Estilo musical pode influenciar no cérebro do músico? Estudo diz que sim

Pesquisa com 30 pianistas profissionais, sendo a metade dedicada ao jazz e a outra metade ao repertório clássico, detecta que eles realizam processos cerebrais distintos ao executar a mesma peça

Beethoven, um dos compositores mais conhecidos do mundo, quando comentava sobre seu ofício, dizia: “Os músicos utilizam de todas as liberdades que podem”. A afirmação do artista tem sido demonstrada pela ciência. Inúmeras pesquisas tentam desvendar como funciona a atividade neural daqueles que se dedicam à música. Um dos achados mais recentes vem da Alemanha. Cientistas identificaram que o cérebro de artistas do jazz trabalha de forma distinta do cérebro de pianistas clássicos, mesmo quando tocam a mesma peça.

A razão da diferença não é clara para os pesquisadores, que ressaltam que há muito a entender sobre as sinfonias cerebrais. “O próprio Charles Darwin já se perguntou sobre a capacidade de produzir música como uma ‘faculdade entre as mais misteriosas com que o homem é dotado’. Mesmo os próprios músicos acham misterioso o que podem fazer”, afirma Roberta Bianco, pesquisadora do Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Ciências Humanas e principal autora do estudo, divulgado na revista NeuroImage.

Um dos pontos de partida do estudo foi o fato de o cérebro de músicos ser diferente do de pessoas sem essa habilidade. “As áreas auditivas e motoras são maiores, estão mais conectadas entre si para verificar se o movimento produziu o som correto, por exemplo. O que não tinha sido mostrado até o momento é que cérebros de dois grupos altamente treinados musicalmente também se diferem. Esse foi o nosso objetivo”, afirma Daniela Sammler, coautora do estudo.

Por pelo menos dois anos, as duas cientistas e parceiros analisaram 30 pianistas profissionais, sendo metade especialista em jazz e metade da área clássica. Todo o grupo passou pela mesma tarefa: em uma tela de computador, viam a mão de uma pessoa tocando, em um piano, uma sequência de acordes cometendo erros de harmonias e dedilhados. Os pianistas profissionais tinham que imitá-la em um instrumento real – cujo som foi retirado para dar mais fiabilidade ao desafio – e “reagir” aos erros. Ao mesmo tempo, seus sinais cerebrais eram registrados por sensores de eletroencefalografia posicionados na cabeça.

Os registros mostraram que, na execução da tarefa, especialistas em jazz e pianistas clássicos tiveram processos cerebrais distintos. “Quando pedimos aos pianistas que dessem continuidade a harmonias, os de jazz reconheceram o erro e adaptaram muito flexivelmente, provavelmente porque estão acostumados a fazê-lo, devido ao treinamento em improvisação e a brincadeiras com harmonias, modificando-as de forma criativa”, conta Sammler.

Os pianistas clássicos ficaram mais surpresos ao ter que refazer a sequência. Quando os cientistas analisaram a técnica de ambos os grupos, porém, eles se sobressaíram. “Os clássicos são muito precisos em seus movimentos. Quando, de repente, nós pedimos para eles tocarem acordes/tons com posições de dedos ‘estranhas’, eles fizeram com muita precisão, talvez porque são mais focados na harmonia”, cogita a autora.

Treinamento Segundo a equipe de pesquisadores, a diferença está relacionada ao treinamento a que cada grupo é submetido. Os clássicos concentram-se no “como”. Para eles, a técnica é prioridade, porque a melodia já está composta. Os pianistas de jazz, por outro lado, concentram-se no “o quê”. Eles estão sempre preparados para improvisar e adaptar, a fim de criar harmonias inesperadas.

“Todos sabemos que tocar jazz não é o mesmo que tocar música clássica, mas, até agora, não sabíamos o porquê. Nesse estudo, podemos ver essas diferenças. Os pianistas estavam fazendo exatamente a mesma tarefa, mas, intuitivamente, com o seu estilo. Seu cérebro definiu intuitivamente diferentes prioridades de planejamento de ação”, destaca Bianco.

Os autores acreditam que os resultados também mostram como o cérebro consegue se adaptar ao que é pedido, ao ambiente em que um indivíduo está inserido. “Todos os nossos pianistas foram altamente profissionais, todos foram ótimos na tarefa, mas, ainda assim, os cérebros lidaram com os mesmos estímulos de maneira diferente. Isso nos diz o quão bom esse órgão (o cérebro) é na capacidade de aprender, o que pode ter implicações também na educação”, diz Bianco.

Nasser Allan, neurocientista e pesquisador associado do Laboratório de Neurociências e Comportamento da Universidade de Brasília (UnB), ressalta a aplicabilidade dos resultados obtidos. “Levando esses resultados para o mundo real, se você tem um músico clássico que perde seu emprego, ele pode tocar jazz. Ele vai ter limitações como as vistas na pesquisa, mas vai conseguir, pois tem a capacidade de executar a tarefa mesmo com estratégias diferentes”, afirma.

As autoras chamam a atenção para o fato de a pesquisa também mostrar a importância do sistema motor em processos de aprendizagem e como ele pode influenciar o desempenho em tarefas que, à primeira vista, se mostram mais cognitivas do que físicas. “Muito do que fazemos é resultado do treinamento motor, de falar, escrever ou digitar em um teclado. Às vezes, somos incapazes de dizer verbalmente um número de telefone, mas, se tentarmos digitá-lo em nosso aparelho de telefone, o fazemos com precisão”, diz Bianco.

Segundo a cientista, a forma como os pianistas usam o sistema motor é um exemplo ampliado dessa relevância. “Eles treinam para incorporar programas motorizados muito mais complexos: não um número de telefone, mas, talvez, uma sinfonia completa, e não apenas as notas, mas a expressividade que acompanha cada uma delas. Fazem até o ponto de a mão conhecer o caminho do instrumento e ir sozinha”, ressalta. “Na minha opinião, nessa pesquisa, sugerimos como os programas motorizados não são escravos ‘idiotas’ a serviço de nossas mentes. Em vez disso, através da experiência, o corpo pode assumir algumas responsabilidades bastante complexas e, talvez, até ‘criativas’ em nosso comportamento.”

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