Em novo disco, Mautner convoca Jesus, Oxóssi e Joaquim Nabuco para salvar o país

No álbum Não há abismo em que o Brasil caiba, o compositor defende a 'segunda abolição' e diz que a saída para a crise está na cultura construída pelo povo. Política, religião e psicanálise inspiraram as novas canções

por Mariana Peixoto 28/05/2019 08:30
Gustavo Peres/Divulgação
(foto: Gustavo Peres/Divulgação )

Música, literatura, política, família, vida e morte. Tudo anda junto na obra de Jorge Mautner. Aos 78 anos, o cantor, compositor, escritor e demiurgo das artes no país volta à cena com o álbum Não há abismo em que o Brasil caiba.

O primeiro disco de inéditas desde Revirão (2006) marca o encontro de Mautner com a banda Tono – Ana Cláudia Lomelino (voz), Bem Gil (guitarra), Rafael Rocha (bateria) e Bruno Di Lullo (baixo). O quarteto carioca o acompanha desde a morte do violonista Nelson Jacobina (1953-2012), seu parceiro de uma vida.

É um disco urgente. A partir da frase “não há abismo em que o Brasil caiba” – do poeta e filósofo português Agostinho da Silva (1906-1994), que viveu no país durante 20 anos, fugindo do regime salazarista –, Mautner reflete sobre o Brasil de hoje.

Bang bang cita Joaquim Nabuco, fala da necessidade de uma segunda abolição da escravatura por meio da cultura. Marielle Franco, composta nas primeiras horas após o crime, destaca o “medonho cancro” que matou a vereadora carioca e seu motorista, Anderson Gomes, em 2018. Em O diabo, que vai se desdobrando em diferentes personagens (de Fausto, de Goethe, a Adolf Hitler), Mautner pede paz. E olha para si mesmo, fazendo homenagem amorosa à mulher, a historiadora Ruth Mendes, em Ruth rainha cigana.

Este filho do Holocausto (nasceu no Brasil em 1941, logo depois a chegada dos pais, Anna Illichi e Paul Mautner, refugiados da Segunda Guerra Mundial), que descobriu o candomblé na infância, fala com o mesmo afeto de Jesus Cristo (Yeshua Ben Joseph) e Oxóssi (O passado). Psicanálise, religião, política. “Tudo me interessa”, diz Mautner.

Não há abismo... é dedicada a Nelson Jacobina. Como foi fazer um disco sem o seu maior parceiro?

Nelson Jacobina trabalhou comigo 40 anos. Está morto, mas converso com ele sempre. Nos últimos anos de vida, ele viveu um câncer em metástase. Nem o remédio mais forte acabava com suas dores. Durante sete anos, fez shows comigo, com a Orquestra Imperial, na Europa, e as dores só paravam quando ele tocava seu violão. Nem a metadona, nem uma pílula mais forte ainda para aplacar essa dor infernal acabavam com ela. Foi assim até o último show em Jacareí, onde ele insistiu em dar bis de mais de uma hora. Voltamos para o Rio e ele faleceu. Bem Gil, eu vi nascer, e os músicos da banda estão ainda em tenra idade. Todos conheceram Nelson. Sempre, durante os shows, durante os ensaios, ele está conosco. Para sempre.

O disco fala de amor, de família, mas também de dor, injustiça social. De que precisamos enquanto seres humanos e enquanto nação?

Enquanto nação, não há dúvida alguma: é preciso que se faça a segunda abolição, de Joaquim Nabuco. Quando houve a primeira abolição, ele disse: isso não basta, é preciso a segunda abolição. Ela é distribuição de renda, escola gratuita até a universidade para todo o povo brasileiro, o fim de todo tipo de discriminação da etnia negra, que construiu o Brasil inteiro. É preciso acabar com o preconceito contra as pessoas LGBT, contar com a presença das mulheres, cada vez mais atuantes. É bom lembrar: de duas em duas horas, uma mulher é assassinada no Brasil. Enquanto seres humanos, precisamos trabalhar, estudar, ter seriedade política e, principalmente, enxergar o próximo como um irmão. Quanto mais diferente for, mais irmão será.

Belo Horizonte está no roteiro de seus shows?

Gostaria muito. Acho que sim, faremos um show em Belo Horizonte. Minas Gerais foi o primeiro lugar em que se pregou a liberdade do Brasil, com nosso grande herói Tiradentes. Minas Gerais, seja em Vila Rica ou outras cidades, era, para mim e para Nelson, sempre uma meta obrigatória de felicidade para irmos tocar. Com seu ouro e diamantes, Minas fez toda a industrialização da Europa.

Há saída para o abismo em que o Brasil se encontra?


Existem milhares de saídas para um país que detém a maior quantidade de água doce do mundo, terras do sem-fim, florestas e populações indígenas da maior importância. Veja bem: se houvesse estrada de ferro, todos os custos cairiam pela metade. Se usassem a navegação fluvial, cairia mais ainda. Temos os ventos mais comportados do planeta, o sol mais impressionante e fulgurante. Tudo preparado para um paraíso ecológico do século 21. Na verdade, tivemos três dirigentes que fizeram algo para o Brasil: dom Pedro II, Getúlio Dornelles Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse meu disco, exalto a mensagem de otimismo permanente que vem de Jesus de Nazaré e dos tambores do candomblé, além da necessidade da segunda abolição, de Joaquim Nabuco, que ainda não veio. Às vezes, o mais pavoroso pesadelo pode se transformar, num milionésimo de segundo, em sonho de uma noite de verão. Leitura, informação, instrução pública, ciência e, principalmente, dois trilhos que são as duas afirmações de São Paulo – “de que adiantaria se eu soubesse todas as línguas e ciências e não tivesse caridade” e “mesmo quando não houver mais nem fé, nem esperança, o amor continuará a resplandecer no universo.” O povo brasileiro tem a cultura mais densa, pois ela é mitológica. Em todas as procissões para Nossa Senhora Aparecida, Nosso Senhor do Bonfim... Noel Rosa, em um de seus primeiros sambas, diz: “onde foi que Jesus pregou sua filosofia? Na Bahia, na Bahia.”

Você é fundador do Partido do Kaos. Atualmente, com que partido suas ideias estão mais alinhadas?

Em primeiro lugar, com o Partido do Kaos. Em segundo, em terceiro e em quarto também.

Tocar violão, muito mais que violino, foi um exercício neste álbum?

Comecei a aprender violino aos 7 anos, mas o violino não dá para fazer acompanhamento de voz, então aos 15 comecei a aprender violão. É importante acentuar que meu violão tem no máximo três acordes, geralmente dois. Sigo totalmente a linha da música popular brasileira. Nelson Jacobina sempre dizia, e disse no filme sobre mim feito por Pedro Bial (O filho do Holocausto, de 2012): “Jorge Mautner aprendeu dois, três acordes e saiu compondo milhares de músicas.”


NÃO HÁ ABISMO EM QUE O BRASIL NÃO CAIBA
. De Jorge Mautner
. Deck
. R$ 29,90

MAIS SOBRE MUSICA