Perto de todas as águas

Restinga, livro de estreia de Miguel Del Castillo, exibe o vigor da prosa contemporânea brasileira. O jovem autor se joga sem medo na contramão de narrativas tradicionais

por 07/03/2015 00:13
Companhia das Letras/divulgação
Companhia das Letras/divulgação (foto: Companhia das Letras/divulgação)
André di Bernardi

Com o conto “Violeta”, Miguel Del Castillo conquistou o seu lugar entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros na seleção da revista Granta, em 2012. O texto faz parte de Restinga, seu livro de estreia. Aos 28 anos, esse carioca, cujas histórias pairam entre delicadeza, solidão, política, memória e as relações de amor e amizade, mostra por que é uma das revelações da prosa contemporânea brasileira.

“Violeta” conta a história de Miguel Angel, jovem que combateu a ditadura uruguaia ao lado dos tupamaros. Como tantos, desaparece sem deixar vestígios. Combinando memória e crítica, Castillo investiga os efeitos das grandes tragédias coletivas na vida particular do cidadão. Se a política é necessária, ela é, também, na mesma medida (mas não deveria ser), tosca e sinistra. “Restinga”, conto que abre o livro, fala sobre a mãe que está morrendo e cujo sonho é conhecer a Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. O acidente geográfico pode ser metáfora da alma humana, essa faixa de areia ou de pedra que se prende ao litoral e avança pelo mar.

Tudo serve de pretexto, como a síndrome de Down no belíssimo e delicado conto “Olimpíada”. Já em “Arraial”, Miguel discorre sobre fragmentações, distâncias causadas pelas relações virtuais via Facebook, quando um tipo sujo de solidão interfere sorrateiramente, causando danos e prejuízos. Coisas que passam despercebidas deixam vestígios. Miguel incorpora essas inutilidades ao texto.

Amarras? Tudo é frágil. Não há laços fortes o suficiente. A literatura alcança, trabalha diante e dentro dessas brechas, dessas lacunas deixadas pela inconsistência e a incompletude das coisas e das pessoas. A literatura desfaz nós para alertar, aponta para o vazio da estrada. Ficamos com uma sensação estranha ao encarar tamanha liberdade, com esse gosto ocre na boca diante do por fazer que causa medo e vertigem.

A água é elemento constante, mas não o principal, nos textos de Castillo. Águas de várias e diversas tonalidades, lagos, piscinas, até as cores do mar uruguaio. Tudo são águas. Os contos são feitos de contrações e contradanças. Miguel, paradoxalmente, não vai pela contramão de nada, ele viabiliza e auxilia o fluxo dos acontecimentos feitos de descompassos e encontros sempre provisórios.

A memória: os personagens do livro lembram e nos fazem lembrar. O presente e o passado formam um elo estranho. Memória é retrato e borrão, fome e sede reunidas. Invenção, dádiva sem cálculos que a organizem de forma satisfatória. Gangorra, carrossel, balanço de várias cores, escorregador possível para o tempo úmido da infância. Lembrar é uma forma de reescrever, é também uma forma de descrever o que supostamente foi e deixou de ser. A memória é um cutelo – arma pouca afiada, contudo. “Às vezes, sentimos falta de coisas distantes”, que ficam submersas, perigosamente submersas. Daí a importância das águas, de todas elas.

A memória (a literatura e a poesia) é uma espécie de escudo feito de sucatas. Miguel viabiliza, deixa entrar por janelas e portas do texto um vento necessário que faz surgir o amor e a amizade. E o mar, porque dele ninguém escapa. Ao mesmo tempo, seus contos carregam uma tensão que não se dissipa. Certas grandezas só servem para comprimir o nosso peito. Restingas, Empire State, uma casa abandonada, o mar, o céu nem sempre azul, ainda e sempre indecifrável. Miguel escreve diante de silêncios relativos observando ausências e as alturas, os abismos do espírito e dos caminhos.

Miguel aprova a malícia das metáforas. Como num LP do Led Zeppelin, Stairway to heaven acaba de repente, como a vida. “Acho que tiveram que parar a música do nada para fazer caber o resto”, diz um dos personagens do conto “Paranoá”. Pode ser. Pode ser também incrível como diálogos aparentemente banais escondem curvas. Mas é preciso reparar fundo. Miguel prefere não se juntar ao Olodum, que é da alegria. Nada contra o carnaval, muito pelo contrário. É que Miguel problematiza o batuque e pensa para além da folia, que dura pouco.

Os contos não precisam, necessariamente, fazer algum sentido. O autor foge do apelo fácil, da superficialidade das histórias tradicionais, com começo, meio e fim. Não aceita respostas ingênuas ou rápidas, pois sabe que elas nem sequer existem. Não é a literatura que vai dizer aonde se escondem os bichos na floresta escura, não é a literatura que vai desmontar a dinâmica do pulo e do gato. Os contos do livro são estranhos, porque são estranhos os sonhos, as engrenagens desse ir e vir. A literatura é quase uma atividade ilegal. A boa literatura carrega tons de cinza. Quanto mais as palavras se distanciam do centro, do cerne das coisas, mais ela o encontra, numa dialética de forças contrárias que não se anulam.

Miguel deixa o melhor de seu pensamento nas entrelinhas. Sua prosa é correta, sóbria. O escritor é também arquiteto. Talvez por isso os textos trazem algo de matemática pura, embora inexata. Os textos dançam em volutas barrocas. Miguel explora e transita num ambiente de escombros e de sobras. As relações familiares, os encontros amorosos, os trâmites que propiciam uniões e conluios pouco prováveis em termos de lógica e sensatez. Nada é simples. Uma certa neblina descansa nos textos do livro, véu que muito esconde e mais sugere.

Miguel escreve sobre dissoluções e distâncias, escreve respeitando as tênues linhas que a vida delicadamente inventa para si mesma. Ele crê e nos faz crer que não existe aviso prévio para o surgimento de forças grandes e misteriosas. Para o bem e para os males. Ainda não inventaram regras preestabelecidas para a lentidão ou a velocidade absurda dos pensamentos e ações de todas as pessoas e personagens, que transitam, perdidos, num turbilhão de afetos e verdades inconfessáveis. Inexistem regras, mas há vencidos e poucos, muito poucos vencedores.

RESTINGA
• De Miguel Del Castillo
• Companhia das Letras
• 28 páginas, R$ 34,90

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