Gilberto Gil celebra a vida, a morte, o amor e a música em nova turnê

Cantor apostou em canções inéditas, relembrou hits e, com seu violão, brilhou em momentos solo em show em BH

por Ângela Faria 26/11/2018 08:40
Ramon Lisboa/EM/D.A Press
(foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

Sereno e vigoroso, Gilberto Gil abriu a turnê nacional OK OK OK, sábado à noite, para um Palácio das Artes lotado. O show privilegiou as novas canções do disco lançado em agosto – das 20 do setlist, 11 eram inéditas. Todas elas ouvidas atentamente pela plateia no espetáculo intimista, delicado e potente. Como sempre, Gil “forma” seu público. Arriscou (e se deu bem) ao deixar de lado os hits, embora tenha incluído alguns deles no repertório. Ganhou muitos – e merecidos aplausos.

Durante o espetáculo, ouviram-se um ou dois solitários gritos de “Lula Livre”. Fim de show, luzes acesas, as duas palavras de ordem ecoaram mais fortemente. Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, não fez discurso e nem deu a “deixa” para comício. Nem precisava. As canções falam por si. A primeira – OK OK OK – já é o “manifesto” de alguém sempre cobrado a dar opiniões, como afirma a letra. “Palavras dizem sim/ Os fatos dizem não”, canta Gil. Perto do final, veio a sessentista Marginália. O clássico da Tropicália, com poema de Torquato Neto, parece até ter sido lançado ontem. “Eu brasileiro confesso/ Minha culpa meu pecado”, mandou Gil. “Minha terra tem palmeiras/ Onde sopra o vento forte/ Da fome, do medo e muito/ Principalmente da morte”. Cá pra nós, precisa de slogan?

Com voz visivelmente cansada, mas assertiva, Gil, aos 76 anos, celebra morte, amor e vida. Contou que o apanhado de canções de OK OK OK surgiu no período “relativamente difícil” das internações hospitalares e da insuficiência renal e cardíaca que enfrentou. Do “namoro com a inspiração” surgiu o samba alto-astral para a doutora Roberta Saretta, inspirado no tal exame em que lhe tiraram quatro pedacinhos do coração. O “disco família” tem canções para netos, bisnetos e amigos – Sereno, Sol de Maria, Lia e Deia, Afogamento. O velho baiano arrasou (como sempre) ao violão em Yamandu, tributo ao genial instrumentista gaúcho. Mas... Faltou a linda Jacintho (“Já sinto aqui na barriga/ Meu peito/ Alguns sinais de defeito”), composta por ele para um amigo centenário. É até pecado esta ficar fora do show.

PRECE

Neste momento de intolerância nacional, Gil – sozinho ao violão – é um bálsamo, sobretudo quando a inspiradíssima Prece antecede o “mantra” Se eu quiser falar com Deus. Ele se divertiu ao contar a história de Uma coisa bonitinha, parceria com João Donato que levou 21 anos para ficar pronta. “Acabamos outro dia”, revelou, aos risos, para mandar Lugar comum – aquela do “todo mar é um/ começo do caminhar”.

A doença pode ter arrancado quatro pedacinhos do coração, mas Seu Gilberto continua mandando – muito – bem na guitarra. Estão no show o Gil roqueiro e o “reggaeiro”. Ouço, ao vivo, é pedrada (“É a voz do amor fraterno/ A nos livrar do inferno latente”). O momento “cantar junto” teve a baianíssima Avisa lá e surpreendente releitura de Pro dia nascer feliz, hino de Cazuza. A novata Na real é outra pedrada. E a velha e boa Extra, que encerrou a noite, dispensa comentários.

O mestre brilha, assim como a banda formada pelo filho dele, Bem Gil (violão e guitarra), o mentor do disco e do show. A moçada é craque: Bruno di Lullo (baixo), José Gil (o caçula, bateria e percussão), Domenico Lancellotti (bateria e percussão), Thiagô Queiroz (sopros), Diogo Gomes (sopros) e Danilo Andrade (teclados). Nara Gil, a primogênita do clã, canta, dança e tem um alto-astral...

INVASÃO


O momento fofo da estreia coube a Antônia Joaninha Gonçalves Ferreira, de 69 anos. Mãe de quatro filhos, avó de seis netos e bisavó de três crianças, ela pulou no palco para abraçar Gil. Fez o gesto de reverência a ele e à banda, contou ter vindo de Rondônia para vê-lo. Ganhou o carinho e o agradecimento do ídolo, que ainda mandou aquele abraço para o pessoal de Ariquemes, cidade onde ela mora. O público adorou, aplaudiu. Parecia se sentir representado por aquela fã corajosa, com jeitinho de vovó hippie.

Dona Antônia contou ao EM que é professora aposentada, ficou viúva há pouco tempo, está adorando o passeio a Minas e até chorou de emoção em Inhotim. Não soube explicar como conseguiu pular naquele palco, driblando a segurança. “Tinha que reverenciar este homem, ele merece”, justificou. “Gil é um poeta extraordinário, lutou sempre pela liberdade, ficou exilado na ditadura militar”, completou.

Eleitora do “professor Haddad” (“E lá vou trair o coleguinha?”), afirmou que o baiano foi ótimo ministro e desaprova o fim da pasta da Cultura. Pra não deixar dúvidas, pediu para a repórter registrar: “Meu rei é o Roberto Carlos, mas o Gil é a lenda ambulante da poesia”.





"Meu rei é o Roberto Carlos, mas o Gil é a lenda ambulante da poesia”

. Antônia Ferreira, professora

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