamentarismo não, o povo tem razão, eu vou fazer um não”. Em outras circunstâncias, outra realidade e mais conhecimento, eu iria votar no parlamentarismo já em tempos de democracia reconquistada.

Agora que o restos mortais de João Goulart chegam a Brasília, 37 anos após sua suspeita morte no exílio, e que seu papel em nossa história é oficialmente reconhecido, eu me lembro de um texto que escrevi para o filme Jango, de meu amigo Sílvio Tendler.

Sinto que vale a pena recordar.

'Os acontecimentos daqueles dias ainda estão claros na memória: fechado no escuro do quarto querendo fugir do mundo que me chegava pelo rádio, eu, pouco mais que um menino, chorava como se fosse morte, a viagem-fuga do presidente Jango. Os anos passados, a maturidade e a visão diária da injustiça e do ódio, da opressão e do medo vieram confirmar meus sentimentos. Em nome da verdade e da história eu, adulto, reafirmo o menino: as lágrimas derramadas em 1964 continuam justas.' ''



''Um rio ou um oceano de povo passou na vida do país e eles não perceberam o que se passou, o recado dado, o que está se passando.

Continuaram a voar desavergonhadamente nos aviões da FAB, senhores do “pudê”, capazes de tudo para manter o povo nordestino na miséria e eles no bem- bom. Votaram no mês de junho, como se tivessem ouvido as vozes das ruas, os maiores absurdos legislativos de que se tem notícia.

Se alguém passasse, naqueles dias, pelas galerias do Congresso e gritasse “viva a ditadura”, eles a teriam decretado. Pobre gente que age por interesse privado e vota como manada. Como se explica, por exemplo, um partido que se diz liberal aprovar a intervenção estatal em direito privado? Até isso se viu na casa que deveria representar os vários segmentos dos brasileiros.

Na noite de uma segunda-feira moderadamente fria, assisto, no programa Roda viva, aos atletas Ana Moser, do vôlei, e Raí, do futebol. Falam em nome de uma centena de atletas admiráveis que assinaram um manifesto em favor de uma política pública para o esporte. Dizem que o esporte, espalhado pelas escolas, bairros e cidades do país, pode salvar os jovens e também o Brasil. Eles já conquistaram no campo esportivo medalhas e campeonatos que nos orgulham. Poderiam descansar e cuidar de sua vida pessoal, mas, como disse Ana Moser, citando um outro atleta aposentado que não ouvi bem qual era: “Quem veste a camisa brasileira não a desveste jamais”.

Fico sabendo, então, que eles tentam uma audiência com a Presidência da República há sete anos. Sem sucesso. Não querem nada para eles, e sim oferecer um plano que proporcione o verdadeiro legado para o Brasil, no momento em que se prepara a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Não propõem nada que tenha a ver com os bilionários interesses que movem o esporte dos grandes eventos. Sete anos pastoreiam para alcançar seus objetivos justos. Precisarão servir mais sete?

Parece que sim. Pois imaginem que marcaram audiência com o ministro dos Esportes. E de quê cuida esse ministério? Marcada a audiência, uma comitiva foi a Brasília para ofertar sua ideia generosa. Não foram recebidos pelo ministro, que, em cima da hora, anunciou que tinha outro compromisso. Vergonha e desrespeito, ministério inútil e incompetente. Na certa, ele foi cuidar da política menor, ou conversar com o Blatter, os grandes patrocinadores ou os novos Havelanges.

Realmente, eles não nos representam. Enquanto se esbaldam com o dinheiro que deles não é, enquanto cinicamente continuam a se comportar imoralmente, uma senhora passa horas na fila de renovação de carteira de trânsito em Brasília, cumprindo um dever básico. A cidadã, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, é exemplo e um tapa na cara dessas pessoas. O Brasil tem jeito.''




''Nessa eu embarco com força, vontade e apetite. Não confundir com o que ocorreu na Nicarágua há alguns anos, tempos quentes da guerra fria. Estou me referindo à sardinha, o peixe mais democrático e barato que existe. E o melhor, na minha opinião. Lembro-me das sextas-feiras de minha infância, dia de feira livre no meio da rua perto de casa. Eu era fascinado também com as mexericas, as ameixas, maçãzinhas, peras nacionais e marmelo. Vem desse tempo, talvez, meu namoro com as bananas, principalmente a prata.

Mas o dia era delas. Na hora do almoço, limpas, as sardinhas eram cobertas com farinha ou fubá e fritas aos montes. Inesquecíveis almoços sardinianos, que repito até os dias atuais da maturidade. Gosto muito de peixe, seja de mar ou de rio, mas igual a elas não há.

Hoje, quando me delicio com os quilos que compro, chamo amigos e abasteço a geladeira de cervejas. O líquido faz a vez do arroz, providencio uma salada de verduras cruas e me entrego a elas por todo o começo da tarde. Amigos, sardinha e cerveja são uma mistura que só traz felicidade.

Lembrei-me disso ao ler sobre um movimento mundial de valorização do pequeno peixe miraculoso. Campeão para a saúde e o paladar. Há uma onda de prestígio desse pescado, que parece não interessar ao nosso Ministério, veja, só, da Pesca. Não custaria nada, e seria bom para os brasileiros, que se fizessem campanhas de incentivo ao consumo de sardinhas. Alimento que existe por muitos mares, em grande quantidade e que, pelo baixo preço, todos podem comer. Sardinha: fome zero e sabor mil.

E a revolução espalha o valor e a qualidade dessa joia dos mares, que pode ser frita, cozida ou assada. E estão aprimorando, oh! maravilha, a maneira de as conservar e embalar. Nos momentos de aperto, banana e sardinha em lata são imbatíveis.

De falar nelas, chega-me o cheiro maravilhoso que se sente ao se caminhar pelas ruas da Alfama, em Lisboa. Ou por todos os cantos da cidade se é dia de Santo Antônio. Ou na Praça da Sardinha, no Centro do Rio de Janeiro.
Pescador de lambaris, outro acompanhante inseparável das cervejas e dos vinhos, me filio com orgulho e ardor a essa revolução meritória que, aos poucos, vai se espalhando pelo mundo e conquistando os sentidos. Quem for da sardinha que me acompanhe. Sardinheiros do mundo, uni-vos.

Eu, que não sou maria vai com as outras, procuro afinar meu gosto e meu pensamento, no mínimo para justificar o esforço de meus pais em me educar. Por isso tenho pouca disposição de seguir a boiada, aceitar a impostura, a falsidade ou seguir o rumo imposto pela publicidade, o marketing e a cultura de massa. Mas quando se trata de sardinha, eu sou é do popular.''

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