Patrimônio da HUMANIDADE

Três olhares sobre a arquitetura mostram como passado e presente se entrelaçam na trajetória cultural do ser humano. Livros lançados no país propõem reflexões sobre a arte de construir

por 07/03/2015 00:13
Reprodução internet
Reprodução internet (foto: Reprodução internet )
Antônio Gonçalves Filho

 

Três livros lançados simultaneamente por diferentes editoras no Brasil cobrem todos os períodos de construção do patrimônio arquitetônico da humanidade – dos assentamentos de caçadores no Oriente Médio neolítico (10.000 a.C.) ao Bosco Verticale de Stefano Boeri, floresta vertical plantada em duas torres projetadas em 2014 pelo arquiteto italiano em Milão. Tudo sobre arquitetura (Editora Sextante), que resume essa história, foi organizado por uma equipe de especialistas sob a supervisão de Denna Jones. O outro é um clássico que vai completar 20 anos e ganha agora uma edição em português: A coluna dançante (Editora Perspectiva), escrito pelo historiador de arte britânico de origem polonesa Joseph Rykwert. Esse veterano autor explora o contexto antropológico em que as colunas antigas – pilares de toda a arquitetura ocidental – foram criadas. Já Arquitetura em diálogo (Cosac Naify) reúne 10 entrevistas com arquitetos contemporâneos realizadas pelo especialista Alejandro Zaera-Polo para a revista El Croquis nos anos 1990.

LINK A correspondência entre passado e presente é feita logo no prefácio de Tudo sobre arquitetura pelo respeitado arquiteto inglês Richard Rogers, parceiro de Renzo Piano no projeto do Centre Georges Pompidou (Beaubourg) de Paris. Na 13ª Bienal de Arquitetura de Veneza, Rogers destacou a Torre Guinigi, em Lucca, Itália, erguida no século 16, como a concretização do mandamento vitruviano do bem construir. Detalhe: a obra renascentista tem no topo carvalhos frondosos como as árvores do Bosco Verticale de Boeri e a Flower Tower do francês Edouard François, instalada num parque da zona reurbanizada de Hauts Malesherbes, em Paris. O que era um capricho de uma família rica do Renascimento virou um projeto audacioso para fazer crescer o espaço verde urbano nos dias de hoje. Sem esse diálogo, a arquitetura corre o perigo de se perder.


Em Arquitetura em diálogo, Frank Gehry, o ousado criador do Guggenheim de Bilbao, admite que pode estar aprisionado ao presente – mais especificamente à “bagunça do presente” –, por se recusar a viver fora dele. No mesmo diapasão, o arquiteto norte-americano Peter Eisenman, teórico do desconstrutivismo, cujos projetos desafiam a gravidade e são desaconselháveis aos portadores de labirintite, acha impossível repetir os ícones do passado no presente, porque o Zeitgeist, o espírito de época, é outro.
É interessante notar que Joseph Rykwert, autor de A coluna dançante, pensa exatamente o contrário. Para ele, há muito o que aprender com a arquitetura do passado. Ele, aliás, escreveu um livro (The first moderns, 1980) que não é só uma bela história de como os modernos se apropriaram de projetos passados, mas o esboço de um estudo seu mais recente (The seduction of place, 2000), no qual examina a ocupação do espaço urbano pelos contemporâneos.


Entre um retorno à ordem e o caos preconizado pelos arquitetos japoneses – que, como Sejima, sugerem um desmonte do cânone arquitetônico –, Rykwert, naturalmente, fica com a ordem, com a coluna e a viga que ainda sustentam parte dos edifícios ocidentais. A grande crise financeira de 2008 não acabou com os projetos delirantes e autorreferentes, mas a palavra sustentabilidade passou a ditar as regras – e a leitura de Rykwert, um entusiasta da “ordem” de Alberti, pode ser bastante oportuna quando se mostra um renovado interesse pela arquitetura humanista.
Se os japoneses defendem arquitetura caótica para tempos caóticos, o livro de Rykwert sugere uma reinterpretação das metáforas que encerram as colunas dos templos antigos (especialmente os gregos).

DIDÁTICO Para quem não é especialista, Tudo sobre arquitetura oferece um capítulo inteiro sobre a Grécia antiga, traçando uma linha do tempo que vai do primeiro aqueduto que levou água potável a Samos (580 a.C.) ao Altar de Pérgamo (170 a.C.). O trabalho é bastante didático ao explicar que as realizações da arquitetura grega não se restringem aos templos, mas se limita a analisar os pátios dóricos e as colunatas jônicas do ponto de vista técnico.


Já Rykwert, em A coluna dançante, vai além: mostra as origens dos diversos tipos de colunas e o papel dos templos arquetípicos no projeto de colonização dos gregos. Obviamente, são duas propostas diferentes. Tudo sobre arquitetura parte da forma para chegar à essência. Para Rykwert, tudo é essência. Assim, projetos como o de Zaha Hadid, o Heydar Aliyev Center (2012), em Baku, Azerbaijão, são descritos como um “bom e ambicioso exemplo” de edifício paramétrico (que faz uso de modelos digitais considerando fatores variáveis como a luz). Rykwert teria analisado de outra forma as relações do edifício de Zaha Hadid com o espaço circundante, levando em consideração a analogia de suas linhas curvas com a tradição iconográfica islâmica. Mas um complementa o outro.

CORBUSIER Embora pequeno no tamanho, Arquitetura em diálogo é grande no conteúdo. O autor é o arquiteto e teórico espanhol Alejandro Zaera-Polo, que trabalhou no OMA, o escritório do polêmico holandês Rem Koolhaas, entre 1991 e 1993. Premiado com o Pritzker em 2000, Koolhaas é um dos entrevistados. Ele critica os modernos, como Le Corbusier, por “terem sido fatalmente atraídos pela ideia de ordem”, assim como outros entrevistados questionam seus contemporâneos – o espanhol Rafael Moneo não poupa os excessos teóricos de Peter Eisenman, por exemplo, embora reconheça sua estatura. De modo geral, seus colegas não gostam de ser confundidos com designers, especialmente Jacques Herzog, que abomina a descrição de um projeto seu como obra de arte. Duas das melhores entrevistas são as de Frank Gehry e Álvaro Siza, pilares da contemporaneidade.

 

ARQUITETURA EM DIÁLOGO
De Alejandro Zaera-Polo
Cosac Naify, 352 páginas
R$ 49,90

A COLUNA DANÇANTE
De Joseph Rykwert
Perspectiva, 488 páginas
R$ 129

TUDO SOBRE ARQUITETURA
Org.: Denna Jones
Sextante, 576 páginas
R$ 69,90

 

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