De volta a BH para o segundo show em duas semanas, o rapper promete uma apresentação descontraída neste domingo (11), no Land Spirit, mas sem deixar de lado as rimas sobre as graves questões do país.
Porém, no clima de folia, Gabriel também fala em esperança no futuro e diz acreditar na mensagem positiva de suas composições. "Em carnavais passados, estive em BH. Agora vamos à cidade com a minha festa Ajoelhou tem que rezar. Carnaval ou não, procuramos enfatizar o lado da diversão. Tem protesto, tem reflexão, mas a vibe é positiva, de improviso, sorriso e curtição. Damos mais ênfase a isso neste show”, adianta.
Ele promete: Até quando? e Tô feliz (Matei o presidente), raps de teor mais sério, não ficarão de fora.
“Espero me divertir bastante. Chego uma noite antes, vou passar duas noites de carnaval em BH. Espero encontrar os amigos e curtir”, avisa. Mesmo com toda a diversidade oferecida pela folia na capital, Gabriel não programou nada em especial para o tempo livre. “Não sou de agito, mas devo sair, jantar, conversar com os amigos. Uma coisa boa do mineiro de que sinto falta é a prosa mesmo, o bate-papo. A gente, que vive muito na estrada, gosta disso. Em Minas, é uma tradição importante que se mantém. As pessoas são atenciosas com quem é de fora, elas têm aquele jeito de olhar no olho e conversar”, diz o rapper.
Em sua última passagem por BH, em janeiro, Gabriel vivenciou esse traço da mineiridade. Enquanto aguardava o voo, encontrou Mano Brown na sala de embarque do Aeroporto de Confins. Os dois haviam participado do Festival Planeta Brasil, um dia antes. O teor do papo, embalado pela caixinha de som de Brown, foi leve, sobre família e música.
“O voo atrasou e encontrei o Brown ouvindo um sonzinho, do bom mesmo. Aí ficamos batendo papo. Nada especial: sobre o filho que cresceu, lembramos amigos antigos do rap, papo de boa. Assunto de música também, meu DJ (Leandro Neurose) é colecionador de vinil e estava lá. Falamos do Marvin Gaye, do Tim Maia”, relata Gabriel.
LUTO
Dias depois, o rapper do Racionais MCs declarou ao jornal gaúcho Zero Hora estar “de luto” pelo momento atual do Brasil, o
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Por sua vez, Gabriel se posiciona de forma mais moderada e positiva, esperançoso no poder transformador da arte. “No Brasil e no mundo, a gente vê muita coisa ruim acontecendo, o ser humano é individualista, é burro, cada vez mais fechado, as pessoas não se entendem. Vivo em tribos mais abertas, como o pessoal do surfe, por exemplo. Conseguimos enxergar o mundo fora desse negativismo da violência e do medo, da intolerância. Então, quando a gente tá nessa posição, seja poeta ou músico, consegue alimentar um pouco a esperança do outro, plantar alguma coisa. Qualquer um tem a capacidade de influenciar positivamente uma pessoa, seja dentro de uma igreja ou entre amigos. Não podemos perder a esperança”, argumenta o compositor, que, em 2006, ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro infantil com Um garoto chamado Rorbeto.
Diferentemente de quem condena as redes sociais e as considera apenas um ambiente para a reprodução do ódio, Pensador tem boa relação com os canais virtuais. Conta que administra pessoalmente os próprios perfis. “Hoje, tem a interação do Instagram, vejo o quanto a gente troca energias boas nos comentários. Posto ali na espontaneidade, vejo pessoas que falam de amizade, amor e de coisas boas para fazer reverberar. Isso me dá esperança”, defende.
Gabriel O Pensador está presente no Facebook, Instagram, Twitter e YouTube, onde, em breve, pretende publicar entrevistas e outros conteúdos além de músicas.
O último álbum do rapper foi Sem crise (2012). Desde então, divulgou apenas singles e assim deve continuar. “Demorei muito tempo para lançar o CD e tive a sensação de que as pessoas não estavam mais naquela cultura de ouvir o álbum todo. Muita música legal acabou se perdendo. Sempre gostei de fazer disco, daquela estética, daquela unidade. Porém, hoje estamos ligados em singles, clipes... Daqui a pouco, posso até ter uma compilação com Chega, Matei o presidente e Cacimba de mágoa, que gravei com o Falamansa, sobre a tragédia de Mariana. Não parei de fazer música, mas não me vejo preocupado em lançar um disco inteiro”, explica.
LÔRABURRA
O formato dos lançamentos não é a única adequação de Gabriel aos novos tempos. Nesta época de mobilização por direitos igualitários de gênero, ele reviu seu repertório, especificamente o rap Lôraburra, lançado em 1993. “Tirei essa música dos shows há muito tempo, há mais de 10 anos. Não acho que ela seja preconceituosa, mas algumas frases são muito agressivas. Fiz de propósito para as meninas daquela época refletirem e evitarem aquele perfil de objeto, de serem usadas, fúteis e sem personalidade. Era sarcástico, mas, depois de um tempo, não me senti à vontade com o personagem Gabriel da música. Hoje, não gostaria de cantá-la. Tirei faz tempo, bem antes dessa discussão vir mais à tona”, garante.
Nesses 25 anos de carreira marcada por raps que criticam tanto políticos quanto playboys, filhinhos de papai e “marionetes alienadas”, ele destaca que se orgulha “de poder chegar no coração das pessoas”.
“Não importa o assunto, mas algumas músicas têm mais história. Coisa de inspiração mesmo, a pessoa fica com brilho no olho. Isso de minha obra inspirar e emocionar é o que mais me orgulha, porque me inspira de volta. Tenho vontade de abraçar todo mundo, mostro o braço arrepiado no palco. Desde adolescente, acredito muito no poder da música. É um privilégio poder fazer isso com minhas palavras, chegar nas pessoas dessa forma, com essa força. Só tenho a agradecer”, conclui Gabriel O Pensador.
AJOELHOU TEM QUE REZAR
Domingo (11), a partir das 20h. Land Spirit. BR-356, KM 7,7, Bairro Olhos D’Água. Com Gabriel O Pensador, DJ Yuri Martins, Bloco Chama o Síndico e Bloco do Pimpão. Ingressos: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia-entrada), à venda no site www.sympla.com.br.