Dor no joelho cresce com sobrepeso e pressiona a saúde em MG

Belo Horizonte lidera obesidade no Sudeste, pressionando cirurgias ortopédicas e ampliando filas no SUS em todo o estado mineiro

A demora em procurar um ortopedista especializado em joelho costuma ter um custo que o paciente só percebe depois Freepik
A demora em procurar um ortopedista especializado em joelho costuma ter um custo que o paciente só percebe depois
clock 29/04/2026 16:45
compartilhe icone facebook icone twitter icone whatsapp SIGA NO google-news

 

A queixa que antes aparecia no consultório do clínico geral como um detalhe ao final da consulta, hoje passou a liderar os motivos de atendimento. Em Minas Gerais, a dor no joelho passou a competir com lombalgia entre as principais causas de afastamento do trabalho e de procura por atendimento ortopédico.

Leia Mais

 

O perfil do paciente também mudou. Não se trata mais apenas do idoso com artrose avançada. A faixa de 35 a 55 anos hoje responde por uma parcela crescente das consultas, com pacientes relatando dor persistente, inchaço recorrente e dificuldade para subir escadas.

 

O dado mais recente da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, ajuda a entender por que isso acontece. Belo Horizonte aparece como a capital com maior índice de obesidade do Sudeste e ocupa a quarta posição no ranking nacional.

 

Cerca de 43,69% dos belo-horizontinos adultos se enquadram no diagnóstico de obesidade. Quando o sobrepeso entra na conta, o número salta para 74,16% da população acima do peso ideal. A capital mineira concentra um problema que pesa, literalmente, sobre as articulações da população em idade produtiva.

 

A relação entre peso e joelho é mecânica e direta. Cada quilo a mais no corpo gera aproximadamente quatro quilos de carga adicional sobre a articulação do joelho durante a caminhada.

 

Em descidas de escada e corridas, essa proporção pode chegar a sete vezes o peso corporal. Um adulto com dez quilos de excesso, portanto, está submetendo seus joelhos a quarenta quilos extras de pressão a cada passo, ao longo de todos os dias.

 

 

O problema deixou o consultório e chegou às filas do SUS 

 

 

A consequência epidemiológica desse cenário não é discreta. Dados do DATASUS apontam que as artroplastias totais de joelho no sistema público brasileiro cresceram de 4.894 procedimentos em 2009 para 7.649 em 2018, um aumento de 56,3% em apenas uma década.

 

Após a queda registrada durante a pandemia, o volume voltou a subir e ultrapassou os patamares pré-2020, segundo levantamentos publicados na Revista Brasileira de Ortopedia.

 

Minas Gerais sente o impacto dessa curva. O estado figura entre os que mais demandam próteses de joelho na rede pública do Sudeste, e a fila de espera nas regionais de saúde tem se mantido alta, mesmo com a realização de mutirões periódicos.

 

O Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia chegou a registrar, em determinado momento, 21,2 mil pacientes aguardando cirurgia ortopédica em todo o país, e parte significativa dessa demanda vem do Sudeste.

 

A osteoartrose, popularmente conhecida como artrose, é a principal responsável por essas cirurgias. De acordo com o INTO, ligado ao Ministério da Saúde, a doença atinge cerca de 12% da população mundial com mais de 60 anos e representa a principal causa de incapacidade física crônica em pessoas acima dessa faixa etária. O detalhe que costuma passar despercebido é que a doença começa a se instalar muito antes dos 60.

 

"As primeiras alterações de cartilagem aparecem na faixa dos 40 e se tornam clinicamente relevantes a partir dos 50, quando o paciente já não consegue praticar atividades que executava com facilidade pouco tempo antes", observou o Dr. Ulbiramar Correia, médico ortopedista de joelho em Goiânia.

 

 

Esporte amador, trânsito e trabalho repetitivo: o tripé que sobrecarrega o joelho 

 

Belo Horizonte é uma das capitais com maior número de praticantes de corrida de rua e ciclismo no país, e o Inter-Bairros, o Réveillon na Praça da Estação e as provas de Nova Lima movimentam multidões a cada calendário.

 

O esporte amador, no entanto, raramente vem acompanhado de avaliação ortopédica prévia, e lesões de menisco e ligamento cruzado anterior aparecem em pacientes mais jovens do que os manuais ortopédicos descreviam até pouco tempo atrás.

 

Um estudo brasileiro publicado em 2019 mostrou que a incidência anual de lesões de ligamento cruzado anterior chega a 78 casos por 100 mil pessoas em populações esportivamente ativas, e que entre 50% e 70% desses casos vêm acompanhados de lesão de menisco no mesmo joelho.

 

 

 

 

Em Minas Gerais, onde a topografia montanhosa impõe ladeiras frequentes ao deslocamento urbano, o impacto sobre a articulação se soma ao gerado pela atividade física desorganizada.

 

Há ainda o fator ocupacional. Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE indica que cerca de 23,4% dos adultos brasileiros relatam algum problema crônico de coluna ou articulações, e categorias como construção civil, agricultura, comércio em pé e serviços domésticos concentram parte expressiva desses casos.

 

Em cidades do interior mineiro com forte presença industrial, como Betim, Sete Lagoas e Juiz de Fora, o desgaste articular aparece em pacientes mais jovens do que a média nacional, em decorrência da carga repetitiva e do peso corporal levantado em jornada.

 

 

Quando a dor deixa de ser apenas muscular 

 

O erro mais comum cometido pelos pacientes mineiros, segundo relatos colhidos em ambulatórios públicos da Região Metropolitana de Belo Horizonte, é tratar a dor de joelho como um problema muscular durante meses, às vezes anos.

 

Compressas, anti-inflamatórios de farmácia e fisioterapia improvisada conseguem mascarar o sintoma, mas não interrompem a degradação da cartilagem.

 

Os sinais que exigem avaliação especializada são bem definidos. Dor que persiste por mais de seis semanas, mesmo em repouso. Inchaço recorrente após atividades simples como caminhar até o ônibus ou subir um lance de escada.

 

Estalos audíveis acompanhados de dor. Sensação de que o joelho falseia em movimentos comuns. Limitação para dobrar a perna ao sentar ou levantar. Quando dois ou mais desses sintomas aparecem juntos, o paciente já saiu do estágio em que medidas conservadoras isoladas resolvem.

 

A escolha do especialista influencia diretamente o desfecho 

 

 

A demora em procurar um ortopedista especializado em joelho costuma ter um custo que o paciente só percebe depois. Lesões de menisco diagnosticadas tardiamente progridem para artrose precoce.

 

Rupturas de ligamento cruzado não tratadas levam à instabilidade crônica e ao desgaste assimétrico da articulação. Casos que poderiam ser resolvidos com fisioterapia ou artroscopia minimamente invasiva acabam exigindo prótese total de joelho dez ou quinze anos depois.

 

A escolha do profissional também faz diferença concreta no resultado. A ortopedia é uma especialidade ampla, e dentro dela existem subespecialidades reconhecidas pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, como cirurgia do joelho, cirurgia da coluna, ombro e cotovelo, mão, quadril e pé e tornozelo. Conhecer o histórico, a formação e o volume cirúrgico de profissionais da área se tornou parte da rotina de quem busca tratamento.

 

Plataformas como o Conselho Regional de Medicina e os perfis institucionais de melhores ortopedistas reúnem informações de credenciamento, registros de RQE e atualização científica que ajudam o paciente a verificar se o médico realmente tem subespecialização naquela articulação específica.

 

Para o caso do joelho, a recomendação das sociedades médicas é clara. O paciente deve buscar um ortopedista que tenha cursado residência em ortopedia e traumatologia e, em seguida, especialização em cirurgia do joelho, com filiação à Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho ou à Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte.

 

O número de procedimentos realizados por ano também é um indicador relevante, já que o domínio técnico em artroplastia e artroscopia depende de volume cirúrgico.

 

 

Goiânia e o avanço do turismo médico ortopédico

 

 

Embora Minas Gerais tenha rede ortopédica estruturada em Belo Horizonte, Uberlândia, Juiz de Fora e Montes Claros, o turismo médico para procedimentos de joelho cresceu na última década, e parte dos pacientes mineiros tem se deslocado para o Centro-Oeste em busca de cirurgiões com agenda mais rápida e menor custo total.

 

Goiânia, por exemplo, concentra cerca de 85% das artroplastias de joelho realizadas pelo SUS no estado de Goiás, conforme análise publicada na revista do CEREM-GO com base em dados do DATASUS. Estima-se que 57% dos visitantes que chegam à capital goiana para tratamento de saúde busquem atendimento especializado, incluindo procedimentos ortopédicos.

 

A consolidação de polos regionais de ortopedia atende a uma demanda represada do paciente brasileiro. As regiões Sul e Sudeste, segundo levantamento da Revista Brasileira de Ortopedia, mantêm as melhores relações assistenciais para artroplastia de joelho, com 8,07 e 6,07 procedimentos por 100 mil habitantes, respectivamente.

 

Mas o tempo médio de espera ainda é apontado como o principal gargalo por associações de pacientes em Belo Horizonte e no interior. Para muitos mineiros, a alternativa de buscar um ortopedista de joelho com agenda aberta em outra capital se tornou um caminho viável, especialmente em casos avançados que não admitem espera prolongada sem comprometer a função articular.

 

 

Prevenção ainda é o ponto crítico no enfrentamento do problema 

 

 

A literatura ortopédica é consistente quanto ao papel do peso corporal na proteção articular. Reduções de cinco a dez quilos em pacientes obesos diminuem significativamente a dor e atrasam a evolução da artrose, segundo metanálises publicadas pela revista britânica The Lancet. O fortalecimento de quadríceps e glúteos, por sua vez, redistribui carga sobre a articulação e reduz a sobrecarga sobre a cartilagem.

 

A atividade física orientada, com avaliação prévia, costuma ser melhor recebida pelo paciente quando entra como prescrição médica do que quando aparece como sugestão genérica.

 

Em Belo Horizonte, programas como o Academia da Cidade oferecem acompanhamento gratuito em mais de setenta polos espalhados pela capital, com instrutores capacitados a adaptar exercícios para quem tem dor articular.

 

A integração entre ortopedia, fisioterapia e educação física estruturada é o que diferencia o paciente que envelhece com mobilidade preservada daquele que entra em fila de prótese aos 65 anos.

 

Desafios para o sistema de saúde mineiro 

 

 

A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais tem ampliado o número de centros de referência ortopédica nas macrorregiões, mas o tempo de espera para cirurgia eletiva de joelho ainda supera a média recomendada pelo próprio Ministério da Saúde em várias regionais.

 

O envelhecimento da população mineira, somado ao avanço da obesidade entre adultos jovens, sugere que a demanda continuará crescendo. Projeções do IBGE indicam que o número de brasileiros com mais de 60 anos deve ultrapassar 58 milhões até 2060, e Minas Gerais é hoje o segundo estado mais populoso do país.

 

Diante desse cenário, especialistas defendem três frentes simultâneas. A primeira é o reforço da atenção básica para diagnóstico precoce de osteoartrose, com encaminhamento ágil para fisioterapia antes da progressão.

 

A segunda é o investimento em centros regionais de cirurgia ortopédica fora de Belo Horizonte, descentralizando o atendimento de média e alta complexidade. A terceira, talvez a mais difícil, é a integração entre saúde pública e políticas de combate à obesidade, já que sem reduzir a carga sobre a articulação, nenhum sistema sobrevive ao volume de cirurgias projetado.

 

A dor no joelho deixou de ser um problema individual e privado para se tornar um indicador de saúde pública mineira. Tratá-la com a mesma prioridade que doenças cardiovasculares e diabetes, com as quais frequentemente coexiste, é o que separa um sistema que cuida de seus pacientes daquele que os atende apenas quando a única saída restante é a sala de cirurgia.


compartilhe icone facebook icone twitter icone whatsapp
x