Festival de Arte Negra em BH homenageia a cantora lírica Joaquina Lapinha

Nona edição do FAN, que começa hoje, faz homenagem à cantora que viveu no século 18, e promove apresentações gratuitas de cantoras e DJs em BH

por Ana Clara Brant 15/10/2017 08:00
Diego Bresani/Divulgação
A cantora Ellen Oléria é uma das atrações da programação, que começa hoje e vai até dia 22 (foto: Diego Bresani/Divulgação)

Muito antes de a expressão empoderamento feminino ficar na moda, várias mulheres já mostravam que estavam à frente de seu tempo. Uma delas (infelizmente pouco conhecida pela maioria dos brasileiros) é a grande homenageada da 9ª edição do Festival de Arte Negra (FAN) – a atriz e cantora lírica do século 18 Joaquina Maria da Conceição, a Lapinha. O evento, que começou neste domingo (15/10) e vai até 22 de outubro, tem como foco principal o protagonismo das mulheres negras.

O público poderá conferir aproximadamente 100 atrações, entre música, teatro, literatura, exposições, rodas de conversa, oficinas, mostras de cinema e até uma programação especial voltada para as crianças, no Fanzinho. “Apesar das dificuldades, da crise, o FAN está aí, com toda a sua força. Estou com muito frio na barriga, já que é primeira vez que estou do outro lado”, diz a pesquisadora Luciana Gomes, a DJ Black Josie, que, após participar como artista em outras edições, é uma das curadoras neste ano, ao lado da atriz e dramaturga Carlandreia Ribeiro e da pesquisadora das artes e cultura negra Karu Torres.

Foi de Luciana a ideia de homenagear Lapinha. Com formação erudita, a DJ conta que a população negra, de um modo geral, nunca se identificou com esse gênero musical, apesar de muitos artistas líricos do Brasil colonial serem afrodescendentes. “A própria Lapinha é considerada uma das primeiras cantoras líricas a se apresentar fora do Brasil. Ela fez um enorme sucesso em Portugal e chegou a cativar até mesmo Dom João VI. Lamentavelmente, temos poucos registros sobre sua vida. Há até quem diga que ela era mineira”, comenta.

A abertura oficial do FAN, na manhã deste domingo, no Parque Municipal, procura estabelecer um diálogo com a história da homenageada, assim como ressaltar a contribuição do povo negro na música erudita. A Orquestra Sinfônica e o Coral Lírico de Minas Gerais e os solistas Luiz-Ottavio Faria e Marly Montoni apresentarão trechos da Ópera Porgy and Bess, do compositor norte-americano George Gershwin, que tem estreia prevista para o dia 21, no Palácio das Artes. “Também vamos fazer dois concertos para a Lapinha. O repertório vai trazer obras que a gente sabe que ela interpretou e outros que a gente supõe. Um ocorre no dia 21, no Conservatório da UFMG, e o outro, no dia 22, no Museu de arte da Pampulha (MAP)”, informa.

Luciana Gomes também ressalta a participação dos DJs no Festival, que vão discotecar todas as noites, no Parque Municipal. Entre os convidados estão o DJ Eddy Alves, que criou um set só com músicas de Elza Soares e Nina Simone, e a DJ Sandrinha, que vai focar no soul brasileiro e no dos Estados Unidos. “Essa é a marca que quero deixar na curadoria do FAN. O negro na música erudita e uma atenção especial aos DJS”, pontua.

Lost Art/Divulgação
Karol Conka trará a Belo Horizonte seu show Batuk freak, no dia 19 (foto: Lost Art/Divulgação )

Ainda no campo da música, entre os nomes da cena nacional, destaque para a cantora e apresentadora Karol Conka, que vai apresentar o show do disco Batuk freak, no dia 19. A programação ainda traz a atriz e cantora Zezé Motta, a vencedora da primeira edição do The voice Brasil, Ellen Oléria, e a poeta e atriz Elisa Lucinda, que participa de uma roda de conversa sobre o protagonismo da mulher negra no Brasil.

PRATA DA CASA O FAN não esqueceu dos artistas locais. O Coletivo Negras Autoras, criado há dois anos em Belo Horizonte, vai encenar no Teatro Marília, amanhã (16/10), o seu mais recente espetáculo, Eras. A produção, que tem direção de Grace Passô e preparação vocal de Fabiana Cozza, é um show cênico musical com composições sobre as relações temporais e atemporais entre o universo da mulher negra e o que a rodeia na contemporaneidade. “O FAN sempre teve esse histórico de resistência, e nossos trabalhos também têm muito disso. É muito simbólico participar de mais uma edição e apresentando um projeto de amadurecimento”, afirma uma das integrantes do coletivo, a atriz e musicista Nath Rodrigues. A artista ressalta a importância do tema deste ano, já que, historicamente, o feminino sempre foi bastante associado à mulher branca. “A negra foi colocada numa outra esfera, por causa da escravidão. Estamos aprendendo a construir nossas relações e temos uma maneira peculiar de falar do feminino”, diz.

“UBUNTU”


Um dos momentos mais tradicionais e simbólicos do FAN-BH é o Ubuntu – Encontro da Diversidade Religiosa, que vai reunir no Parque Municipal grupos de diferentes crenças. A palavra “ubuntu” tem origem africana e o significado pode ser resumido como “sou quem sou porque somos todos nós”. A proposta do encontro é justamente o fortalecimento da diversidade religiosa, firmando a noção de união das diferenças, harmonia entre povos e crenças.

MARCOS VIEIRA/EM/D.A.PRESS
O angolano Nástio Mosquito apresentou pela primeira vez no Brasil a performance Respectable thief na abertura da exposição Ex Africa no CCBB-BH, na quarta-feira (foto: MARCOS VIEIRA/EM/D.A.PRESS)

Sonhos roubados


Em seu perfil no Facebook, o multiartista angolano Nástio Mosquito se descreve como “um criativo vagabundo com preocupações econômico-financeiras”. O cantor, compositor, fotógrafo, poeta, videomaker e artista plástico de 36 anos esteve pela primeira vez em Belo Horizonte na última quarta. Ele apresentou no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) a performance Respectable thief (respeitável ladrão, em inglês), em que cantou um repertório de sua autoria e interagiu com o público fazendo uso de três telas de projeção. A apresentação marcou a abertura da exposição Ex Africa, que fica em cartaz até 30 de dezembro.


“Essa performance já foi encenada em outros lugares, como o Museu de Arte Moderna de Nova York. No Brasil, foi a primeira vez, e espero que não seja a última. Estou esperançoso (risos). Ela mescla tudo um pouco que eu faço. O Respectable thief investiga o ato e os efeitos da apropriação – as maneiras pelas quais indivíduos e culturas tomam posse do que é útil para construir a identidade, para manter relacionamentos e ganhar poder. Esse ‘ladrão respeitável’ fala das coisas tangíveis e intangíveis que nos roubam a qualidade de vida”, explica.


Em sua passagem pela capital mineira, de onde ele retorna para a Bélgica, onde mantém sua residência, Mosquito se programou para conhecer Inhotim. “Foi a primeira coisa que me falaram quando cheguei no aeroporto”, conta.
Entre todas as artes que ele desenvolve, a música veio primeiro. Nástio Mosquito conta que teve que “lutar contra os pais” para poder tocar jazz. “Depois, acabei indo estudar produção de mídia em Londres. E aí veio o vídeo, o teatro, o rádio. Tudo foi se combinando”, diz. Ele tem três álbuns gravados –- Gatuno EIMigrante & Pai de família (2016); Se eu fosse angolano (2013) e S.E.F.A. - Fast Food (2013) – e deve lançar mais um em 2018.


Nascido em Huambo, o artista chegou a assistir bastante a novelas brasileiras, assim como boa parte de seus compatriotas. Mas o Brasil está presente de outras maneiras em sua formação. “O modo como o Brasil se relaciona com a língua portuguesa, seja na literatura ou na música, essa maneira humana é muito interessante. Eu diria que a linguagem é como o Brasil me influencia.” (ACB)

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