A musa de Maracangalha

Livro resgata a obra da pintora Sylvia de Leon Chalreo, que retratou os morros cariocas e a gente simples do Brasil. Feminista, ela cultivou a arte e a democracia

por 04/01/2014 00:13
Walter Sebastião

Já passou da hora de o Brasil redescobrir a obra da artista plástica Sylvia de Leon Chalreo (1905-1991). A pintura dessa carioca merece voltar às salas de exposições. “Sylvia foi vanguarda desde que abriu os olhos”, afirma Ana Lúcia Queiroz, autora do livro Maracangalha em parceria com a fotógrafa Márcia Zoet.

Inicialmente, o projeto se limitava a apresentar a obra da pintora. Entretanto, Ana Lúcia e Márcia se encantaram ao descobrir as várias facetas de Sylvia Chalreo: escritora, feminista, jornalista, poeta, militante política e ilustradora. Nos anos 1920, ela passou a assinar seus quadros apenas como Silvia, abandonando deliberadamente o aristocrático y.

O título Maracangalha alude ao apelido, inspirado na marchinha de Dorival Caymmi, dado ao apartamento no Bairro Flamengo comprado pela pintora. Esse “batismo”, aliás, ficou gravado na caixa de luz do imóvel. A partir de 1956, aquele lar abrigaria uma família nada convencional, formada por Sylvia e dois amigos: o ator João Ângelo Labanca e o militar Pedro Weiss Xavier. Ela teve amores, mas não se casou nem deixou filhos. Naquelas salas se cultivava a arte. O trio fez um pacto, devidamente cumprido: quem morresse primeiro deixaria tudo de herança para os outros.

Ana Lúcia Queiroz chama a atenção para a simplicidade e o colorido das obras de Sylvia. “É visão leve da vida”, observa. Trata-se do trabalho de uma autora que encontrou na pintura sua verdadeira forma de expressão. “Um dia, acordei pintora. Foi algo que surgiu inesperadamente”, contou a artista. Autodidata, ela estudou estética e se dedicou a escritos sobre arte.

“As imagens retratam os morros cariocas e a população pobre. É intenção declarada dela mostrar o que o Brasil é”, avisa Ana Lúcia Queiroz. As obras trazem a visão social da arte, algo comum aos autores dos anos 1930, observa a pesquisadora.

Crítico respeitado, Sérgio Milliet escreveu: “Silvia sente-se sobretudo atraída pela poesia da ingenuidade. Dir-se-ia que ela procura despojar-se de toda sabença escolar para chegar a uma expressão sintética limpa de literatura”.

O interesse pela dimensão social cruzou toda a vida de Sylvia de Leon Chalreo. Ana Lúcia suspeita que essa característica venha da adolescência. Depois da separação dos pais, ela passou por dificuldades econômicas, conscientizando-se, já no início do século 20, da situação da mulher brasileira.

Aos 19 anos, a jovem carioca foi à luta para se sustentar – algo impensável para moças bem-nascidas da época. Falava fluentemente francês, estudou na Escola Normal do Distrito Federal e foi aprovada em concurso para o cargo de amanuense municipal.

Campeã de braço de ferro, Sylvia desafiava homens e moças a disputar a brincadeira com ela. Exímia nadadora, chegou a atravessar a Baía de Guanabara. Poeta, fez versos apaixonados para o português Afonso Castro Senda. Noiva de um rapaz chamado Murilo, viajava com ele. Transgressora, posava para fotos abraçada com o amado – ambos em roupas de banho. Não há pistas sobre a identidade de Murilo e sobre os motivos do rompimento.

Em 1931, Sylvia Chalreo criou um clube feminista em Niterói. Sete anos mais tarde, fundou a revista Esfera, dedicada às artes e às ciências. Entre os colaboradores da publicação estavam Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Incentivada pelo Partido Comunista Brasileiro, a revista mandou 24 edições para as bancas entre 1938 e 1950. Sua fundadora militava em comícios e sindicatos.

LIBERDADE “O livro é sobre uma personalidade das artes, mas mostra também um pouco da história da mulher e da intelectualidade no Brasil”, explica Ana Lúcia Queiroz. O apartamento Maracangalha expressa isso. Espaço com espírito comunitário, ele abrigou a prática e a difusão da arte numa época em que tais atividades ocorriam em universos de âmbito privado. “Aquele grupo de pessoas viveu um momento de esperança de mais liberdade e de melhoria de vida para todos”, afirma a historiadora, referindo-se ao período pós-2ª Guerra Mundial e aos anos JK.

Responsável pelo projeto iconográfico do livro, a fotógrafa Márcia Zoet é sobrinha de Pedro Xavier, um dos moradores do Maracangalha, “lugar de visita obrigatória quando eu ia ao Rio de Janeiro”. Márcia jamais se esqueceu dos quadros, fotos, biblioteca e do ateliê frequentado por artistas e intelectuais. A alma daquele espaço e o entusiasmo pela cultura que se respirava por lá a influenciaram a cursar jornalismo. A decisão da então adolescente veio depois de ela entrevistar frequentadores da casa do tio para um jornalzinho.

“Sylvia era mulher aberta, que instigava as pessoas tanto para ver quanto para praticar arte”, conta Márcia Zoet. O trio Sylvia, João e Pedro, que viveu junto por quase 40 anos, despertava muita curiosidade. “São casados? Quem é esse meu tio? O arranjo familiar deles era diferente”, relembra a fotógrafa, seduzida, ainda hoje, por tudo que viu e viveu naquele apartamento do Flamengo.


ISTO É SYLVIA
» A pintora declarou à Revista do Rádio, em 1965: “Já pintei todos os morros cariocas”. Fez questão de informar que nascera num deles – o do Barro Vermelho, em São Cristóvão. Isso se deu antes de morro urbano virar sinônimo de favela.
» A artista ingressou no Partido Comunista Brasileiro nos anos 1930. Presa em 1936, foi liberada logo depois de ouvida pela polícia.
» A primeira individual da pintora foi realizada em 1945, na Livraria Brasiliense, em São Paulo.
» Jornalista, Sylvia escreveu para as revistas Rio e Rio Social, além dos jornais O Movimento Feminino e Tribuna Popular (importante publicação da esquerda brasileira). Foi crítica de teatro da revista Fon-Fon.
» Na década de 1950, Sylvia Chalreo liderou a Greve das Cores, contra altas taxas de importação de tintas impostas pelo governo federal. Participantes do 3º Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro apoiaram o protesto: todas as obras exibidas foram realizadas em preto e branco.
» O apartamento Maracangalha era abrigo de intelectuais, assim como a mitológica residência de Aníbal Machado, em Ipanema. Frequentavam as salas do Flamengo Carlos Drummond de Andrade, o artista plástico Santa Rosa e os atores Sérgio Britto, Fernando Torres e Paschoal Carlos Magno, entre outros.


DE CARLOS DRUMMOND...
...para Sylvia

“As pequeninas casas multicores
e a gente humilde que pintaste a esmo
serão signos de amor, por entre flores,
quando o homem se liberta de si mesmo”

...para Maracangalha
“Lá em Marquês de Abrantes,
onze, mil cento e um,
as cores mais flamantes
e o perfeito e comum
prazer de abrir os olhos
à vida e refleti-la
(os trevos quatrifólios
existem na tranquila
esperança latente)
se entrelacem num véu
que envolva docemente
Silvia Leon Chalreo”


MARACANGALHA
Vida e obra de Sylvia de Leon Chalreo
. De Ana Lúcia Queiroz e Márcia Zoet
. Editora Ilumina, 120 páginas, R$ 45