Racionais está de volta aos palcos para comemorar seus 30 anos de rap

Em 14 de setembro, a banda se apresentará em BH. Férias coletivas acabaram, com turnê que terá novidades: pela primeira vez, o grupo será acompanhado por superbanda

 

Klaus Mitteldorf/divulgação
KL Jay, Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock vão se apresentar em oito capitais brasileiras (foto: Klaus Mitteldorf/divulgação)
Racionais é como a Bíblia. Cada um interpreta como quer, como é conveniente”


>> Edi Rock, rapper

A causa existe, mas não coloque o Racionais como herói”

>> Ice Blue,rapper

Racionais MCs, grupo de rap mais importante do Brasil, comemora seus 30 anos com turnê nacional. A estreia será em Brasília, em 8 de junho, no Ginásio Nilson Nelson. A apresentação em BH está confirmada para 14 de setembro, provavelmente no KM de Vantagens Hall. O oitavo e último show ocorrerá em 12 de outubro, em São Paulo.

Uma novidade aguarda os fãs: pela primeira vez, o grupo vai se apresentar com uma superbanda – e não apenas com bases programadas em computador. Serão cerca de 12 músicos, com naipe de três metais, teclados, percussão, bateria, baixo e duas guitarras. Ano passado, o Racionais tirou férias para que seus integrantes se dedicassem a projetos solo. Fez apenas um show, que adotou esse formato com banda, considerado o melhor de 2018 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

“Racionais é como uma Seleção Brasileira em época de Copa do Mundo. Os jogadores saem de seus times para jogar o Mundial”, diz Edi Rock, ao comentar o novo projeto do grupo formado por ele, Mano Brown, KL Jay e Ice Blue.

Pela primeira vez, a turnê do grupo vai contar com a parceria de uma grande empresa de shows: a Time For Fun (T4F), que assina a produção com a Boogie Naipe, de Mano Brown, encarregada de cuidar da carreira da banda. Além de Brasília, BH e São Paulo, os rappers se apresentarão em Florianópolis, Recife, Salvador, Curitiba e Rio de Janeiro. O preço dos ingressos ainda não foi divulgado pela T4F – a pré-venda deve começar no fim deste mês, com vendas para o público em geral abertas em maio.

FÉRIAS Em 2018, KL Jay anunciou “férias coletivas por tempo indeterminado” da banda, para que ele e os companheiros se dedicassem a projetos solo. Mano Brown faz shows pelo país, desde 2016, divulgando o disco Boogie naipe. KL lançou o álbum Na batida – No quarto sozinho, volume 2. Edi Rock mandou para as redes vários singles, parcerias dele com Xande de Pilares, MC Pedrinho, Simone Brown e Alexandre Carlo, entre outros – o álbum solo, projeto com a Som Livre, está previsto para 2019.

Insatisfeito com os rumos políticos do país, Brown declarou, no ano passado, que não haveria nada a comemorar nos 30 anos da banda. “Grandes artistas, grandes pensadores estão sendo esquecidos, apagados, varridos do mapa. Não é o Brown quem está falando. É o mundo. A culpa não é minha. Quem levou o Brasil para isso foi o próprio povo. O povo elege quem quer. Consome o que quer, come o que quer, veste o quer”, afirmou ele ao jornal Zero Hora.

“Os Racionais são uma incógnita. Podemos fazer algo da noite para o dia”, afirmou Edi Rock ao ser indagado sobre o porquê de a banda se afastar dos palcos por tanto tempo.

MUDANÇA Três décadas depois do surgimento da banda, o mundo é outro e o rap nacional também, com a aparição de uma cena de expoentes como Baco Exu do Blues, Djonga, Rincon Sapiência, Rashid e Don L, quase uma geração depois de Emicida e Criolo. Novas camadas de som e narrativas diferentes são a marca desse hip-hop.

“O rap de hoje é o rap do começo. A gente também queria se divertir”, diz Edi Rock. Do clássico álbum da banda Sobrevivendo no inferno até hoje foram 22 anos. Ainda fariam sentido letras como “Aqui estou, mais um dia/ Sob o olhar sanguinário do vigia/ Você não sabe como é caminhar/ Com a cabeça na mira de uma HK/ Metralhadora alemã ou de Israel/ Estraçalha ladrão que nem papel/ Na muralha, em pé, mais um cidadão José/ Servindo o Estado, um PM bom/ Passa fome, metido a Charles Bronson”? – como diz Diário de um detento, narração do massacre do Carandiru, em que 111 presos morreram no presídio paulistano, em 1992.

“O que falamos lá é atual e tende a aumentar. Comemoram o golpe de 1964 e as pessoas saindo na mão (brigando por isso) na Avenida Paulista. Ao mesmo tempo em que a maconha, ferramenta que te faz pensar e pode ter uso medicinal, é criminalizada, o porte da ferramenta que mata, a arma, é estimulado”, comenta Edi Rock.

MACHISMO Três décadas depois, letras do Racionais que poderiam ser interpretadas como machistas tiveram de ser repensadas. Edi Rock se lembra daquelas que ele mesmo canta, dizendo que não pode mais seguir com versos como este, de Qual mentira vou acreditar?: “Que mina cabulosa olha só que conversa/ que tinha bronca de neguinho de salão (não)/ que a maioria é maloqueiro e ladrão (aí não)/ aí não mano!/ Foi por pouco, mano/ Eu já tava pensando em capotar no soco...” O “capotar no soco” seria partir para a violência física. “Nossas letras não podem incentivar a violência, diminuir a mulher”, afirma Edi, de 48 anos.

Estilo cachorro, do álbum Nada como um dia após o outro dia, de 2002, também mereceu autocrítica. A letra narra a vida de um don Juan. A certa altura, diz: “Segunda, a Patricia/ Terça, a Marcela/ Quarta, a Raissa/ Quinta, a Daniela /Sexta, a Elisângela /Sábado, a Rosangela / E domingo? É matinê, 16, o nome é Ângela.” Edi reconhece: “Não dá. A menina tem 16 anos.” Apesar de não ter a intenção de elogiar o comportamento do personagem principal, mas denunciá-lo, a pedofilia traz um peso enorme só por ser mencionada. “O Racionais é como a Bíblia”, diz Edi. “Cada um interpreta como quer, como é conveniente.”

Trinta anos depois de seu surgimento – na verdade, 31, se considerada a participação do grupo na coletânea Consciência black, em 1988, com Pânico na Zona Sul e Tempos difíceis; o primeiro LP solo, Holocausto urbano, é de 1991 –, Racionais continua marcante. Numa tribo guarani-caiová de Mato Grosso do Sul, muitos jovens indígenas caminham pelas ruas de terra com camisas da banda, ouvindo o rap dela em celulares. “Aprendi que podia protestar por alguma coisa depois que escutei a música deles”, diz Kevin, um jovem da tribo. “Ao mesmo tempo”, lembra Edi Rock, “os caras do Comando Vermelho, no Rio, usavam camisas dos Racionais. São fãs, e você vai dizer o quê? A música não tem fronteiras”.

Ice Blue comenta as subidas e descidas do rap, coincidentemente ou não, sincronizadas com a dinâmica de momentos político-sociais. Em fases de turbulência aguda, como quando o grupo surgiu, no início dos anos 1990, em meio à Era Collor, o rap chegou com uma força tremenda, como se fosse o grito necessário. Depois, no momento de estabilidade, no início dos 2000, a banda ficou menos evidente para o surgimento do chamado “rap de pista”, menos duro e engajado.

CLAMOR A partir do agravamento de questões sociais e do recrudescimento do preconceito e do racismo, a banda, como se legitimada pelo clamor, emerge agora em turnê nacional. “A causa existe, mas não coloque o Racionais como herói. Você quer a gente como guerreiro, mas eu pergunto: E você? Você vai estar onde?. A causa é de todos, negros, favelados, todos os interessados por ela”, diz Ice Blue.

Como ele sente o Brasil 30 anos depois de seu grupo começar a falar para um público que transbordou das periferias para chegar a bairros nobres? “Os números mostram que os problemas só aumentaram. O que mudou foi a internet. Hoje, não se pode esconder mais nada, não tem mais como fazer escondido”, afirma Ice Blue, sobre episódios de abusos de autoridade nas favelas, por exemplo.

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