Uruguaio Daniel Drexler lança disco com músicas sobre os impasses sociais na América do Sul

Uno também tem letras que falam da relação do cantor e compositor com a arte e a ciência

por Pedro Galvão 03/11/2017 07:41
Santiago Epstein/divulgação
(foto: Santiago Epstein/divulgação)

Ouvindo apenas as melodias, soa como um produto da nova geração da MPB, que mescla bossa nova a outros ritmos brasileiros. No entanto, os versos em espanhol nos fazem entender que se trata de um disco estrangeiro – no caso, do uruguaio Daniel Drexler. Uno é o oitavo álbum do artista, de 48 anos, que, a exemplo do irmão Jorge – premiado em 2005 com o Oscar por Al otro lado del río, tema do filme Diários de motocicleta –, concilia a carreira médica com a musical.

Com 12 faixas, Uno é definido pelo cantor, instrumentista e compositor como resultado da conciliação de diferentes aspectos de sua vida. “O fio condutor tem a ver com a minha posição atual de unificar duas esferas pessoais que estavam afastadas: uma, da música, poesia e da criatividade; outra, do trabalho médico e da pesquisa em ciências. Ao longo dos últimos seis anos consegui unificar as duas esferas, estou vivendo melhor assim. E é sobre isso que as canções falam”, revela Drexler.

As letras falam de trivialidades, relacionamentos, da natureza e até da Rambla de Montevidéu. Mas também há espaço para mensagens mais críticas. Em Los peones de la guerra, um dos singles já lançados, Daniel aborda o impacto da desigualdade social sobre as metrópoles latino-americanas.

“Tenho viajado muito pela América do Sul, América Central, América do Norte e Europa. Há um padrão que se repete na América do Sul, com a periferia da exclusão, criminalidade, violência e falta de serviços básicos. Isso acontece em Montevidéu, São Paulo, Buenos Aires e Medellín, em todas as grandes cidades. Tentei falar sobre a exclusão, entender que ela tem a ver com um legado histórico, com o jeito como a colonização ocorreu. Essa canção é uma reflexão sobre isso”, explica.

ILHA

Ao comentar o contexto sociopolítico latino-americano, Drexler compara seu país aos vizinhos. “O Uruguai está virando uma ilha na América do Sul. Hoje, a liberdade é muito forte, a sensação de direitos individuais e humanos está muito bem aqui. Vejo com tristeza o que acontece no Brasil, fico com a sensação de que o país estava em uma estrada boa, avançando, com milhões de pessoas saindo da pobreza, mas vejo agora uma situação de retrocesso. Porém, ao mesmo tempo, é a democracia – e por isso é preciso paciência. Para quem nasceu sob uma ditadura, como eu, é sempre mais importante apostar na democracia a cair na tentação da violência ou de outro tipo de mecanismo que acaba sendo pior. Espero que o Brasil encontre o seu rumo, assim como a Argentina e a Venezuela”, pondera o uruguaio.

Fluente em português, Drexler enfatiza: os países vizinhos têm em comum não apenas mazelas sociais e políticas, mas a arte. E minimiza a diferença linguística entre o Brasil e outras nações da América do Sul. Diz que a música brasileira foi determinante tanto em sua vida quanto na dos conterrâneos.

“O Uruguai é um país pequeno entre dois gigantes, o Brasil e a Argentina. Então, aqui estamos muito ligados à cena musical brasileira. Meus pais sempre tiveram discos de João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi, muita gente aqui ouvia isso e essa música se tornou minha principal referência. Foi muito natural a conexão com a música popular brasileira”, argumenta.

BRASIL

A relação de Daniel Drexler com os ritmos brasileiros não se esgota nas influências do passado. “Nunca sonhei em desenvolver meu trabalho no Brasil. Isso começou aos poucos, pelo Sul, pois tenho uma relação muito fluida com o Rio Grande do Sul, o Paraná e São Paulo. Agora começo a me aproximar do centro do país. Muitos músicos uruguaios da minha geração estão percebendo essa possibilidade”, revela.

Drexler se tornou parceiro dos brasileiros Davi Moraes, Domenico Lancellotti e Marcelo Jeneci – esse último, inclusive, participou da gravação de Uno, realizada no estúdio carioca Marini. Jeneci canta na faixa Al menos un segundo.

UNO
• De Daniel Drexler
• MS2 Discos
• Preço médio: R$ 27
• Lançamento em 10 de novembro. Versão digital disponível no Spotify, Deezer e YouTube


CLUBE DA ESQUINA

O lançamento de Uno está marcado para 10 de novembro. A turnê de divulgação vai se iniciar no México, ainda este mês, seguindo, em 2018,  para a Argentina e a Espanha. O Brasil deve entrar na agenda de Daniel Drexler no segundo semestre de 2018, ainda sem datas confirmadas. “É certo que irei ao Sul, Rio, São Paulo e Salvador. Quem sabe BH? É uma das cidades que não conheço ainda. Sei que é uma capital muito importante na cena cultural brasileira, já ouvi muito Clube da Esquina e Milton Nascimento”, conta.

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