Reapresentação da ópera Alma é destaque no festival de Manaus

Obra de Claudio Santoro ganha novo fôlego no centenário de nascimento do compositor amazonense

por Estado de Minas 03/06/2019 08:50
Agência Febre/divulgação
Claudio Santoro é um dos compositores mais importantes do Brasil (foto: Agência Febre/divulgação )
O centenário de Claudio Santoro (1919-1989) é marcado pela reavaliação do legado desse compositor, violinista e maestro amazonense. Desde o fim de 2018, a Orquestra Filarmônica de Goiás vem gravando todas as sinfonias criadas por ele. O regente britânico Neil Thomson, responsável pelo projeto, não esconde a admiração pela obra que, acredita, tem importância comparável à de Dmitri Shostakovich no cenário da música do século 20.

No fim deste mês, o barítono Paulo Szot vai registrar com o pianista Nahim Marun todas as canções de Santoro. Sua produção musical tem sido programada por orquestras e conjuntos de câmara em várias partes do país, revelando uma obra que vai do nacionalismo à vanguarda mais experimental.

Nesse contexto, o resgate de Alma representa um marco importante. Na quinta-feira passada, a montagem encerrou o 22º Festival Amazonas de Ópera (FAO), em Manaus. O público pode ouvir uma nova edição, com correções de notas, intenções dramáticas e acréscimos importantes, de acordo com o maestro Marcelo de Jesus, responsável pela direção musical do espetáculo. “Foi um trabalho intenso de revisão, de redescoberta do sentido dramático da obra”, explicou.

Alma estreou em 1998, na capital do Amazonas. Agora, foi executada sem cortes, com revisões feitas pelo autor pouco antes de morrer, descobertas no início deste ano por Alessandro Santoro, filho dele.

Baseada em romance de Oswald de Andrade, integra a primeira parte da trilogia Os condenados. O autor leu trechos na Semana de Arte Moderna, em 1922, provocando grande comoção e dividindo a crítica, tanto pela forma quanto pelo conteúdo.

O enredo é intenso, violento ao romper com a ideia do amor romântico. A prostituta Alma sofre nas mãos do cafetão Mauro, do qual não consegue se distanciar. De outro lado, há o telegrafista João do Carmo, apaixonado por ela, mas incapaz de viver a seu lado, o que o leva ao suicídio.

“Santoro mantém a estrutura fragmentada do romance, quase cinematográfica”, afirma Jesus. “Isso é muito interessante do ponto de vista dramático, mas cria uma dificuldade na hora de narrar a história. A cada parágrafo estamos em um lugar diferente, em um tempo diferente, é algo profundamente moderno”, explica a diretora cênica Julianna Santos, que criou no palco, apoiada pela brilhante cenografia de Giorgia Massetani, diferentes caixas, planos que se sobrepõem. Coube à mezzo-soprano Denise de Freitas interpretar o papel-título.

CARREIRA Menino prodígio, Claudio Santoro começou a estudar violino aos 11 anos, em Manaus. Ganhou uma bolsa de estudos no Conservatório de Música do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, e, aos 17, tornou-se professor da instituição. Um dos fundadores da Orquestra Sinfônica Brasileira, foi aluno de Hans-Joachim Koellreutter, pioneiro do dodecafonismo. Participou do Música Viva, grupo criado por esse mestre. O amazonense estudou com a conceituada musicista Nadia Boulanger, em Paris, e, nos anos 1950, atuou como regente na Europa.

Homem de esquerda, lecionou na recém-criada Universidade de Brasília (UnB), mas se afastou do cargo após o golpe militar de 1964 e se exilou na Europa, conquistando renome internacional. Santoro voltou à UnB em 1978. Dirigiu a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília até morrer, em 1989. Compôs 14 sinfonias, além de temas para cinema e peças radiofônicas.

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