Herdeiras do legado de Chiquinha Gonzaga, compositoras lutam por espaço na música brasileira

A União Brasileira de Compositores (UBC) informa que apenas 8% de seus 23 mil associados são mulheres

por Ana Clara Brant 11/11/2017 06:00
Quinho/EM/D.A.Press
(foto: Quinho/EM/D.A.Press)

Considerada a primeira compositora brasileira, Francisca Edwiges Neves Gonzaga (1847-1935), a Chiquinha Gonzaga, teve que enfrentar imensos desafios para se impor. Encontrou forte oposição da família e do marido, além de sofrer preconceito por se divorciar e viver da música. Não fosse por sua obstinação, o Brasil e o mundo jamais conheceriam joias como Ó abre alas – nossa primeira marchinha carnavalesca –, Atraente, Corta-Jaca e Lua branca.

“Certamente, houve outras compositoras antes da Chiquinha. Mas, infelizmente, há muito pouco registro delas, que deviam compor em casa enquanto cuidavam da casa e dos filhos. Acabaram não se profissionalizando. Para ser quem foi, Chiquinha Gonzaga enfrentou uma série de barreiras. Ela é o marco da composição feminina no Brasil”, destaca a jornalista e escritora Christina Fuscaldo, que está desenvolvendo a pesquisa “A voz da cantautora na história da música brasileira” em seu doutorado na PUC-Rio.

“Apesar de o Brasil não usar o termo cantautor, que, aliás, nem existe no dicionário, acho-o mais adequado para definir quem canta e compõe a própria música. A voz vem no sentido de mostrar que as mulheres estão tendo cada vez mais espaço”, diz, referindo-se ao tema de sua pesquisa.

O país tem 6 milhões de mulheres a mais do que homens, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, é pífio o número de autoras de música. A União Brasileira de Compositores (UBC) informa que apenas 8% de seus 23 mil associados são mulheres.

“Isso não ocorre só na parte de composição. Quantas mulheres temos nas bandas? Uma pra quatro, no mínimo. Há poucos dias, no evento do projeto Querubins, no Palácio das Artes, eu era a única mulher no palco, entre uns 20 homens... Porém, isso está mudando aos poucos. Vejo vários festivais incentivando o encontro e a produção feminina. Esse movimento vai dar resultado lá na frente. É preciso ter figuras inspiradoras, além da nossa própria vontade de ocupar espaço”, ressalta a cantora e compositora Fernanda Takai.

Desde sua primeira banda de escola, Fernanda já sabia a importância de compor material inédito. “Às vezes, ficava horas tirando músicas dos outros no violão. Mas, de repente, parava e pensava: vou tentar fazer uma canção. Ficava ali, tentando achar um assunto ou uma sequência interessante de acordes”, relembra.

PRIMEIRA PESSOA

Quando a carioca Joyce começou a compor, em 1968, era raríssimo encontrar mulheres nessa função. “Éramos eu e a Sueli Costa. Quase todas as compositoras anteriores já haviam morrido. Eu ainda tinha o agravante de escrever na primeira pessoa do feminino singular, tocar violão e querer autossuficiência na questão de arranjos. Tudo foi muito problemático naquele início”, revela.

Para a autora de Feminina, a desproporção entre compositores e compositoras se deve à questão estrutural do machismo. “Não somos preparadas para isso, no sentido de que a fábrica de ideias é sempre uma prerrogativa masculina. Sempre foi muito difícil expor o próprio pensamento sendo mulher. Isso vem de muitos séculos, não é recente. Veja como há muitos casos na música clássica e mesmo no samba, aqui no Brasil. Dona Ivone Lara, por exemplo, precisou que o primo assinasse os primeiros sambas dela para que fossem aceitos no Império Serrano”, comenta.

Joyce faz parte da pesquisa de Christina Fuscaldo, que destaca o grande hiato entre Chiquinha Gonzaga, no fim do século 19, e novas compositoras. “Só lá nos anos 1950 vieram Dolores Duran e Maysa com aquelas músicas dor-de-cotovelo. Nas décadas de 1930 e 1940, sugiram nomes pouco conhecidos como Bidu Reis (autora de baiões, sambas e boleros) e Dora Lopes, autora de 300 canções de diversos gêneros registradas em disco. Nos anos 1960, tivemos a Joyce e a Sueli Costa, que continuam em atividade, e Rita Lee, uma década depois. Nos anos 1980 e 1990, surgiram Fernanda Takai, Marina, Paula Toller e Marisa Monte, que também passou a compor”, analisa Christina. Para ela, esses intervalos se devem, principalmente, ao machismo.

Joyce enfrentou discriminação. “Meu primeiro disco é de 1968. O fato de as canções serem escritas com letras no feminino foi objeto de muita crítica. Compor aos 19 anos e com certa liberdade incomodava muito. Um crítico disse até que a música era boa demais para ter sido feita por uma mulher. Ou seja, ele estava simplesmente duvidando da minha autoria”, lamenta.

“Depois da ditadura militar e de todas essas revoluções que atravessamos, a mulher passou a conquistar espaço em várias áreas. Hoje, temos compositoras em praticamente todos os estilos – seja a Paula Fernandes, no sertanejo, a Anitta, no funk, e a Teresa Cristina, no samba, só para citar alguns nomes”, ressalta Christina Fuscaldo.

MINEIRAS

Em 2011, enquanto concluía o curso de música na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a cantora, compositora e violonista Deh Mussulini idealizou o coletivo ANA. “A gente se juntou para mostrar nossas canções. Éramos uma amostra das diversas mulheres que compunham na cidade. A ideia foi legitimar as mineiras, fazer com que o público buscasse mais sobre as autoras de sua cidade e de seu estado”, ressalta Deh. O grupo reúne também Luana Aires, Laura Lopes, Michelle Andreazzi, Irene Bertachini, Leonora Weissmann e Luiza Brina.

Apesar das dificuldades, Deh aponta avanços. “Vejo como nos empoderamos. Estamos tomando o nosso lugar de direito, que nos foi negado historicamente. Não foi o machismo que diminuiu ou os homens que se conscientizaram, foram as mulheres que se perceberam, ocupando seu lugar como criadoras de sua própria arte”, salienta.

Brisa Marques fez parte do ANA, assim como Leopoldina. “Já fazia poesia e, certo dia, o compositor Luiz Rocha pediu para que eu musicasse meus próprios poemas. Isso já tem 10 anos, nunca mais parei”, lembra Brisa. A mulher assumiu o posto de intérprete há muito tempo, mas já estava na hora de assumir a veia autoral, pontua. “Não é para preencher cota, nada disso. Os homens sempre compuseram e cantaram a própria música. Por que isso não poderia acontecer conosco? A mulherada está ganhado visibilidade em todas as áreas. É o momento de exacerbar o feminino e o feminismo com muita força.”

Leopoldina destaca que, ao conquistar seu espaço na música, a mulher não está necessariamente disputando com o homem. “Todo mundo tem os lados feminino e masculino. Não precisa de briga, tenho parceiros dos dois sexos. Devemos nos reconhecer no outro, até porque canção não tem gênero. Pra mim, compor é um ato de mergulho, de tentar traduzir sensações em palavras. Criar está acima de qualquer disputa de sexos”, assegura a compositora mineira.

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