Lançado este mês, 'A palavra afiada' reúne escritos inéditos de Gilda de Mello e Souza

Obra traz inclusive carta a Mário de Andrade, que o Pensar antecipa nesta edição

por João Paulo 05/04/2014 10:00
Madalena Schwartz/Acervo Instituto Moreira Salles
Gilda em sua casa, em São Paulo, em 1989: carreira marcada pela abrangência dos interesses intelectuais e elegância humana (foto: Madalena Schwartz/Acervo Instituto Moreira Salles )
Uma mulher culta, bela, elegante, extremamente inteligente, que esteve próxima aos mais importantes movimentos intelectuais do século 20. Gilda de Mello e Souza (1919-2005) deixou marcas em todos setores da vida cultural brasileira de seu tempo. Uma das primeiras mulheres a cursar ciências sociais na Universidade de São Paulo – onde depois seria professora cultuada por várias gerações de alunos –, Gilda doutorou-se com tese sobre a moda no século 19.

O trabalho, que seria publicado em 1952 pela Revista do Museu Paulista e depois republicado, em 1987, pela Companhia das Letras, tem seu pioneirismo reconhecido até mesmo internacionalmente. Nenhum pensador havia, até então, dado importância à moda como elemento de compreensão da sociedade e de seus símbolos. O sistema da moda, de Roland Barthes, por exemplo, só seria publicado na França em 1976.

Gilda foi aluna da primeira geração de professores que fizeram parte da missão francesa que ajudou a criar a universidade paulista, entre eles, Roger Bastide, Jean Maugüé e Claude Lévi-Strauss, mestres que seriam modelos de sua trajetória intelectual.

Ainda na faculdade, participaria do grupo que fundou a revista Clima, em 1941, ao lado de Antonio Candido (com quem se casaria), Decio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado, Paulo Emílio Salles Gomes e Ruy Coelho, entre outros. Havia uma espécie de divisão de tarefas: Antonio Candido com literatura, Decio de Almeida Prado com teatro, Lourival Gomes Machado com artes plásticas, e Paulo Emílio Salles Gomes com cinema. Uma turma da pesada

A carreira de Gilda na área da estética, onde aportaria vindo das ciências humanas, seria enriquecida com ensaios sobre literatura, pintura, cinema, teatro, fotografia, dança, publicados em várias revistas e depois reunidos em livros que se tornaram clássicos do pensamento crítico brasileiro: Exercícios de leitura (1980) e A ideia e o figurado (2005). Para a reflexão e sensibilidade de Gilda, valia tanto a estética dos professores franceses como a dança de Fred Astaire. Seu O tupi e o alaúde (1979), sobre Macunaíma, de Mário de Andrade, é considerado um dos mais importantes trabalhos sobre o livro do autor modernista. Mas sua relação com o criador de Pauliceia desvairada vinha de longe.

Gilda de Mello e Souza teve a ventura de ser parente de Mário de Andrade (seu pai era primo-irmão do poeta), com quem teve convivência decisiva em sua vida. Entre os 12 e os 24 anos, ela viveu na casa da madrinha e tia-avó Maria Luiza de Moraes Andrade, mãe de Mário de Andrade, que também morava ali e exerceu sobre Gilda influência determinante na vida pessoal e intelectual da jovem, que gostava de escrever contos. Ela frequentava assiduamente o que chamava de “território” de Mário.

A Editora Ouro sobre Azul lança, no dia 20, o livro A palavra afiada, que reúne textos inéditos, entrevistas e cartas de Gilda de Mello e Souza. A maior parte do material, escrito entre 1938 e 1942, é inédito. A organização e o prefácio são de Walnice Nogueira Galvão.

Um dos destaques do conjunto são as cartas dirigidas a Mário de Andrade, um homem sempre disposto a dialogar com os jovens, como comprova sua gigantesca correspondência já conhecida com nomes como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernando Sabino, Henriqueta Lisboa e vários outros jovens em busca de uma palavra amiga e sincera.

O caso de Gilda é singular: além de jovem intelectual em busca de orientação, era parente próxima e morou na mesma casa do escritor, que certamente era sensível tanto aos apelos da moça como às expectativas dos familiares. Gilda, como se lerá na carta a seguir, tinha em Mário de Andrade a máxima confiança. É um destes documentos que o Pensar antecipa a seguir, carta escrita por Gilda, em Araraquara, em 1942. O documento humano digno dos correspondentes, de um tempo em que jovens de 20 anos escreviam longas cartas. E tinham o que dizer.

Leia, na íntegra, carta de Gilda a Mário de Andrade:

Araraquara, 1º de agosto de 1942


"Mário, Foi preciso que eu deixasse passar uns dias desde a chegada de sua carta, pois ela havia me transformado numa espécie de monstro de contradição, comovido e acabrunhado, ao mesmo tempo cheio de confiança e de arrependimento. Custei a descobrir e separar as razões de sentimentos tão diversos e, só depois de inúmeras leituras de sua carta admirável e de impiedosos mergulhos dentro de mim mesma, comecei a ver tudo com maior clareza. Me sentia comovida pela sua bondade em descer espontaneamente até os meus pobres e desprezíveis problemas, tentando me auxiliar e me adivinhando com tamanha sensibilidade; e se o abatimento me invadia era por não ter economizado você desse esforço, me abandonando de uma maneira mais sincera. Não pude impedir, também, que uma nova e mais violenta confiança, na vida e nos homens que como você sabem o que é a solidariedade humana, me inundasse. E agora, vencido o tumulto que você provocou dentro de mim, venho arrependida pedir perdão pela minha atitude, não deixando, porém, de trazer um punhado de objeções e desculpas, quem sabe elas irão me absolver? Me ouça um pouco. Você não tem o direito, Mário, nem de imaginar que eu seja dos que menos se aproximam de sua experiência. Possuindo entre todo o mundo o privilégio de viver ao seu lado, fui aprendendo, isso sim, a me utilizar de você sem que você percebesse. Posso dizer que cresci ouvindo as conversas que você tinha com os outros (era preciso que eu esperasse algum tempo para que você as tivesse comigo...) e quantas vezes não agarrei uma ideia sua no voo, levando-a com avareza pra minha solidão. E meu gesto era puro, porque eu não queria a ideia pra dizer aos outros que era minha, mas para, revirando-a de todos os lados, perceber-lhe o mecanismo.

O certo é que me habituei assim a ir me enriquecendo em silêncio, a colecionar tudo que você, distraído, ia deixando cair. Doutras vezes a sua simples presença me ensinava. Você está se esquecendo, que há mais de dez anos vivo aí em sua casa e que o convívio é cheio de ações e de pensamentos que, por serem cotidianos, não deixam de ser também um reflexo da experiência inteirinha de cada um de nós? Como poderia eu estar mais próxima da sua experiência? Pra quem você jamais foi de uma maior utilidade? Aliás é curioso que você não tenha notado em mim aquilo que já apelidaram um tanto maldosamente da minha “rapacidade” e é o meu hábito egoístico de sugar os outros, me valendo sempre das experiências e lições alheias. É possível que eu esteja me restringindo um pouco ao lado humano, vital, da experiência dos outros e não propriamente ao lado artístico. Pois bem, ainda aqui eu tenho sempre recorrido a você. Acontece, porém, que eu guardo um certo pudor, um como que complexo de inferioridade artístico, sei lá, que me torna bastante difícil falar dos meus escritos a pessoas já de celebridade como você. Talvez esse sentimento esteja ligado a, não propriamente descrença, mas a oposição que meus pais fizeram de início à minha “mania de escrever” e que, repudiada por mim, não deixou no entanto de me marcar. Sempre temo estar fazendo um papel ridículo, me dando uma importância exagerada. (Isto é verdade não só pros meus trabalhos intelectuais como pros meus pequenos problemas vitais...) E prefiro calar sobre os escritos ainda em andamento, ainda não totalmente imaginados e definitivamente fixos. Porque, além do mais, sou duma assustadora mobilidade ou inconstância! Quantas vezes, escolhido o assunto pra um conto, vou no decorrer do mesmo mudando o rumo das coisas, a própria essência da história? Como contar a você, portanto, o que estou fazendo? Nem eu sei... Outras vezes, fixado o assunto e a linha geral, vou aperfeiçoando a ideia, enriquecendo-a de detalhes, aprofundando a psicologia dos personagens no princípio muito superficial, fazendo duas, três, quatro versões da mesma história – me horrorizo com a lembrança de tio Pio... – de tal forma que quando chego à versão definitiva a história é quase outra... Você poderia me retrucar que esse processo de trabalho não impede o seu auxílio e que estava nas suas mãos evitar tamanho desperdício das minhas forças. Mas eu aprendo tanto perdendo tempo, Mário! Não pense que é soberba, Deus me livre! mas sou um tanto... empírica no meu aprendizado e do mesmo modo que, quando estudava geografia, precisava não só ler mas repetir alto e escrever o nome da cidade, do rio, da montanha para gravar, agora preciso também realizar a experiência para lucrar com ela.

Mas voltando atrás, você vê que é fácil pra mim contar a Maria Eugênia, a Antonio Candido ou a Decio, uma ideia que tive e como pretendo realizá-la. Eles estão mais ou menos no mesmo plano que eu e seus juízos e opiniões não influirão muito em mim, mesmo que sejam desfavoráveis. Com você o caso é outro. Prezando como prezo a sua sensibilidade artística e conhecendo a confiança instável que deposito em mim, temo que em seu juízo dubitativo me desanime e eu chegue a deixar de lado um assunto, ou que, ao contrário, em seu juízo otimista me entusiasme exageradamente e eu me abandone a facilidades superficiais. Ora, eu me encontro numa fase de treino e aprendizado em que não só tenho de me servir de tudo, mesmo de assuntos medíocres, sem grandes indecisões – você me dizia mais ou menos isso, uma vez, se lembra? – como também preciso me utilizar au bout des forces. Por isso prefiro entregar a você as coisas já prontas que considero dignas da sua censura. Doutro modo iria me desperdiçando em conversinhas preparatórias e possivelmente nem chegasse a ter a conversa definitiva... por desnecessária! Ou talvez a razão mais verdadeira de minha... fuga, se bem que um tanto cômica, tenha sido e continue sendo apenas pudor de aparecer aos outros de anáguas, uma vaidade muito feminina de só me mostrar at my best. Depois disso, pelo amor de Deus, não torne a me repetir que o que me afugenta é uma vaidade desprezível, um medo qualquer por passar por discípula. Influências de você terei sofrido, como centenas de outras pessoas que, como você, têm força para influenciar. Basta decidir se eu, como é o caso, futuramente lucrarei com a influência sofrida, assimilando a lição que me deram, sem prosseguir macaqueando. E acho que lucrarei.

Outra coisa que quero esclarecer para que você possa me desculpar é o fato de eu não me confiar mais a você. Esse é um ponto que tem me agoniado bastante nesses últimos tempos e que agora, ante sua carta tão amiga, está me maltratando de uma maneira insuportável. Comecemos pelos meus aborrecimentos lá na escola. Aí é fácil compreender por que eu não os dividi com você. Temia essa explicação detestabilíssima que você vem me dando... Aliás esse pedaço todo de sua carta me deixou tão... deprimida, que prefiro nem tocar nela... me é doloroso ver você se justificando junto de mim. Depois, como você diz e eu mesma acho, (Maria Eugênia deve ter deformado qualquer rasgo de mau humor sem consequências que eu tive), o meu caso não é caso e nem eu nunca o julguei assim. Sempre tive a consciência de que, passado o momento de choque, eu me equilibraria e de fato quando me inscrevi pro doutoramento já estava equilibrada. O mais grave não era portanto esse movimento passageiro de desânimo e sim a luta que se travava dentro de mim entre o meu egoísmo e o egoísmo dos outros, a indecisão sobre qual deveria ser o meu destino. E é isso Mário, que eu não me perdoo não ter posto você ao par. Foi preciso que você me adivinhasse e eu me sinto cheia de remorsos. No entanto, creia, não foi por falta de confiança ou medo de ser incompreendida. E na verdade essa prodigiosa clarividência que você tem sempre demonstrado a meu respeito com certeza já o fez descobrir que dentre os meus parentes mais próximos, pai, mãe, irmãos, é de você que me sinto mais perto. Não exagerarei se disser que mesmo entre a maioria dos amigos da minha idade não sinto o calor de compreensão que me vem silenciosamente de você. Alguns chegam a ter um desejo inconfessado de me destruir e o fazem me ridicularizando amavelmente, me apontando com um primarismo que não pode ser de convicção, as mesmas soluções válidas para a maioria das mulheres da minha idade. Mas se eu sentia que era de você que devia me chegar a palavra de esclarecimento, por que não me aproximei! Chi! Mário, a coisa é bem mais complicada do que parece, mas creio que a razão principal foi por você ser primo de meu pai e grandemente querido. E na verdade me parecia uma certa safadeza de minha parte confiar-lhe as minhas indecisões, os meu propósitos, aceitando o seu auxílio na sabotagem dos valores e noções de conveniência de minha família. Eu acabaria arrastando você a uma situação cacete, os que admiram você fazendo possíveis recriminações: “Então Mário sabia?”, “Então Mário era seu aliado?”, coisas assim que me deixariam bem miserável. E por isso talvez pareci dissimulada, esquiva, insincera mas eu estava acreditando que era mais digno resolver tudo sozinha sem meter você no embrulho.

Pois quando sua carta chegou já tinha decidido “ir viver em São Paulo, sem reservas, me rindo sem reservas”, das dificuldades de toda a espécie... Não quero esconder que andei aí uns tempos “amofinada” mastigando difíceis probleminhas de consciência, de dever filial a cumprir, entendendo demais o egoísmo paterno. Nem que havia tentado me iludir, imaginando uma solução meio romântica, eu solitária num ginásio qualquer do interior, São Carlos, por exemplo. Mas que santo remédio foi eu poder conviver de novo com essa fauna que povoa o interior do Estado... Ter ido até Bebedouro, não me furtado aos contatos humanos, fazendo visitas, dançando no clube, deixando que as meninas que cursavam filosofia no Des Oiseaux me desfiassem a sua série infindável de desajustamentos! Me vi no lugar delas, um ser revoltado, inútil, sem forças de criar fora desse ambiente o seu pequeno mundo. (Mesmo porque acho isso medonhamente falso, não é possível esquecer o outro lado da existência, “tudo aquilo que na vida é porosidade e comunicação”!). Me imaginei vivendo de lembranças ou numa vida tão artificial e tão desumana no meio dos meus livros, que quando percebi que ainda podia me salvar, Mário, puxa! me senti que nem Carlito pisando o telhado firme depois de ter se equilibrado na ponta duma prancha. Devo ir para aí até 10 ou 12 de agosto. Mamãe com papai que não conhecem bem ao certo os meus terríveis planos, não deixam de alimentar esperança a respeito da provável abertura dum colégio universitário em Araraquara. Eu ouço o boato, esfrego as unhas e... ainda como Carlito, digo: most musing.

Quanto às impertinências de vovó e titia, são bem insignificantes e facilmente destruídas pela enorme afeição por elas e meu sense of humour. Me é penoso, isso sim, não poder ser totalmente sincera com as velhinhas, ter que repetir para elas a mesma comédia misteriosa e vaga que às vezes represento pros meus pais. Quantas coisas que a mim me parecem justas, inevitáveis, elas jamais poderão aceitar! Ainda tenho bem nítida na minha memória o resultado duma explicação sincera que tentei ter com mamãe depois de um sério atrito. Mamãe passou três noites em claro e na quarta se apresentou na minha frente, pálida e esbugalhada, foi sentando na minha cama, pôs a mão na cabeça e disse: “Não aguento mais... Não posso dormir, não tenho mais sossego... Acho que devo avisar seu pai... Não sei se você ainda é séria...” É claro que não preciso contar a você como me senti desgraçada na hora, e como chorei a injustiça, odiei o mundo, as coisas, tudo. Foi tão autêntico o espetáculo do meu desespero que mamãe mesma se comoveu, foi lá dentro ver água com açúcar, e voltou dizendo que depois daquilo eu não podia mais gostar dela... Continuei gostando, é claro, mas não caí outra vez na asneira de, por exemplo, lhe explicar a relatividade das leis morais. A gente da geração dela não aceita relativos em coisa alguma, em moral muito menos, as mulheres ou são heroínas ou perdidas. E foi assim que depois do desastroso incidente eu adotei a técnica mais acomodatícia de “por aqui não passou”, nunca falo a verdade inteira. O mundo da gente e o de nossos pais ou avós são dois mundos irreconciliáveis e é preciso viver meio às escuras para não viver eternamente em luta. Será que eu estou parecendo excessivamente cínica? Mas eu quero bem a meus pais, Mário e de outra forma não seria possível eu viver e eles viverem. Remorso mesmo só terei quando não tiver seguido a minha lei moral e a minha noção de dignidade.

Mas me diga se esta carta não está se transformando numa monstruosidade? Foi isso: você veio despertar em mim problemas de consciência... Fica pois para outra vez a minha opinião sobre o seu opúsculo e quanto a Maria Eugênia, conversaremos em São Paulo. Me deu muita alegria saber que ela procurou você duas vezes. Estou acabando um conto e quero ver se ainda o mando daqui. Como sempre acontece, tenho me animado e desanimado, posto de lado e insistido. A ideia não me parece má, mas dei um tratamento difícil ao assunto, talvez um pouco sem interesse, monótono. Enfim conto muito de análise, sem paisagem. Andei lendo um pouco, só contistas e de língua inglesa (americanos inclusive) e já não tenho dúvida de que é nesse ambiente que me sinto melhor. Fiz também uma experiência curiosa relendo K. Mansfield em tradução brasileira. Ah! Mário os outros têm razão, ela me marcou muito.

Até breve e Deus lhe pague por tudo.

Gilda

Foi inevitável: todas as vírgulas ficaram exatamente onde não deviam ficar.
G."

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