Conheça o irmão de Caetano e Bethânia que administra a casa de Dona Canô

Rodrigo Velloso cuida da residência da matriarca do clã, que se tornou ponto turístico de Santo Amaro da Purificação, onde ele comandou a Secretaria de Cultura por dois mandatos

Irlan Rocha Lima 18/02/2020 06:00
Iugh Mattar/divulgação
Rodrigo Velloso (foto: Iugh Mattar/divulgação)

Rodrigo Antônio Viana Telles Velloso é uma das pessoas mais conhecidas e queridas de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Integrante do clã ao qual pertencem dois ícones da música popular brasileira, os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia, ele foi, por oito anos, secretário de Cultura da cidade baiana, que é berço do samba de roda.

Aos 85 anos, recém-completados, Rodrigo é, desde a morte da matriarca, Dona Canô, em dezembro de 2013, o guardião da casa dos Velloso. É lá que os familiares se reúnem em algumas oportunidades, durante o ano. A mais recente foi no último dia 2, data que marca o encerramento dos festejos comemorativos da padroeira Nossa Senhora da Purificação, iniciados em 24 de janeiro.
Lugar aconchegante, a edificação, com várias dependências, tem como parte mais importante a sala de jantar. Ali, destaca-se uma grande mesa, onde são servidos quitutes à família, com base no livro O sal é um dom – Receitas de Mãe Canô, escrito por Mabel Velloso, a irmã mais velha.

Na entrevista a seguir, Rodrigo fala sobre a relação de sua família com a arte e as conversas que temperam as refeições dos Velloso, em Santo Amaro.

Caetano Veloso e Maria Bethânia, expoentes da MPB; Mabel Velloso, poeta e escritora; e você, ex-secretário de Cultura de Santo Amaro. O que os levou a ter um grande envolvimento com a arte?
Acredito que foi a forma como fomos educados. Minha mãe, sempre ligada à arte, vivia cantando. Meu pai, atento à literatura, gostava de recitar poemas. Aqui em casa, ouvíamos muito rádio. Graças à minha mãe e ao rádio, Caetano pôde formar seu vasto conhecimento sobre a história da música brasileira.

Nas reuniões da família, a arte é um dos assuntos predominantes?
Quando nos reunimos à mesa, para o almoço e o jantar, conversamos sobre arte, mas o assunto mais presente são recordações da família. Bethânia, por exemplo, gosta de tirar dúvidas sobre fatos e coisas da infância e da adolescência. Nessa última reunião, todos os irmãos estavam presentes. Caetano, que costuma ficar em Salvador em 2 de fevereiro para saudar Iemanjá, em sua casa no Rio Vermelho, desta vez também veio. E chegou dizendo que estava com fome.

Quem prepara os quitutes servidos nessas reuniões?
Bárbara e Edinha são responsáveis pela preparação da comida. Edinha é filha de uma antiga cozinheira da família, e vem sempre ajudar a Bárbara, quando nos reunimos, geralmente para almoço. Nunca podem faltar à mesa pratos com as receitas de minha mãe, principalmente os doces.

São feitas regalias para Caetano e Bethânia?
Não tem isso, não. Talvez seja esse o grande trunfo da família. Tratamo-nos como irmãos e amigos que somos. Nós nos comunicamos com muita frequência. Com Caetano, menos, porque ele não tem celular e não gosta de falar ao telefone. Quando precisamos resolver alguma coisa em relação à casa, Paulinha (Paula Lavigne) é quem toma a frente. Moreno, Zeca, Tom e outros sobrinhos que moram em Salvador também costumam aparecer por aqui.

O que você destaca em sua atuação como secretário de Cultura de Santo Amaro? 
Fui secretário por duas vezes. Busquei dar ênfase ao resgate de manifestações culturais da região, que estavam enfraquecidas, como bumba-meu-boi, a burrinha e negro fugido. Revitalizei o Bembé do Mercado, manifestação cultural centenária de Santo Amaro ligada ao culto de matriz africana. Livros foram lançados sobre essa manifestação, que é patrimônio cultural do Brasil. Promovi, ainda, a restauração de prédios históricos, como os da Igreja do Amparo e da prefeitura.

Tanto Caetano quanto Bethânia têm difundido Santo Amaro como um polo de cultura em função do samba de roda. No CD mais recente, Bethânia homenageou a Mangueira, mas levou a sonoridade do samba de roda para o disco. Como vê isso?
Eles vivem fora, mas o amor que têm por Santo Amaro é imenso. Nada mais natural que propaguem e celebrem nossa música. Quando a Mangueira homenageou Bethânia, com o enredo Menina dos olhos de Oyá, fomos todos para o Rio de Janeiro e assistimos ao desfile campeão num camarote. Nós nos emocionamos muito com o título conquistado pela Mangueira e pela reverência à nossa irmã.

A Casa de Dona Canô se tornou um ponto turístico de Santo Amaro, com direito a placa e tudo o mais. Como administra a frequência com que as pessoas a visitam?
Busco atender os que querem conhecer a casa, que é uma referência em Santo Amaro. Vem gente de todo o país querendo conhecer a Casa de Dona Canô. Ela sempre foi uma pessoa muito ativa, mesmo na velhice, e era ligada aos trabalhos sociais. Distribuía cestas básicas para os mais carentes e peixe na semana santa para famílias pobres, além de colchões e cobertores no inverno. Ela dizia que, se fosse mais nova, queria ser prefeita da cidade.

Ela era, ao mesmo tempo, amiga de Lula e de Antônio Carlos Magalhães. Como via essa dicotomia?
Minha mãe adorava o Lula, ela o recebia aqui em casa para almoço e conversavam sobre política e as ações de Lula em prol dos mais necessitados. Mas, por outro lado, gostava de ACM, que também costumava visitá-la. Ela era assim.

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