Os fãs realmente compreendem o significado das letras de Roger Waters?

Reação indignada de parte da plateia às críticas a Bolsonaro feitas pelo ex- Pink Floyd levanta a dúvida

por Pedro Galvão 21/10/2018 12:10
Arte EM
(foto: Arte EM )
Logo no primeiro show em São Paulo, no dia 9, Roger Waters mostrou que a passagem da turnê Us + Them pelo Brasil seria mais complexa que um simples encontro musical do ídolo com seus fãs. O posicionamento político do baixista e criador do Pink Floyd – contrário a autoritarismo e injustiças sociais – sempre esteve presente em sua obra. Porém, ao inserir o candidato à Presidência do Brasil pelo PSL, Jair Bolsonaro, em sua lista de “neofascistas em ascensão no mundo” com a “bandeira” #elenão exibida no gigantesco telão, o músico britânico surpreendeu alguns, foi atacado por outros e entrou para a história recente do acirrado e polarizado cenário político brasileiro, a caminho de mais uma eleição.

Além de a plateia de Waters ter se dividido entre os que vaiavam e os que aplaudiam, a polêmica entre apoiadores e opositores de Bolsonaro migrou para o Twitter, onde foi amplificada. Contudo, mesmo sem citar nominalmente o presidenciável, Waters já seria capaz de levantar polêmicas hoje com letras escritas há anos (ou décadas). É o caso de Another brick in the wall, dividida em três partes no álbum The wall, de 1979. Um dos pontos da letra, que diz “Ei, professor, deixe as crianças em paz”, é um questionamento ao autoritarismo em sala de aula. O tema da educação e do papel dos professores na formação dos alunos é motivo de fortes divergências entre Bolsonaro e seu adversário, Fernando Haddad (PT).

Em Money, do cultuado Dark side of the moon (1973), ele canta: “Dinheiro, volte / Eu estou bem, cara, tire as suas mãos do meu monte / Dinheiro, é golpe /Não me venha com essa bobagem de que fazer o bem é bom” e faz uma incisiva crítica ao consumismo e, por extensão, ao capitalismo. Pauta recorrente nos bate-bocas virtuais atualmente, a atuação dos poderosos e donos das grandes corporações é o alvo de Pigs (1977).

Se alguns se indignaram com o gesto de Waters em relação ao cenário político brasileiro, a revolta de outros foi precisamente pelo desconhecimento das ideias do ídolo demonstrado por esses fãs. Sobre isso, o especialista em música, mídia e comportamento Jeder Janotti, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco, alerta: “É importante ressaltar que esses megaeventos, como o show de Roger Waters, não atraem só fãs dedicados à carreira do Pink Floyd. Muita gente vai ao espetáculo pelo evento em si, pelo que representa no calendário cultural da cidade, não necessariamente por conhecer o valor histórico ou musical do artista. É um contexto muito mais diverso”.

Autor dos livros Aumenta que isso aí é rock and roll: mídia, gênero musical e identidade (2003), Heavy metal com dendê: rock pesado e mídia em tempos de globalização (2004) e Rock me like the devil: A assinatura das cenas e das identidades metálicas (2014), Janotti argumenta que “o consumo desse rock da década de 1960 ou 1970, no qual se insere o Pink Floyd, ou mesmo a produção tardia dos Beatles tem contextos diferentes de hoje. Parte desse público que ouvia isso naquela época envelheceu e assumiu outros posicionamentos. Além disso, o fato de essas músicas terem sido criadas como um enfrentamento político e de costumes não significa que, no contexto atual, sejam assimiladas assim por todo mundo que ouve ou que tem essas músicas como referência no imaginário”.

PLURAL
Roger Waters não é o único artista de renome mundial cuja obra pode ser combustível para um grande embate no grupo de WhatsApp da família. Outros ícones têm uma base de fãs plural, incluindo perfis mais conservadores, ainda que tenham usado suas músicas para confrontar o conservadorismo ao longo da carreira. Além disso, assuntos delicados no atual contexto de choque no país podem passar despercebidos para quem é pouco familiarizado com o inglês.

Para o ouvinte menos atento, Blackbird soa como apenas como uma sensível canção dos Beatles. No entanto, a letra de Paul McCartney não fala, literalmente, sobre um pássaro preto, mas sim a respeito dos direitos civis que a população negra do EUA lutava para conquistar na década de 1960. “Pássaro negro cantando na calada da noite/ Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar / Durante sua vida toda/ Você só estava esperando este momento chegar.” McCartney fez questão de assinalar o significado da música, antes de tocá-la em seu mais recente show em BH, há um ano.

A luta contra o racismo inspirou muitas canções, especialmente nos Estados Unidos, desde o século passado. Uma das mais emblemáticas é Strange fruit, escrita como poema por Abel Meeropol na década de 1930, cujas versões mais conhecidas musicalmente são as de Billie Holiday e Nina Simone. “Árvores do Sul produzem uma fruta estranha/Sangue nas folhas e sangue nas raízes / Corpos negros balançando na brisa do Sul / Frutas estranhas penduradas nos álamos” são os versos usados para tratar do linchamento e assassinato de jovens negros pela Ku Klux Klan, que pendurava suas vítimas em árvores. Na última semana, um ex-líder do grupo supremacista disse que “Bolsonaro soa como nós”. A declaração foi rechaçada pelo candidato do PSL em seu perfil no Twitter, mas acalorou ainda mais os embates entre os dois lados em disputa.

SILÊNCIO O Movimento Pelos Direitos Civis nos EUA, compreendido entre os anos 1950 e 1960, também foi fonte para Bob Dylan. Blowin’ in the wind, de 1963, uma de suas principais composições, nasceu de uma discussão política, segundo Nigel Williamson, autor de O guia do Bob Dylan. No livro, Williamson afirma que Dylan estaria inconformado com a passividade da população diante de injustiças e disse: “A ideia veio a mim de que você é traído por seu silêncio, de que todos nós, nos EUA, que não nos manifestávamos, estávamos sendo traídos por ele”. A música virou um hino de vários movimentos de resistência, luta por direitos e pela paz, em diferentes contextos. “Quantas balas de canhão precisarão voar até serem para sempre banidas?”, indaga Dylan.

Violência, repressão e armas são temas centrais nos confrontos ideológicos contemporâneos no Brasil. Há décadas, artistas estrangeiros se posicionam sobre esses temas em suas canções. O próprio Pink Floyd trata do assunto em The gunner’s dream e Dogs of war, cujas letras condenam a violência provocada pela arma de fogo e o militarismo.

Formado na Irlanda em 1976, o U2 figura entre as bandas de pop rock mais populares da história, com 175 milhões de álbuns vendidos mundialmente e 22 prêmios Grammy e estádios sempre lotados. Um de seus principais hits é Sunday bloody Sunday. Embora já tenha ganhado uma animada versão do grupo de pagode Sambô, a música trata de um assunto pesado. Sem metáforas, é sobre o Domingo Sangrento, em que manifestantes marcharam contra o governo da Irlanda do Norte e foram reprimidos pelo exército, numa ação que resultou em 14 mortes. No caso dos irlandeses, a admiração declarada do vocalista e ativista Bono pelo ex-presidente Lula, preso pela Operação Lava-Jato, em Curitiba, já seria o suficiente para um grande entrevero no quadro atual brasileiro, mesmo entre fãs do U2.

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