Percussionista Evelyn Glennie se apresenta com a Orquestra Filarmônica

Em duas apresentações, a artista toca Veni, veni, Emmanuel, peça de James MacMillan composta especialmente para ela

por Mariana Peixoto 28/11/2018 08:00
Andy McCreeth/Divulgação
(foto: Andy McCreeth/Divulgação)

“A percussão é extraordinária, pois você pode obter a magia a partir da superfície de um tamborim, de um pandeiro ou de uma caixa de fósforos. Fazer música é para todos – a qualquer hora, em qualquer lugar”, afirma a percussionista escocesa Evelyn Glennie. Só por essa afirmação fica claro que, para ela, a música não tem limites.

Pois extraordinária é também a carreira da instrumentista, a primeira percussionista solo do mundo. Evelyn Glennie já lançou mais de 30 discos, recebeu 80 prêmios internacionais (incluindo um Polar Music Prize, o Nobel da música, e dois Grammy), apresentou-se na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres e carrega, desde 2007, o título de “Dame”, o maior da Ordem do Império Britânico.

O mais impressionante, no entanto, é que Evelyn Glennie, de 53 anos, tem surdez profunda desde os 12, o que é apenas um detalhe ao assistirmos aos vídeos dela, seja tocando – na maioria das vezes descalça – ou em entrevistas.

Convidada da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, ela se apresenta amanhã e sexta, na Sala Minas Gerais. Vai executar, sob a regência de Fabio Mechetti, a peça Veni, veni, Emmanuel, que o compositor e maestro escocês James MacMillan compôs em 1992 especialmente para ela. Na entrevista a seguir, concedida ao Estado de Minas por e-mail, Evelyn Glennie fala de sua relação com a música. “Ela é para todas as pessoas, não importa quais sejam suas circunstâncias ou desafios.”

Como você ouve música?

Não tenho um grande repertório de audição, mas tenho um grande repertório de leitura. Não ouço música gravada nem ouço as apresentações de outras pessoas através de CDs ou da internet. Gosto de performances ao vivo. Mas não mergulhei na música como hobby. Música é minha profissão, por isso, não sobrecarrego meu “sistema” com música ou sons. Isso permite que eu me mantenha renovada e com paixão por fazer o que faço.

O que lhe interessou na música?

A música tradicional escocesa fez parte da minha educação tanto na escola quanto em casa. Fui criada em uma fazenda no Nordeste da Escócia e muitas das reuniões sociais tinham canto ou contação de histórias. Isso alimentou meu interesse em tocar piano a partir dos 8 anos. Aos 12, vi uma apresentação da orquestra da escola e isso despertou meu interesse em aprender percussão. Saí da escola aos 16 anos e estudei na Royal Academy of Music, em Londres, tocando piano e percussão. Graduei-me aos 19 em música e comecei imediatamente minha carreira como solista.

Você tem um interesse especial em levar música para pessoas surdas, não?

Sim, mas minha filosofia é que a música é para todas as pessoas, não importa quais sejam suas circunstâncias ou desafios. Os surdos podem se envolver extremamente bem com a música por causa dos avanços da medicina (hoje é possível detectar a surdez enquanto o bebê ainda está no útero e não depois do nascimento) e da tecnologia (com a utilização de implantes cocleares, melhores aparelhos auditivos).

Se não tivesse perdido sua audição, acredita que sua música seria diferente?


Acredito que eu seria um tipo muito diferente de ouvinte. Ouço o momento e não tento replicar o que ocorreu antes simplesmente porque a maneira que ouço é um processo do “aqui e agora”. Não me lembro das sensações físicas de vibração porque a experiência será diferente a cada vez: depende dos instrumentos, da acústica, do que você está vestindo, como você está se sentindo e assim por diante.

Sua missão é “ensinar o mundo a ouvir”. Como isso deve ser ensinado?

Não estou me referindo apenas à música. Ensinar o mundo a ouvir é uma questão mais holística e aborda todos os aspectos de nossas vidas, incluindo artes, negócios, esporte, religião, medicina e família. Muitos dos desafios que temos geralmente se resumem à falta de escuta. Ouvir não é necessariamente sobre som ou “ouvir” algo. Ouvir é sobre presença, paciência, respeito, reflexão, foco e concentração. Ouvir é a única atividade que pode fazer a diferença em nossas vidas e em nosso relacionamento com o mundo – e não custa nada se envolver com isso.

Você já trabalhou com Björk, Mark Knopfler (ex-Dire Straits), Steve Hackett (ex-Genesis), entre outros. Com que músico não clássico gostaria de tocar?


Eminem e Kate Bush. Músicos são músicos, não os categorizo. Se eles me inspirarem ou eu encontrar algo interessante no que eles fazem, me interessam.

Quais são seus próximos projetos?


Acabei de terminar de escrever uma música para o Royal Shakespeare Play – Troilus & Cressida. Esta foi a primeira vez que escrevi para o teatro. Voltarei do Brasil para assistir à exibição de um documentário em Londres chamado Love is listening – Dementia without loneliness (O amor está ouvindo – Demência sem solidão). Algumas das experiências mais gratificantes que tive foi estar com pessoas que estão em meio da jornada da demência. Depois tocarei com a Orquestra Sinfônica de Detroit em um programa com músicas da Motown organizadas para percussão solo, rap, vocais e orquestra. Esse projeto é chamado de “A experiência sinfônica surda e alta”. Também lanço, em março, o livro Listen world!, para adolescentes. Também estou escrevendo uma música para um atleta olímpico de hipismo, para sua próxima grande competição esportiva.



Complexa variedade

Veni, veni, Emmanuel foi composta por MacMillan a partir do cantochão homônimo. Primeiro concerto de percussão a ser executado no Prom 27, no Royal Albert Hall, em Londres, abre as duas apresentações da Filarmônica desta semana, na Sala Minas Gerais – depois do intervalo a orquestra mineira executa prelúdio de A tarde de um fauno, de Debussy, e Quadros de uma exposição, de Mussorgsky, esta última estreando em BH com a orquestração assinada por Francisco Mignoni.

Evelyn Glennie abre as duas noites por uma única razão – a montagem dos instrumentos é deveras complicada. Para executar a peça de MacMillan, ela vai tocar quase duas dezenas de instrumentos percussivos – marimba, vibrafone, bumbo a pedal, carrilhão, conga e bongô, entre outros. “A peça é dinâmica para cada membro da orquestra, especialmente quando chegamos ao clímax, da ascensão de Cristo, no final do concerto”, explica ela.

“É uma obra difícil para o conjunto orquestral, pois é ritmicamente complexa. E a figura de Evelyn Glennie tocando é muito impactante”, comenta Rafael Alberto, principal percussão da Filarmônica. O percussionista a viu pela primeira vez quando tinha 15 anos – numa noite em que Evelyn tocou Veni, veni, Emmanuel com a Osesp, na Sala São Paulo.

“A Evelyn é uma artista muito completa, é impressionante o que ela consegue fazer. E um fator muito importante para ressaltar é que é uma mulher no meio de muitos homens. Na percussão, a grande maioria dos músicos é homem”, acrescenta Rafael.

ORQUESTRA FILARMÔNICA DE MINAS GERAIS E EVELYN GLENNIE
Quinta e sexta, às 20h30, na Sala Minas Gerais, Rua Tenente Brito Melo, 1.090, Barro Preto. Ingressos (inteira): R$ 44 (coro), R$ 50 (balcão palco e mezanino), R$ 68 (balcão lateral), R$ 92 (plateia central) e R$ 116 (balcão principal). Informações: (31) 3219-9000 e www.filarmonica.art.br

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