Ex-Titã reúne parceiros de várias gerações em seu novo CD solo, A gente mora no agora

Paulo Miklos canta a volta por cima e a necessidade de viver o presente

Bruno Trindade/divulgação
(foto: Bruno Trindade/divulgação)

“Chorar é importante igual sorrir/ Avisa que eu voltei sem sair daqui.” Os versos de Emicida sintetizam o atual momento de Paulo Miklos. Em pouco tempo, o ex-Titã, de 58 anos, perdeu o pai, a mãe e a mulher. Sem usar drogas há anos, o cantor e compositor precisou encontrar forças para superar tantos baques. E conseguiu. Manteve-se longe dos vícios, apaixonou-se outra vez e acaba de lançar o disco A gente mora no agora. É o primeiro CD de Miklos depois da saída do Titãs. Ele canta a volta por cima e a necessidade de viver o presente. Os novos parceiros vêm de diversas gerações – de Erasmo Carlos e Guilherme Arantes a Tim Bernardes (O Terno) e Mallu Magalhães, passando por Silva, Russo Passapusso (BaianaSystem), Céu e Lurdez da Luz. Os ex-Titãs Arnaldo Antunes e Nando Reis também se juntaram ao amigo.

Como você se sente fora do Titãs? A banda fez parte de praticamente toda sua vida…

Estou muito satisfeito com o disco novo. Acho que não conseguiria fazer um trabalho dessa magnitude ainda dentro da banda. Tive duas experiências importantes, que foram os meus primeiros discos solo paralelamente ao trabalho com os Titãs. Uma vez fora da banda, pude me lançar por inteiro nesse novo trabalho. E ele vem com a força de quem se arriscou e se entregou completamente.

A gente mora no agora tem muitas parcerias. Foi sua vontade, desde o início, fazer um disco assim?

Isso foi se delineando aos poucos. Eu tinha muito material, algumas letras, várias ideias musicais. Na verdade, é uma característica minha essa coisa de transitar e trabalhar com muita gente. Gosto de fazer isso. Desenvolver algo em parceria significa você dar uma contribuição, receber o estímulo do outro lado e chegar a um lugar onde nenhum dos dois poderia chegar sozinho.

Ao mesmo tempo, esse é um disco muito pessoal – pelo menos, é a impressão que fica. Como conciliar a intimidade com as parcerias?

Nesse disco, tenho parcerias com ídolos, com amigos da vida toda e com novíssimos que acompanho e admiro. Alguns deles conheceram a minha história recente, entenderam aquilo que estava por trás dela e compuseram inspirados nisso. O Guilherme Arantes, por exemplo, fez uma letra que fala de superação, de reencontro com o amor. Isso ocorreu algumas vezes no disco. É muito interessante, por exemplo, que o Emicida tenha feito um perfil meu tão preciso em A lei do troço.

Da letra do Emicida veio o título, A gente mora no agora, quase um mantra… É reflexo de sua vida pessoal?

Sem dúvida. O significado que está por trás desse título, desse conceito, é, justamente, não viver a nostalgia do passado e não cair na ansiedade do futuro. Temos que viver o presente intensamente. Fazer agora aquilo que a gente vai colher depois.

Tem a questão do agora, mas a do ontem também… Então, o que lhe trouxeram o tempo de carreira e o amadurecimento?

Muito autoconhecimento e experiência. E foi com isso, com a experiência de uma vida toda de trabalho, que fiz o novo disco. Por isso, ele tem uma brasilidade tão presente, pois a minha formação é de música brasileira. Esse disco tem muito de autobiográfico, do meu passado recente e também de tudo o que ouvi desde moleque.

O novo trabalho pode surpreender quem só conhece o seu lado roqueiro… Foi sua intenção mostrar mais desse outro lado?

Com certeza, e acho que as pessoas vão gostar, pois continuo com a mesma pegada, com a mesma gana, com a mesma vontade como intérprete. É aquilo que aprendi com o rock and roll. O disco também tem guitarras, tem essa coisa do rock.

Você fez um passeio por várias gerações de parceiros – de Erasmo Carlos, de 76 anos, a Tim Bernardes, de 26. Você se sente ligado a essas gerações?

Sim. É muito interessante como essa costura com os parceiros todos, de gerações diferentes e de gêneros diferentes também, me definiu muito. Acho muito interessante ter conquistado essa unidade, porque a minha vontade era ter essa coisa diversa, o convívio com tantas ideias diferentes. Sirvo aí como um elemento para sintetizar essas coisas todas.

Você, claramente, está de olho na nova geração. A música brasileira vive um bom momento?

É um bom momento, sim. Temos a possibilidade da internet, algo que pode trazer o artista para mais perto do público. E o artista acaba indo para a grande mídia a partir do reconhecimento que ocorre, primeiramente, no meio digital, virtual. Alguns dos novos artistas que admiro estão presentes no meu disco.

Há um bom tempo, você parou de usar drogas. O que mudou, artisticamente falando? Nesse sentido, fez alguma diferença?

No meu caso, sim. Foi fundamental parar. Estou num momento muito bom. Passei por todas aquelas perdas... Quando isso ocorreu, já estava limpo. Foi fundamental para que eu tivesse forças para lidar com essas situações.

Você construiu uma carreira muito intensa como ator. Sua vertente musical conversa com essa outra faceta?

Sou um intérprete. Minha maneira de cantar, de me apresentar, vai diretamente na linha que se estende até o ator. O ator também é intérprete. As coisas meio que se misturam, uma sai de dentro da outra. Vejo isso como extensão. Pra mim, tem essa naturalidade.

Você já se aventurou pela música, TV, teatro e cinema. Falta alguma coisa? Tem algum outro talento aí que a gente desconhece?

Olha, se tivesse, eu mostrava. (risos). Mas na cozinha sou péssimo, só sei fritar ovo. E jogando bola, só jogo bem no gol…

No disco, tem política. É o caso de País elétrico, parceria com Erasmo Carlos. Falar de política em um álbum tão pessoal foi uma necessidade?

Sempre é uma necessidade comentar o tempo, a época em que a gente vive, e tentar de alguma forma fazer com que esse comentário seja atemporal, que fale sobre o homem. Acho da maior importância comentar aquilo que a gente passa. É lógico que, no futuro, as pessoas podem ouvir e falar: “Bicho, estou vendo isso agora”. Ou não, achar que ficou datado. Mas a gente trabalha para que as coisas sejam perenes.


FAIXA A FAIXA

. A lei desse troço (Paulo Miklos e Emicida)
. Vigia (Paulo Miklos e Russo Passapusso)
. Risco azul (Céu, Pupillo e Paulo Miklos)
. Vou te encontrar (Nando Reis)
. Todo grande amor (Silva e Paulo Miklos)
. País elétrico (Erasmo Carlos e Paulo Miklos)
. Estou pronto (Guilherme Arantes e Paulo Miklos)
. Não posso mais (Mallu Magalhães)
. Princípio ativo (Paulo Miklos e Céu)
. Afeto manifesto (Paulo Miklos e Lurdez da Luz)
. Samba bomba (Tim Bernardes e Paulo Miklos)
. Deixar de ser alguém (Paulo Miklos e Arnaldo Antunes)
. Eu vou (Tim Bernardes)



A GENTE MORA NO AGORA
. De Paulo Miklos
. Deck
. 12 faixas
. Preço recomendado: R$ 24,90


LETRAS

É doce o efeito
Pular os buracos
Tudo que eu faço
É me erguer dos destroços
Num mundo imperfeito
Mergulho nos fatos
Melhor, me refaço
É a lei desse troço
A LEI DESSE TROÇO

***

Todo raio agora tem GPS
Da escória do mundo não esquece
O bonzinho do mal vive sorrindo
O mauzinho do bem se divertindo
PAÍS ELÉTRICO

***

Teu nome pichou minha praça central
Declarei um passe livre total
Acesso permanente e restrito
A melhor e a pior versão do meu ser
Quero acontecer com você
AFETO MANIFESTO

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