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Em busca da harmonia

Paulo Sérgio Malheiros dos Santos acompanha a formação da ética intelectual e da estética musical de Mário de Andrade

por 12/10/2013 00:13
Arquivo EM
Arquivo EM (foto: Arquivo EM)
João Paulo

Mário de Andrade (1893-1945) não foi um só. Como ele mesmo se definiu no poema de abertura de seu livro Remate de males, de 1930, ele era “trezentos, trezentos e cinquenta”. Entre as múltiplas facetas do escritor estava a de musicólogo. E não se tratava de uma derivação de sua principal atribuição intelectual. Quando se consideram as obras completas de Mário de Andrade, há mais títulos dedicados à música que a qualquer outro assunto, mesmo a literatura.

O autor de Macunaíma e Amar verbo intransitivo começou a vida como professor de música no Conservatório de São Paulo, escreveu sobre história e estética musical e chegou mesmo a ensaiar uma composição, Viola quebrada, que nasceu da influência confessa de Catulo da Paixão Cearense. Mário de Andrade foi ainda pianista (não chegou a concertista em razão de um tremor nas mãos adquirido depois da perda do irmão) e pesquisador da cultura musical popular.

Entre seus livros sobre o tema se encontram uma história da música ocidental, ensaios sobre autores como Chopin e Wagner, estudos sobre danças dramáticas, artigos sobre os músicos modernistas. Sua abordagem sobre a música, que mescla pesquisa histórica, antropologia e sociologia, vai ajudar a definir o projeto estético do modernismo. Mais que um elemento entre outros, é possível defender que a música ocupava papel central no pensamento de Mário de Andrade. Não é um acaso que os primeiros escritos, de 1915, e os derradeiros, do ano de sua morte, em 1945, tratem da questão.

O livro O grão perfumado – Mário de Andrade e a arte do inacabado, de Paulo Sérgio Malheiros dos Santos (Editora PUC Minas), destaca exatamente a importância da música na vida e no pensamento do escritor. Ao analisar textos menos valorizados do autor modernista, como apontamentos para aulas (Mário de Andrade escrevia cuidadosamente suas aulas e palestras) e um discurso de formatura destinado aos alunos do Conservatório de São Paulo, em 1935, Mário parece somar elementos que ajudam a compreender sua postura ética e suas ideias estéticas mais gerais.

É sempre preciso lembrar que a carreira intelectual de Mário de Andrade se deu em meio a um momento de mudanças, de certa forma condensadas no projeto do modernismo. Nessa trajetória, sua atuação ia da filosofia à política, seja por seus escritos na imprensa ou pela atuação em espaços públicos e posições na estrutura burocrática. Além desses papéis, Mário exercia, por meio de cartas e orientações diretas a jovens e artistas em busca de rumo, uma função essencial na cultura brasileira. No cruzamento de tantos caminhos, foram sendo debatidas noções como moderno, nacional, popular, erudito, folclore, renovação e tradição.

O livro O grão perfumado – Mário de Andrade e a arte do inacabado analisa esse trajeto. Paulo Sérgio Malheiros dos Santos, na introdução de seu trabalho, destaca a importância da música na vida do escritor. Identifica sua presença já nos primeiros versos do poeta, indica a marca da arte dos cantadores em suas obras mais maduras, estabelece a relação entre o interesse conjunto pela literatura e música. O autor recupera os primeiros trabalhos como crítico de música e professor, antes da eclosão da Semana de Arte Moderna de 1922. E mostra como, depois disso, mesmo ligado às vanguardas, Mário de Andrade nunca abandona o interesse pela pesquisa da arte popular e das tradições.

Aulas e conferências O livro se divide em quatro capítulos, cada um deles inspirado por um texto andradiano dedicado à reflexão sobre música e estética. O primeiro é “Manifestação musical” e faz parte de anotações para um curso de estética musical ministrado em 1925, que ficou inédito por várias décadas (a primeira versão publicada apareceu em 1995). Mário de Andrade defende que o artista vive em desarmonia com seu mundo, tendo como única saída para sua solidão o terreno da criação. No entanto, ele chega a manifestar o que ele chama de “desejo-de-amigo”, uma busca do outro como saída para a clausura da Rua Lopes Chaves e consequente luta aberta contra os passadismos. Esse é o mote para Paulo Sérgio tratar da relação de Mário de Andrade com a rica década de 1920, com a força de suas vanguardas, mas sem perder a dimensão do nacionalismo. É por se julgar responsável que Mário assume a posição de liderança, seja em artigos na imprensa, seja ao aceitar o cargo de chefe do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.

O segundo texto analisado é o discurso que Mário de Andrade profere em 1935 aos formandos do conservatório. Depois de manifestar o impulso ao “desejo-de-amigo”, o escritor assume seu papel político e passa a refletir sobre temas como a função social da arte. Mas é também um tempo de importantes análises acerca do papel social do artista, sem esconder, em alguns momentos, sua decepção com o cargo público e certo derrotismo em razão do cenário político autoritário (Estado Novo).

O terceiro capítulo parte da aula inaugural proferida em 1938 na Universidade do Distrito Federal. Depois do afastamento do cargo público, Mário de Andrade está de volta à literatura e à música, e trata em seu trabalho de distinções entre o artista e o artesão, trazendo para o debate autores ligados à filosofia romântica e ao neotomismo. Um debate que tem motivações filosóficas e que não foge à interlocução com outros pensadores.

O último capítulo analisa a atualidade de Chopin e parte também de um texto com raízes didáticas. Em 1942, Mário parece encontrar no compositor polonês uma espécie de síntese entre o impulso íntimo e o “desejo-de-amigo”, que faz com que a obra de Chopin, personalíssima, se torne tão popular. Paulo Sérgio, a partir dessa conferência, analisa a presença de artistas coloniais nas reflexões de Mário de Andrade, como Aleijadinho e José Maurício, de pintores modernistas, como Portinari e Anita Malfatti, concluindo com as análises afetivas da arte popular do cantador nordestino Chico Antônio e das atribulações para a composição da ópera Café.

A análise do significado da obra de Aleijadinho por Mário de Andrade, ainda que marcada pela ambientação modernista em sua busca de raízes nacionais, é um primor de realização crítica. O escritor conjuga elementos psicológicos e estéticos, propõe comparações ousadas com escolas artísticas (o barroco e o expressionismo), se aprofunda em detalhes técnicos que diferenciam o trabalho de escultura em madeira e pedra-sabão e, por fim, resgata a obra do artista do desdém neoclássico e propõe a primeira interpretação social do artista.

Pela abrangência e segurança em traçar a trajetória do pensamento estético de Mário de Andrade, O grão perfumado é um livro que se inscreve no exigente circuito da história das ideias. Conduzido por Mário de Andrade, o leitor é convidado a refletir sobre a cultura brasileira e as pessoas que se empenham em construí-la em meio a tantos desafios. Sempre lúcido, não se pode dizer que Mário de Andrade tenha encontrado um caminho feliz. Mas mesmo assim não é possível imaginar outra vida para o artista e pensador. Quem, hoje, numa sociedade siderada pelo mercado, estaria disposto a assumir na carne esse projeto de renovação? Mário de Andrade ainda faz muita falta.

O grão perfumado – Mário de Andrade e a arte do inacabado
• De Paulo Sérgio Malheiros dos Santos
• Editora PUC Minas
• 278 páginas


O autor

Paulo Sérgio Malheiros dos Santos é pianista e doutor em literatura pela PUC Minas. É professor de piano, história da música e música de câmara da Escola de Música da Uemg. É autor do livro Músico, doce, músico (Editora UFMG), que analisa a relação entre música a literatura na obra de Mário de Andrade.

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