Silva e Carne Doce lançam trabalhos nas plataformas digitais

Cantor e compositor capixaba divulga disco de sua turnê por Portugal; banda goiana solta single de seu futuro quarto álbum, previsto para este ano

Guilherme Augusto 22/05/2020 07:21
Juliana Amorim/Divulgação
Silva, cantor e compositor (foto: Juliana Amorim/Divulgação )

Com a agenda de shows suspensa em decorrência da pandemia do novo coronavírus, Silva aproveitou os dias em casa para mergulhar nos arquivos de seu computador. Ao encontrar as gravações da turnê que realizou em Portugal, no ano passado, o cantor e compositor capixaba resolveu divulgar esse material na forma do disco Ao vivo em Lisboa, que chega nesta sexta-feira (22) às plataformas digitais e será a base do show on-line que ele realiza no domingo (24), às 18h, em seu canal no YouTube.

“Desde o final de 2018, tenho gravado quase todos os shows que faço. Quando parei para escutar esse material, logo que entramos na quarentena, percebi que ele estava muito bem gravado. Preparei-me para me apresentar em algumas cidades de Portugal um pouco depois do carnaval de 2019. Em Lisboa, foram seis shows em três dias, com duas sessões por dia”, conta o músico.

CAPITÓLIO


Realizadas no Cineteatro Capitólio, as apresentações foram uma versão minimalista do show do disco Brasileiro (2018). “Naquele momento, era nova a experiência de me apresentar só com violão e percussão, acompanhado de meu amigo e percussionista Hugo Coutinho. Imaginei que as pessoas que gostam da minha música iriam gostar de ouvi-la nessas versões mais intimistas.”

No repertório, além dos temas autorais, Silva reserva um espaço especial para canções compostas por Pixinguinha, Martinho da Vila e Caetano Veloso. O cantor ainda inclui versões de (There is) No greater love, clássico associado à cantora norte-americana Billie Holiday (1915-1959); Um girassol da cor do seu cabelo, de Lô e Marcio Borges; e Que maravilha, de Jorge Ben e Toquinho.

Este é o segundo disco ao vivo que Silva lança em seis meses e o quarto de sua carreira. Em novembro passado, ele liberou Bloco do Silva ao vivo, registro do espetáculo com músicas de carnaval que ele apresentava pelo Brasil desde janeiro de 2019, até ser interrompido pela pandemia. Antes disso, o capixaba lançou Silva canta Marisa ao vivo (2017) e Vista pro mar ao vivo (2015).

No novo álbum, Silva acentua a função de cantor e intérprete que assumiu mais recentemente. Sem a parafernália eletrônica comum aos seus três primeiros discos – Claridão (2012), Vista pro mar (2014) e Júpiter (2014) –, ele tem encarado a função com mais conforto, o que se revela nos discos Silva canta Marisa (2016) e Brasileiro.

“Foi um processo longo para que eu chegasse na música que faço hoje. Eu me via mais como um músico e produtor do que propriamente um cantor”, afirma. “Com o tempo, fui gostando mais da minha voz e sentindo que esse era o jeito que mais gostava de me expressar. Tive um superprivilégio de nascer numa família que, embora simples, ama música e arte mais do que qualquer coisa. Graças a eles, tive a chance de estudar violino, piano, violão e baixo. Isso me deu autonomia para fazer meu som, sem depender dos grandes produtores. Considero um privilégio poder ser livre para fazer a música que quero. Talvez seja por isso que mudo tanto, porque enjoo de fazer as coisas do mesmo jeito.”

Incansável, ele não tira férias desde que assinou com o selo Slap, da gravadora Som Livre, em 2012, e tem aproveitado os dias em casa para começar a trabalhar no próximo projeto, ainda sem previsão de lançamento. “Neste momento, eu e meu irmão, Lucas, que além de meu empresário é também meu maior parceiro de composição, já escrevemos juntos umas 20 músicas. Ao menos compondo nós já estamos”, adianta.

Apesar disso, nem todos os dias de confinamento têm sido fáceis. “No começo, foi difícil lidar com a ansiedade e com essa sensação de caos total. Mas, com o tempo, fui encontrando um pouco mais de paz interna. Continuo bem preocupado com o rumo que as coisas no nosso país vão tomar com essa pandemia. É triste ver tantas pessoas morrendo todo dia pelo vírus e, ao mesmo tempo, é revoltante saber que um garoto chamado João Pedro foi baleado esta semana, aos 14 anos, no meio desse caos, por causa de outros problemas gravíssimos que ainda nem começamos a consertar.”

“Também perdi um primo da mesma idade, que morava numa comunidade aqui em Vitória, o João Vitor, morto pelos mesmos prováveis motivos. O que posso fazer sobre isso? Pergunto-me isso todos os dias e gosto de ouvir as respostas de pessoas mais experientes que eu para tentar fazer algo relevante. Enquanto isso, acredito que posso contribuir com minha música e espero que ela ajude a acalmar o coração dos que precisam disso agora.”

AO VIVO EM LISBOA
• Silva
• Slap
• Disponível nas plataformas digitais a partir desta sexta (22)

...DE SER INFELIZ

Carne Doce lança nova música enquanto enfrenta a insegurança sobre o próprio futuro

Macloys Aquino/Divulgação
Salma Jô, vocalista da banda Carne Doce (foto: Macloys Aquino/Divulgação )

Na última vez em que se apresentou em BH, em outubro passado, a música inédita que foi incluída no repertório do show dava a impressão de que a banda goiana Carne Doce tentava se reconectar com seus trabalhos iniciais, em especial o disco homônimo, de 2014. Lançada oficialmente em janeiro, Temporal, uma canção de generosos sete minutos, confirma essa teoria, enquanto Passarin e Saudade, os outros dois singles lançados em 2020, a reiteram.

Nesta sexta-feira (22), a banda mostra uma nova faceta do próximo registro de estúdio com o lançamento da música A chegada, inspirada no conto homônimo de Lygia Fagundes Telles. “Ela é uma composição bem particular entre essas novas e não é de um território que a gente costuma experimentar muito”, diz a vocalista e compositora Salma Jô.

“A cada disco tem uma música assim, mais sombria e abstrata. Acho que a levada meio reggae é o mais novo para nós e, ainda que a letra seja inspirada num conto, não me preocupei em ser fiel à história, deixei que ela se dissolvesse.”

Sem dúvida, a canção traz uma sonoridade diferente dos singles anteriores, só não dá para dizer que ela está num lugar inexplorado para a banda, já que ecoa o que a Carne Doce trabalhou em Princesa (2016) e Tônus (2018). As bem trabalhadas guitarras de Macloys Aquino e João Victor Santana Campos estão lá, assim como as belas linhas de baixo de Anderson Maia. Mais recente integrante do grupo, Fred Valle, o baterista, ganha papel de destaque na canção. Sua percussão rápida permite viradas interessantes. Tudo isso embalado pela inconfundível voz de Salma.

PEQUI

Para a identidade visual, a banda segue fiel ao pequi, seu jeito de se afirmar como um grupo originário do “interior do Brasil, esse lugar no meio”. “Quanto mais viajamos em turnê, mais a gente se compreendeu e se percebeu como brasileiros, artistas do interior, e vimos que a maior parte do país também se percebe assim”, conta Salma Jô.

Originalmente previsto para ser lançado em junho, o quarto disco (ainda sem título) agora está com a data de lançamento indefinida. A pandemia do novo coronavírus e a recomendação de distanciamento social impediram que a Carne Doce finalizasse o trabalho a tempo. “Assim que acabar a quarentena, a gente termina de gravar. Falta pouco, mas não podemos prometer datas.”

Sem agenda de shows desde o início de março e isolados em casa, em Goiânia, os integrantes da banda têm se reinventado para manter uma fonte de renda. “O que tem nos salvado é o streaming, porque nossa principal renda como banda independente vem dos shows. Então, é um momento de crise e insegurança. Somos uma banda pequena. Não temos um caixa que vá nos sustentar por muitos meses mais. As lives serão um remédio, mas não as vejo sustentáveis por muito tempo. De todo modo, elas não são uma alternativa para toda a equipe – técnicos de som, de luz e palco – que geralmente contratamos. Não queremos que elas sejam uma alternativa.”

Salma Jô não acredita que o mundo será um lugar melhor depois do coronavírus. “Estou um pouco pessimista, não no sentido de que não teremos mais uma vida normal, como alguns falam, mas acho que voltaremos mais ansiosos, nervosos, impacientes, tristes, e vai levar um tempo para superar este momento.”

Rogério Watanabe/Divulgação
(foto: Rogério Watanabe/Divulgação)

A CHEGADA
• Carne Doce
• Independente
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