Alan Pauls, que aliás cita Cortázar no livro, é da rara família dos que reinventam a literatura, a nos fazer, leitores, testemunhas surpresas com a novidade: “Então pode ser assim?”. Pode. 'A vida descalço' é um ensaio com uma toada ficcional porque memorialística. Se não lermos a ficha catalográfica, chegaremos a um terço do volume incapazes de definir se se trata de uma narrativa ou de ensaísmo. Claro: as pistas, poucas mas consistentes, já se mostravam desde o começo, nas citações, eventuais, de filmes, de autores. Porém, como a literatura contemporânea promove a mescla de procedimentos de diversos gêneros, o tom evocativo e a funda poesia imersa na emoção com que o narrador constata esse planeta à parte – a praia – levam o texto a um registro mais que singular, único: o de Alan Pauls. Um tecido verbal totalizante, capaz de trazer à tona um mundo que nunca suporíamos submerso.
Longe, o mar Essencial destacar que na especificidade – marca maior do autor – a praia é o território eleito, e por praia, a princípio, vem a visão do menino, recorrente porque fundadora. Que visão pode ter uma criança que não seja a fímbria da orla? Uma faixa de terra sedutora, a trazer a paz de um murmúrio que do mar emana e que altera nossa audição, nossas vozes, nossa percepção das coisas em volta. O mar é outra coisa, espaço além e nervoso, e, embora faça parte da praia, está distante demais (e assim ausente) dessa praia a que o escritor nomeia.
Por isso nela a vida que há inclui o narrador (vida que o mar ameaçaria). E por isso nessa praia a vida liberta pode ganhar terreno, descalça.
Alan Pauls não fala apenas de uma praia, mas sobre mais de uma. Em mais de um país. Praias em países quentes e praias em países frios. Com isso afirma a universal particularidade que torna, mesmo as mais diferentes praias, num espaço tão à parte no planeta. Chega a compará-las ao deserto.
Longe da praia, em plena cidade, nossos movimentos são feitos mais de costume que de liberdade.
Definitivamente, um modo absolutamente novo de escrever um ensaio, com a mente aberta ao vasto céu da praia e os pés livres para correrem com os infinitos parágrafos.
* Paulo Bentancur é escritor e crítico.
A vida descalço
. De Alan Pauls, tradução de Josely Vianna Baptista
. Editora Cosac Naify
. 96 páginas, R$ 45