Destaque do rap nacional, mineiro Djonga celebra conquistas dos jovens negros em novo disco

Funk, Shakespeare, Renato Russo e Milton Nascimento são inspiração para ele

por Ângela Faria 01/04/2018 09:30

@1993Agosto/Divulgação
(foto: @1993Agosto/Divulgação )

Com a vela na mão, o jovem negro segura o cartaz durante a manifestação carioca em homenagem à vereadora Marielle Franco, executada no Rio de Janeiro. “Fogo nos racistas”, está escrito na cartolina. Não se trata de slogan, mas do refrão de Olho de tigre, rap do mineiro Djonga, de 23 anos, um dos nomes mais importantes da nova geração do hip-hop. Lançado há menos de um ano, este single rapidamente estourou na internet, batendo 5 milhões de visualizações no YouTube. Com versos contundentes, Heresia, o segundo EP do rapper, conquistou espaço nas listas de melhores discos de 2017. Djonga liderou enquete promovida pela revista Rolling Stone e entrou no ranking dos álbuns do ano da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).


Desde 13 de março, está nas redes o novo trabalho dele: o álbum O menino que queria ser Deus, cujas 10 faixas já se aproximam de 5 milhões de views no YouTube. “Chegar aqui de onde eu vim/ É desafiar a lei da gravidade”, diz ele em 1994. Nascido na Favela do Índio, na Região Norte de BH, e criado no Bairro São Lucas, na Zona Leste, Djonga é cronista de seu tempo e de sua geração. Visceralmente autoral, conquistou o respeito do veterano Mano Brown, é elogiado pelo experiente produtor Daniel Ganjaman e reconhecido pela crítica como talento da cena independente.


Ainda garoto, ingressou no mundo das rimas ao participar do Sarau Vira-Lata, coletivo de jovens que espalha poesia pelas ruas de BH. Depois, ajudou a formar o DV Tribo, coletivo que reúne talentos do hip-hop da cidade: Clara Lima, Fabrício FBC, Hot (neto de Alvaro Apocalypse, idealizador do Grupo Giramundo), Oreia e Coyote Beatz, produtor dos beats de O menino...

PANTERA NEGRA “O ferro na minha cuca/ O peso na minha nuca/ Eu pássaro de alma preso na arapuca”, rima Djonga. Suas letras trazem um caldeirão de referências – de Shakespeare, Renato Russo, Nelson Motta e Ogum ao funk carioca, passando pelos filmes Corra! e Pantera Negra, dois petardos contra o racismo. Há também espaço para o candombe mineiro.

Estouro é aberta pelo refrão “o senhor me dá licença/me dá licença/ pra eu cantar nesta baixada”, tributo a Nossa Senhora do Rosário, protetora dos escravos.Estouro celebra a negritude e a autoestima que vem sendo conquistada – a duras penas – por Djonga, pela convidada desta faixa, Karol Conka, e a nova geração de afrobrasileiros. “Nada pode assustar os preto/ Coragem e coração começam com cor”, canta a dupla.

O menino que queria ser Deus traduz o amadurecimento, “lírica e musicalmente”, em relação a Heresia, afirma o rapper, contando que se empenhou em contextualizar mais claramente as várias referências que o inspiram, amarrando melhor as ideias. A interpretação também mudou. Ele explora novas entonações vocais. Djonga canta – e tem gogó. De lá, “voz e violão” em homenagem a Ogum, é prova disso.

MARIELLE O novo disco vem defender a coragem neste momento de retrocessos. “Gente como eu é desencorajada o tempo todo”, comenta, referindo-se a “negros, mulheres, homossexuais, comunidade LGBT”. O assassinato da vereadora Marielle Franco é prova disso. “Quando a gente se alegra com uma conquista, como a Marielle representou, logo vem a decepção”, diz. A execução de cinco garotos na periferia em Maricá (RJ), no domingo passado, tirou o sono dele. Dá medo – e muito –, pois o massacre de jovens negros se tornou corriqueiro nas periferias. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. “Nem a fama nem dinheiro nem um cargo público. Nada pode defender a gente, pele escura, mundo cego. Vida eterna a quem tem coragem!”, desabafou ele no Facebook.


A autoestima é onipresente nas letras de Djonga. “Não é papo bobo de autoajuda. É preciso ter coragem, mesmo. É a última coisa que nos resta”, diz. “Falo sobre o que vejo e vivo. Agora tenho ganhado algum dinheiro, e isso tem de ser louvado. Porém, vejo amigos e amigas em situações complicadas: um levou tiro, o outro foi preso, a mina foi estuprada, a outra engravidou mas o pai não quer assumir.”


Desde o ano passado, o rap trouxe alguma estabilidade financeira a esse ex-aluno de história da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), que vem se apresentando em todo o país. Foi convidado para abrir, com seu show solo, a apresentação dos ídolos Mano Brown e Criolo, em junho, no paulistano Espaço das Américas. Em suas letras, Djonga valoriza o sucesso (“Revista pra mim era polícia/ Até eu ganhar a votação na Rolling Stone”), mas questiona a egotrip – dele e de sua geração. “Esse trono de rei do rap não vale nada/ Enquanto morrer o menor pra ser rei da quebrada”, rima ele em Eterno.


Suas crônicas têm inquietação e angústia. Hamlet não está por acaso nos versos da autobiográfica Junho de 94. “Vaidade, perversão e poder são questões que não mudam através dos séculos. O ser ou não ser é eterno”, comenta o compositor.
Seu rap-crônica também fala de amor, sexo e das relações fugazes destes tempos. Há moças “de quatro” em suas rimas. Djonga se diz vigilante para não reproduzir o machismo. Porém, pondera: “Não existe homem que não seja machista”. Explica que aborda relacionamentos amorosos sem moralismos e ataca a “censura à moda Bolsonaro”.


“É conservador condenar o que as pessoas fazem entre quatro paredes. Falo da sensualidade sem grilos, sem medir palavras. É preciso ter a coragem de falar do sexo como ele é, e isso não significa ser agressivo ou negativo”, observa.
Feminista e estrela nº 1 do rap brasileiro, Karol Conka não está no disco de Djonga, digamos, para preencher “cota” por questões de gênero. “Sou muito fã dela e acho que as mulheres vão crescer muito no rap”, aposta.


Nas redes sociais, rapazes se derretem ao comentar a canção que Djonga dedicou ao primogênito Jorge, de
1 ano. Paternidade responsável é uma das preocupações do rapper, pai aos 22. “Os moleques têm de se ligar nisso, cuidar da felicidade do filho que botaram no mundo. Não é fazer e deixar por aí”, afirma ele, que, como bom atleticano, já levou seu “pequeno Ogum” para ver o Galo jogar.

 

O MENINO QUE QUERIA SER DEUS
. De Djonga
. 10 faixas
. Convidados: Karol Conka, Sant, Sidoka, Paige, Hot, Coyote Beatz, Rafael dos Anjos, Thiago Braga, Felipe Datti, Vinicius Ribeiro, Lucas Fainblat e El Lif Beatz
. Produção independente
. Disponível no Spotify, YouTube e na página do artista no Facebook (www.facebook.com/gustavo.pereira.315)

 

A nova ‘geopolítica’ do rap

Mavi Morais/Divulgação
(foto: Mavi Morais/Divulgação )
 

Foi-se o tempo em que rap era sinônimo de São Paulo e, quando muito, de Rio de Janeiro. Assim como o mineiro Djonga, o baiano Baco Exu do Blues e Don L, destaque da cena cearense, vêm reconfigurando a “geopolítica” do hip-hop nacional. Em 2017, os dois lançaram, respectivamente, os discos Esú e Roteiro para Aïnouz, que integraram várias listas dos melhores do ano, assim como Heresia.


Expoente da cena de BH – onde o Duelo de MCs completou 10 anos –, Djonga diz que a autenticidade é a marca do hip-hop criado na capital. “Nossa cidade produz algo que só existe aqui, onde há o maior número de grupos diferentes em relação a outros lugares. Um não imita o outro. Aqui tem mais sinceridade, sem aquela coisa meio artificial, típica de onde tem muito dinheiro envolvido”, afirma. Porém, adverte: já passou da hora de criar as condições para que essa cena se profissionalize.
Vários artistas de BH participam do novo disco dele: a cantora Paige, o MC Sidoka, o rapper Hot, o produtor Coyote Beatz e o violonista e compositor Lucas Fainblat.

RENOVAÇÃO Djonga diz que sua geração – a terceira do rap brasileiro – trouxe inovações à cena. O flow é diferente, aponta, referindo-se à arte de encaixar versos no ritmo do canto falado. Além disso, o domínio da internet, com o consequente acesso a tudo o que se cria no mundo, permitiu a jovens como ele explorar novas sonoridades.


Influenciado por Novos Baianos e Gilberto Gil, Djonga é fã de Milton Nascimento e do Clube da Esquina – aliás, a capa do álbum clássico inspirou a capa de Heresia. O rapper tem no funk nacional outra referência. Inclusive, guarda “batidões” inéditos na gaveta. “É o estilo mais autêntico que existe hoje, e eu me espelho lá. É onde se fala, mesmo, sem medir as palavras, de sexo, tráfico e política. É tudo sem censura”, defende.

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