No horizonte do espanto

Romance premiado de João Batista Melo evoca o clima tenso do período que antecedeu a 2ª Guerra Mundial sob a perspectiva de duas crianças na Belo Horizonte dos anos 1940

por 25/04/2015 00:13
Wladia Drummond/Divulgação
Wladia Drummond/Divulgação (foto: Wladia Drummond/Divulgação)
Ronaldo Cagiano Especial para o EM



Vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais e finalista do Prêmio Benvirá de Literatura (2014), Malditas fronteiras, do mineiro João Batista Melo, aborda a recorrente questão da insularidade do estrangeiro na ótica de duas crianças que, na Belo Horizonte da década de 1940, compartilham questionamentos e perplexidades, a reboque do clima de apreensão que antecede a 2ª Guerra Mundial.

Pelo olhares argutos de Valentino (filho de um empresário xenófobo) e da pequena e cega Sophie (neta de Konrad, um mestre cervejeiro alemão que vive a eterna busca da uma receita perdida de uma cerveja bávara) vão se descortinando tempos e geografias, numa simbiose entre presente e passado, diante da bruma indecifrável do futuro. Num movimento pendular entre Alemanha e Brasil, tendo Ettal e Belo Horizonte como cenários de suas deambulações afetivas e territoriais, a infância onírica é destronada, marcada tanto pelo medo e instabilidade emocional diante da possibilidade de ingresso do Brasil no conflito quanto pela amargura dos que, no exílio, assistem, inermes, ao plano bélico que desaguou no Holocausto.

Transcendendo o teatro dos horrores desse período e as tensões dos personagens que, com suas consciências, sutilezas e projeções psicológicas alimentam a trama e servem de sustentação a seu projeto narrativo, o romance também se particulariza pela linguagem extremamente delicada e poética, cujo acento diáfano não dissimula a dimensão trágica dos acontecimentos.

Entre o Brasil e a Alemanha, o romance de Melo é uma profunda e apaixonada discussão sobre valores, instaurando uma percepção ética e humanitária sobre a injustiça e os malefícios da intransigência e do preconceito, essas as verdadeiras e malditas fronteiras que empanam a beleza da existência e amordaçam qualquer espírito de compaixão pelo outro e pela diferença. Expõe o instinto maquiavélico e a pulsão de barbárie ainda tão enrustidas nas consciências das pessoas e dos líderes políticos e que afloram justamente nesses momentos catastróficos, de beligerância entre estados e nações.

Pelos olhos sensíveis de duas crianças, a narração ganha status de um profundo questionamento sobre a brutalidade desse mondo cane em que a realidade, com toda sua carga escatológica e apocalíptica, é desnudada por meio de uma aguda consciência crítica, mostrando as dicotomias e a incompreensão naquele momento da história.

O espaço abissal entre o ver e o sentir, quando está ausente qualquer possibilidade de entendimento, é simbolizado pela sensação de embate entre a cegueira real e a cultural, que a voz do velho Konrad, num dos momentos altos do livro, reverbera: “Cada ser humano percebia de modo distinto o sol e as florestas, a chuva e as pessoas com quem convivia, e em cada pupila se retratava algo diverso. Assim, havia um céu que era seu, nuvens que eram suas, orvalhos que eram seus. Mas uma posse por afinidade, não por propriedade. Tudo isso ameaçou mudar com o nascimento de Sophie cega, mostrando para Konrad novas formas de perceber o mundo”.

Malditas fronteiras, sem dúvida, é um dos mais significativos romances brasileiros contemporâneos sobre um tema milenar e recorrente na literatura universal, o do apartheid de raças e povos e as terríveis consequências do rastro de dilaceramento físico e íntimo dos que foram compelidos a uma existência de sombras e sustos, ao degredo do pré e pós-guerra, com seus escombros e espantos; enfim, ao despertencimento.

* Ronaldo Cagiano é autor de Dicionário de pequenas solidões    (Ed. Língua Geral) e O sol nas feridas (Dobra Editorial), entre outros.


TRECHO:

“As bombas vão libertar aqueles que estão presos na Alemanha, nos campos de prisioneiros. Vão acabar com o mal que ameaça dominar o mundo. Mas é sobre aqueles homens lá embaixo que jogo minhas bombas. É preciso que seus líderes percam a guerra. Que Hitler acabe. Que Mussolini acabe. Que Goebbels. Que Goering. Mas é sobre aqueles homens lá embaixo que jogo minhas bombas. E sei que preciso jogá-las porque senão eles matarão meus amigos, meus conterrâneos de Minas Gerais, há um monte deles por aqui. E então eu jogo minhas bombas. E sonho com aqueles homens todas as noites. Espero que esteja tudo bem em Belo Horizonte. Esse é um consolo. Persigo os fascistas alemães e italianos aqui para que eles não cheguem até a Serra do Curral ou até a Pampulha”.

Malditas fronteiras
. De João Batista Melo
. Editora Benvirá
. 289 páginas, R$ 32,50


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