Marcado por declarações polêmicas sobre a política, Lobão lança disco

No álbum duplo de 25 faixas, o roqueiro reúne hits de uma década de ouro da discografia nacional. Confira entrevista

Anatole Klapouch/Divulgação
Acompanhado pela banda Eremitas da Montanha, o músico Lobão está lançando o disco "Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock" (foto: Anatole Klapouch/Divulgação )
Ele está ficando velho, cada vez mais doido varrido. Roqueiro brasileiro com cara de bandido. Uma ameaça de atentado e um pedido para que lhe respeitem a “caducagem”. Afinal, “essa vida é muito louca e loucura pouca é bobagem”. Os versos iniciais da Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock, novo disco de Lobão, soam em parte como um singelo pedido de desculpas pelas incontáveis polêmicas, recentes ou mais remotas, e também como um alerta de que a artilharia está longe de acabar. No álbum duplo de 25 faixas, o maior dos malditos em atividade na cena musical do país reúne hits de uma década de ouro da discografia nacional, oferecendo-lhes arranjos vigorosos e criativos em companhia da entrosada banda Eremitas da Montanha.

 

Recém-chegado ao clube dos sexagenários, João Luiz Woerdenbag Filho, mais conhecido como Lobão, pela primeira vez na carreira solo investe em um lançamento não autoral. O projeto é decorrente do livro quase homônimo, no qual o músico e escritor disseca a produção fonográfica dos anos 80 e vasculha as entranhas do pop rock nacional. Se a ideia inicial era esculhambar um período que tanto incomodava o autor, o desenvolvimento dos capítulos acabou apontando em outra direção. Lobão se viu comovido com a qualidade lírica das letras, reconsiderou posicionamentos – inclusive em relação a antigos desafetos, como Hebert Vianna – e decidiu regravar algumas canções, imprimindo roupagem musical personalista.

O resultado é um poderoso disco de rock ‘n’ roll, com solos de guitarra eloquentes, sonoridade impactante, timbres, distorções, arranjos e ritmos contundentes. A voz de Lobão aparece mais grave do que nos anos 80, mas ainda com a força e a identidade esganiçada que sempre a caracterizaram. A banda arregimentada, Os Eremitas da Montanha, oferece apoio preciso e criativo, com Armando Cardoso na bateria, Augusto Passos no baixo, Felipe Faraco nos teclados e Christian Dias na guitarra.

A Antologia Politicamente Incorreta dos Anos 80 pelo Rock também pode ser considerada um acerto estratégico nos rumos da carreira do velho Lobo.


Entrevista com Lobão

Os anos 80 foram marcados pelas mortes de Cazuza, enato Russo e Raul Seixas. Hoje, aos 60 anos, como é olhar para trás e se perceber sobrevivente desse período tão intenso da cena roqueira do Brasil? 
Eu tenho horror dos anos 80 por todas essas perdas, pela perseguição política, pela perseguição policial e pela qualidade horrorosa dos meus discos. Toda vez que ouvia os discos, era aquela decepção. Não havia autonomia sobre o que eu produzia, pois era tudo modificado no estúdio. Era minha grande agonia. Foi uma epopeia atravessar essa década com cenário todo contra: imprensa, gravadoras, festivais e o “coronelato da cultura”. Não era fácil. Mas, durante a escrita do livro, percebi que foi uma época muito rica para o cancioneiro popular brasileiro.

Fale sobre o processo de formatação da banda Eremitas da Montanha. Qual foi o critério para seleção dos músicos?
Parte da banca vem tocando comigo há bastante tempo. O Armando Cardoso, que considero um dos melhores bateristas do Brasil, me acompanha há 10 anos. O Guto Passos está comigo há quatro anos. Foi ele quem me apresentou o Christian Dias, guitarrista carioca de um power trio de rua chamado Astro Venga, e o Felipe Faraco, tecladista gaúcho e professor de produção musical, que tocou como baixista do Júpiter Maçã. O critério era excelência musical e ter os mesmos interesses estéticos musicais, além de ser gente fina, senão a gente não consegue conviver.

Tem sido mais difícil ensaiar e internalizar músicas que não são de sua autoria?
Para mim é mais difícil, porque não sou intérprete. Ainda tenho que decorar uma papelada de letras, pois, após encerrar as gravações, passei três meses remixando todo o material no meu estúdio caseiro, onde o resultado ficou melhor. Apenas a partir de maio voltei a estudar o repertório, que, no momento, está 98% introjectado. Ainda preciso fazer uma cola durante os shows. Mas a banda está um espetáculo, tem sonoridade própria, com uma unidade muito forte.

Por que alguns personagens de destaque dos anos 80, como Raul Seixas e Titãs, não entraram no disco?
Eu procurei músicas com as quais eu me identificava. Eu não gravei Titãs, mas gravei Inocentes, que é a matriz dos Titãs. O Raul Seixas aconteceu nos anos 70, diferentemente da Rita Lee, que surgiu nos anos 60 com os Mutantes, marcou os anos 70 com o Tutti-Frutti, e abriu os anos 80 com Roberto de Carvalho. O marco do Raul nos anos 80 foi “Plunct Plact Zum”, quando ele já estava zureta. Tinha sido massacrado, ele não é um cara dos anos 80. A grande obra do Raul, o esplendor dele, está nos anos 70.
 
Nos anos 80, alguns dos seus hits apresentavam solos de saxofone, mas nos trabalhos mais recentes esse instrumento não aparece. Por quê?
Eu acho o som do saxofone horroroso, parece hino de motel, detesto. Mas o meu amigo de infância Zé Luiz é um ótimo saxofonista, então eu tinha de aturá-lo desde Cena de Cinema. Era uma condescendência em prol da minha amizade e pela admiração ao Zé. Mas eu morro de vergonha.

Sua esposa, Regina Lopes, participa do novo disco na gravação de alguns vocais. Qual é o papel dela no gerenciamento da sua carreira?
Estamos juntos há 27 anos. Ela não tinha muito interesse no começo, mas eu precisava de um empresário em um momento em que não confiava em mais ninguém. Ela foi aprendendo, tomando conta das coisas e se apropriando do lugar dela, fazendo excelentemente bem.

No passado recente, você esteve envolvido em debates e militância política. 
Isso provocou prejuízos à sua agenda de shows. Como você tem lidado com essa situação?
 Isso não é um problema. Fiz música contra o Sarney, contra o Collor. Eu atraio paixões e ódio, porque sou muito eu. Essa liberdade é invejável. Mas eu fui me tornando cada vez mais versátil e hoje sou best-seller com quatro livros.

 

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