A turista APRENDIZ

Uma das convidadas da Flip, Beatriz Sarlo vai falar sobre Mário de Andrade e o impacto das ideias das vanguardas latino-americanas no século 20

por 20/06/2015 00:13
Leandro Couri/EM/D.A Press %u2013 21/9/13
Leandro Couri/EM/D.A Press %u2013 21/9/13 (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press %u2013 21/9/13 )
Nahima Maciel



A argentina Beatriz Sarlo conheceu Mário de Andrade um pouco tarde. Foi no início dos anos 1980, durante uma viagem a Campinas (SP). Antes de chegar a Mário, ela se deparou com Antonio Candido. “Ele me produziu um impacto intelectual enorme”, lembra. O motivo da visita era uma reunião na Universidade de Campinas, da qual participaram alguns discípulos de Candido, como Jorge Schwartz, então um fervoroso estudioso do modernismo brasileiro e da produção da década de 1920.

“Creio que foram os trabalhos de Jorge que, em primeiro lugar, me levaram a essas outras vanguardas tão diferentes das argentinas”, conta Sarlo, que desembarca no Brasil no início de julho para duas conferências na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), com a missão de falar sobre Mário de Andrade, o homenageado, e a respeito das vanguardas latino-americanas do início do século 20.

Na mesma reunião, em Campinas, estava Roberto Schwarz, que insistiu em levar Sarlo para São Paulo. Começou ali a aproximação de um dos mais renomados nomes da crítica literária latino-americana com a literatura brasileira. “Rapidamente, percebi a diferença em relação às vanguardas argentinas da mesma época: o caráter pulsional e a fusão que descobri em Mário de Andrade, sua sensibilidade mais exploratória e disruptiva”, recorda Sarlo, em entrevista de Buenos Aires, onde mora.
Professora de literatura argentina na Universidade de Buenos Aires durante mais de duas décadas e uma das fundadoras da revista Punto de vista, referência do pensamento crítico argentino e nascida clandestinamente da resistência contra a ditadura, Beatriz Sarlo é uma mistura de crítica literária e crítica cultural. Seus livros transitam em várias searas.

Arte, política, feminismo, história e até os meios de comunicação já passaram pelo seu crivo em Tempo passado, A paixão e a exceção e Modernidade periférica: Buenos Aires. Em A cidade vista – Mercadorias e cultura urbana, publicado em 2014, Sarlo parte de uma verdadeira antropologia cultural para falar de Buenos Aires e suas transformações nas últimas décadas, resultado das mudanças que assolaram a própria Argentina.

Os deslocamentos também têm preocupado a crítica, que assume ares de cronista autobiográfica em Viagens: da Amazônia às Malvinas, coletânea de relatos que vão de tribos indígenas na floresta do extremo norte ao modernismo de Brasília. O tema motivou o curador da Flip, Paulo Werneck, a montar a mesa Turistas aprendizes, que Sarlo divide com Alexandra Lucas Coelho. A proposta é que, ao se debruçarem sobre livros de viagem, as autoras acabem por fazer um paralelo com um dos clássicos de Mário de Andrade. Na entrevista a seguir, Beatriz fala da Argentina, de Brasília e do shopping center – espaço simbólico do capitalismo contemporâneo.


Em A cidade vista..., como classificar o seu olhar? É mais um olhar filosófico ou uma crônica do cotidiano?

A cidade vista é, provavelmente, o livro de alguém que tem inclinação etnográfica e cuja forma de ler o urbano foi aprendida na literatura e na crítica literária. Como se dizia, sou uma espécie de antropóloga urbana que escreve com o impulso do presente visto e da crônica, e que aprendeu tanto com Barthes quanto com Lévi-Strauss ou Clifford Geertz.

Como todas as metrópoles do hemisfério sul, Buenos Aires se transformou ao longo dos séculos em uma cidade com problemas de migração, violência urbana e crescimento desordenado. O que acha da atual Buenos Aires?

Buenos Aires é, em termos de riqueza per capita, a cidade número 13 do mundo. No entanto, o escândalo é que 200 mil pessoas vivem em casas miseráveis. Ou seja, é uma cidade rica e muito injusta. Os turistas costumam admirá-la porque se movem sozinhos por alguns bairros, como o fantasmagórico Puerto Madero, Palermo, que é o que se chama de um “bairro cultural” de alto consumo. Mas nem os turistas nem a classe média de Buenos Aires conhecem Villa Soldati, no Sul da cidade, próximo a cursos de água pestilenta, onde há crianças envenenadas pelo mercúrio dos dejetos industriais. O que quero dizer é que Buenos Aires é uma cidade dividida, uma cidade rica do mundo pobre, com o mundo pobre enfiado dentro dela.

Na Flip, você vai falar sobre as vanguardas modernas latino-americanas. Quais são os impactos dessas vanguardas na cultura brasileira e qual o impacto dos brasileiros sobre as vanguardas argentinas?

Provavelmente, o maior impacto das vanguardas brasileiras, não apenas na Argentina, mas no mundo, foi o do grupo de arquitetos integrado por Lucio Costa, Niemeyer e o refinado Burle Marx. A transcendência de Brasília como emblema de um projeto político-desenvolvimentista combinado com um imaginário formal modernista. Não me ocorre outro impacto de igual força, já que a literatura não alcança esse nível de difusão. Se falasse de mim, diria: Brasília, Guimarães (Rosa), Clarice (Lispector).

O modelo dos shopping centers ajudou na construção de um padrão de vida nas metrópoles dos países em desenvolvimento. Esses espaços seriam templos imaculados onde as elites podem se isolar para consumir? Você acredita que é possível surgir um novo modelo de vida urbana a partir desse tipo de consumo?

Não creio que os shoppings sejam espaços da elite. Creio que, nas cidades, são espaços típicos da classe média, com seus diversos níveis de ingresso, de acordo com a situação urbano-geográfica do shopping. Acho que são lugares de aspirações que fornecem um modelo não somente de consumo e comércio, mas da vida cotidiana que neles transcorre. Por isso é importante uma visão crítica sobre o shopping. Se fossem apenas espaços das elites, seriam bastante menos importantes em termos simbólicos. São espaços refuncionalizáveis, ainda que não de maneira permanente. No shopping, sempre, o capitalismo impõe sua ordem, o que é necessário para o show da mercantilização.



A CIDADE VISTA: MERCADORIAS E CULTURA URBANA

. De Beatriz Sarlo
. WMF Martins Fontes
. 240 páginas, R$ 39,90


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